domingo, 29 de junho de 2014

O futebol como religião secular

* Por Leonardo Boff

A presente Copa Mundial de Futebol, que ora se realiza no Brasil, bem como  outros grandes eventos futebolísticos, assumem características próprias das religiões. Para milhões de pessoas, o futebol, o esporte que possivelmente mais mobiliza no mundo, ocupou o lugar que comumente detinha  a religião. Estudiosos da religião, somente para citar dois importantes como Emile Durkheim e Lucien Goldmann, sustentam que “a religião não é um sistema  de ideias; é antes um sistema de forças que mobilizam as pessoas até levá-las à mais alta exaltação” (Durckheim). A fé vem sempre acoplada à religião. Esse mesmo clássico afirma em seu famoso As formas elementares da vida religiosa: ”A fé é antes de tudo calor, vida, entusiasmo, exaltação de toda a atividade mental, transporte do indivíduo para além de si mesmo” (p. 607). E conclui Lucien Goldamnn, sociólogo da religião e marxista pascalino: ”Crer é apostar que a vida e a história têm sentido; o absurdo existe, mas ele não prevalece”.

Ora, se bem repararmos, o futebol para muita gente preenche as características religiosas: fé, entusiasmo, calor, exaltação, um campo de força e uma permanente aposta de que seu time vai triunfar.

A espetacularização da abertura dos jogos lembra uma grande celebração religiosa, carregada de reverência, respeito, silêncio, seguido de ruidoso aplauso e gritos de entusiasmo. Ritualizações sofisticadas, com músicas e encenações das várias culturas presentes no país, apresentação de símbolos do futebol (estandartes e bandeiras), especialmente a taça que funciona como um verdadeiro cálice sagrado, um santo Graal buscado por todos. E há, valha o respeito, a bola que funciona como uma espécie de hóstia que  é comungada por todos.

No futebol como na religião, tomemos a católica como referência, existem os onze apóstolos (Judas não conta), que são os onze jogadores, enviados para representar o país; os santos referenciais como Pelé, Garrincha, Beckenbauer e outros; existe outrossim um papa, que é o presidente da Fifa, dotado de poderes quase infalíveis. Vem cercado de cardeais que constituem a Comissão Técnica responsável  pelo evento. Seguem os arcebispos e bispos, que são os coordenadores nacionais da Copa. Em seguida, aparece a casta sacerdotal dos treinadores, estes portadores de especial poder sacramental de colocar, confirmar e tirar jogadores. Depois emergem os diáconos, que formam o corpo dos  juízes, mestres-teólogos da ortodoxia, vale dizer,  das regras do jogo e que fazem o trabalho concreto da condução da partida. Por fim vêm os coroinhas, os  bandeirinhas que ajudam os diáconos.

Para muitos, o futebol virou uma cosmovisão, uma forma de entender o mundo e de dar sentido à vida
O desenrolar de uma partida suscita fenômenos que ocorrem também na religião: gritam-se jaculatórias (bordões), chora-se de comoção, fazem-se rezas, promessas divinas (o  Felipe Scolari,  treinador brasileiro, cumpriu a promessa de andar a pé uns vinte km até o Santuário de Nossa Senhora do Caravaggio em Farroupilha caso vencesse a Copa como de fato venceu), figas e outros símbolos da diversidade religiosa brasileira. Santos fortes, orixás e energias do axé são aí evocados e invocados.

Existe até uma Santa Inquisição, o corpo técnico, cuja missão é zelar pela ortodoxia, dirimir conflitos de interpretação e eventualmente processar e punir jodadores e até times inteiros.

Como nas religiões e igrejas  existem ordens e congregações religiosas, assim há as “torcidas organizadas”. Elas têm seus ritos, seus cânticos e sua ética.

Há famílias inteiras que escolhem morar perto do clube do time que funciona como uma verdadeira igreja, onde os fiéis se encontram e comungam  seus sonhos. Tatuam o corpo com os símbolos do time; a criança nem acaba de nascer, já a porta da encubadora vem ornada com os símbolos do time, quer dizer, recebe já ai o batismo que jamais deve ser traido.

Considero razoável entender a fé como a formulou o grande filósofo e matemático cristão Blaise Pascal, como uma aposta: aposta-se que Deus existe, tem tudo a ganhar; se de fato não existe, não tem nada a perder. Então, é melhor apostar de que exista. O torcedor vive de apostas (cuja expressão maior é a loteria esportiva), de que a sorte beneficiará o time ou de que algo, no último minuto do jogo, tudo pode virar e, por fim, ganhar por mais forte que for o adversário. Como na religião há pessoas referenciais, da mesma forma vale para os craques.

Na religião existe a doença do fanatismo, da intolerância e da violência contra  outra expressão religiosa; o mesmo ocorre no futebol: grupos de um time agridem outros do time concorrente. Ônibus são apedrejados. E podem ocorrer verdadeiros crimes, de todos conhecidos, que torcidas organizadas e de fanáticos, que podem ferir e até matar  adversários de outro time concorrente.

Para muitos, o futebol virou uma cosmovisão, uma forma de entender o mundo e de dar sentido à vida. Alguns  são sofredores quando seu time perde e  eufóricos quando ganha.

Eu, pessoalmente, aprecio o futebol por uma simples razão: portador de quatro próteses nos joelhos e nos fêmures, jamais teria condições de fazer aquelas corridas e de levar aqueles trancos e quedas. Fazem o que jamais poderia fazer, sem cair aos pedaços. Há jogadores que são geniais artistas de criatividade e habilidade. Não sem razão, o maior filósofo do século 20, Martin Heidegger, não perdia um jogo importante, pois via no futebol a concretização de sua filosofia: a contenda entre o Ser e o ente, se enfrentando, se negando, se compondo e constituindo o imprevisível jogo da vida, que todos jogamos.

