segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Tradições, contradições

* Por Walter da Silva

Desde algum tempo venho me interessando pela pesquisa genealógica a fim de construir minha própria árvore. Estimulou a ideia o fato de um ex-colega de Universidade já haver concluído a sua, depois de árdua investigação. O que me atraiu, no entanto, é a pouca importância que o brasileiro concede ao nome de família que não pôde escolher. No meu caso há um agravante a priori e um feliz atenuante a posteriori. O apelido* Silva, conhecido no mundo inteiro, provavelmente nos cinco continentes, é no mais das vezes negligenciado, propiciando uma concepção de demasiada vulgaridade, em face da grande quantidade de ramos existentes. Contudo, faz algum tempo descobri que o sobrenome Silva tem uma origem nobre, de uma casta egressa dos tempos da antiga Roma. De fato constitui um topônimo, haja vista ser seu significado selva, floresta, etc.

Tive um colega de curso primário cuja família era Selva, mas jamais nos demos conta disso, porque havia algo mais lúdico a nos ocupar. Floresta, desconheço de antemão. Um adendo a isso, vale a pena mencionar aqui. Na época em que adquirimos um imóvel financiado, fui instado a provar que eu era eu. Um dos principais requisitos necessários, consistia num documento de homonímia e o que nos diferenciava era o cadastro de pessoa física, CPF. Foi curioso e muito hilário, porque contei comigo, uns vinte e tantos Walter Silva, incluindo um gerente do Banorte, muito simpático. Ele também fora vítima dessa pandemia dos Silvas, para quem o catálogo telefônico dedica muitas páginas em meio às diversas combinações e arranjos per se. No final das contas, consegui provar ao outro que eu sou eu, silvamente falando. Por curiosidade, o próprio gerente me confortara dizendo que seu empregador o banqueiro-mor, ostentava o singelo e tentacular Silva. Para o leigo, tal sobrenome não é nada, ou quase. Quanto a mim, depois de ter verificado de qual fundo de tacho eu havia sido metamorfoseado, acometeu-me um baita orgulho. Mas o melhor estava por vir.

Durante as boas e vagas horas, resolvi aprofundar mais a pesquisa e constatei através do Wikipédia, detalhes das diversas linhagens, em ordem alfabética. Então, de “A” a “Z”, pude verificar que nem todos os brasileiros possuem um nome de família com direito a brasão. Por conseguinte, na própria letra “A”, conseguimos visualizar mais brasões do que nas demais. Certa vez descobri que o nome WALTER, genuinamente germânico, significa “aquele que comanda”. Bem, salvo engano, eu atualmente comando e muito mediocremente, meu labrador, Nero Calígula do Oitenta.

Eis que surge o tal atenuante a posteriori ao qual me referi: o altivo brasão, bem arquitetado e representado por um belo animal que você verá no anexo, ínclito e respeitável leitor. Não sabia que temos nós Silvas, direito à sua própria heráldica, quando observo que certos apelidos nacionais, não ousam possuir. Assim sendo, aqueles portadores do Silva, a partir dessas linhas, já não vão mais poder reclamar de vulgaridade e da suposta pouca relevância que seu sobrenome revela. Agora, bravo cidadão da grande família Silva, você poderá ilustrar no cartão de visita, no timbre do papel personalizado e quem sabe, num anel bem arretado, seu brasão particular, de modo a mostrar sem pejo ou temor, de qual berço lhe acalenta a existência.

* Escritor

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