* Leonardo Boff é teólogo e autor de “Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito”, “Cuidar da Terra-Proteger a vida” (Record, 2010) e “A oração de São Francisco”, Vozes (2009 e 2010), entre outros tantos livros de sucesso. Escreveu, com Mark Hathway, “The Tao of Liberation exploring the ecology on transformation”, “Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz” (Vozes, 2009). Foi observador na COP-16, realizada recentemente em Cancun, no México.
  
Soneto para o Raul

* Por Alberto Cohen

Eu sou o destempero da panela,
o resto que sobrou por toda a tampa,
o lixo que se joga da janela,
o morto que levanta de sua campa.

Eu sou o esquecimento do passado,
a total incerteza do futuro,
a solidão que tem o boi capado
olhando as vacas por cima do muro.

De repente, quem sabe, nem existo,
sou, apenas, silêncio que anuncia
que o Cristo não chegou a ser um Cristo.

No agonizar cansado deste louco,
o muito não será mais do que o pouco,
e o grito é bem maior do que a alegria.

* Poeta e escritor paraense


sábado, 28 de junho de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 8 anos, dois meses e trinta e um dias de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Torcedor ciclotímico (reprise)

Coluna Direto do Arquivo – Pablo Uchôa, crônica, “Brasileirinho”.

Coluna Clássicos – João Cabral de Melo Neto,  crônica, “Os três Mal-Amados”.

Coluna Porta Aberta – Urda Alice Klueger, crônica “As índias do Equador”.

Coluna Porta Aberta – Clóvis Campêlo, crônica, “Um homem quase morto”

Coluna Porta Aberta – Vítor Orlando Gagliardo, crônica, “Cinquenta e um e doze”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com “Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
 “Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Torcedor ciclotímico

O torcedor de futebol brasileiro é ciclotímico. Oscila, com velocidade estonteante (e intrigante) da euforia à depressão, sem escalas. Isso, quando se trata de torcer pela Seleção. Para ele, só o resultado de uma partida não é suficiente para deixá-lo satisfeito e muito menos eufórico. Exige que, com a vitória (encarada como obrigação), a equipe tenha atuação impecável, sobretudo com “ginga e arte”. Se vencer, por exemplo, um jogo por 4 a 0, mas cometer muitas falhas, esse torcedor ficará deprimido, mal humorado  e zangado. Não raro, responderá, no final de partida, mesmo se vencer, mas se não jogar bem, não com aplausos, sequer discretos, mas com estridentes vaias.

Refiro-me, aqui, ao torcedor que freqüenta assiduamente estádios – cada vez mais raro por uma série de razões, entre as quais a violência, os altos preços dos ingressos e a má qualidade técnica dos jogos – pois há o meramente ocasional. Este último, às vezes, nem gosta de futebol. Não torce para clube algum e só se interessa pela modalidade quando a Seleção Brasileira está envolvida. Seu modo de torcer é diferente. Mesmo estes torcedores, porém, influenciados pela mídia, revelam essa característica ciclotímica, posto que não tão acentuada. Ora consideram nossa equipe imbatível, ora tratam-na como a pior entre as piores. Não se mostram, todavia, tão passionais e inconstantes como os torcedores, torcedores de fato, que realmente fazem jus a essa designação, que se fazem presentes com constância e assiduidade nos estádios, faça chuva ou faça sol.

O pitoresco é que estes que são verdadeiramente apaixonados pelo futebol – muitos, para não dizer a totalidade, torcem por seus times até com fervor “religioso” – tratam de forma diferente seus clubes do coração e a Seleção Brasileira. No primeiro caso, só a vitória lhes importa, e a qualquer custo, mesmo que jogando mal. Não ligam se esta advenha de uma falha da arbitragem ou da incompetência do adversário. Seu lema é “vencer, vencer e vencer”. Quem já não ouviu de algum desses torcedores que o que importa é a vitória, mesmo que “por meio a zero” e com um gol de mão, no derradeiro minuto dos acréscimos? A ele não importa, pois, se o time jogou bem ou se deu caneladas a torto e a direito. Se venceu... estará tudo bem.

Esse mesmo torcedor, todavia, é sumamente exigente quando se trata da Seleção. Valoriza, por exemplo, o time de Telê Santana, o de 1982, que não ganhou coisa alguma, mas que jogou bonito, “com elegância e arte”. No entanto, execra a de 1994, que conquistou o tetra, mas que, na sua avaliação, deixou muito a desejar. E que, para culminar, conquistou o título em decisão por pênaltis. E, pior, dependeu, para a conquista, não da competência dos jogadores brasileiros, mas da incompetência do adversário, no caso Baggio, que mandou para as nuvens a penalidade decisiva.

Só não entendo o excesso de rigor para com a Seleção de 1950, tratada como se fosse uma das piores da história, como se tivesse sido desclassificada logo no início da competição, acumulando sonoras goleadas do adversário. É certo que a decepção causada pelo “Maracanazzo” tem tudo a ver com isso. E esse desastre futebolístico deve-se muito à ciclotimia do torcedor nacional. Até o início da partida contra o Uruguai, nossa equipe era, para ele, a melhor do mundo. Era imbatível e invulnerável. O jogo era apenas formalidade necessária para consagrar o melhor futebol do Planeta. Afinal, o Brasil jogava pelo empate. Até 38 minutos do segundo tempo, estava com a taça na mão. Mas uma partida “só termina quando acaba”, não é mesmo? E sete míseros minutos foram suficientes para que o título escorresse por entre os dedos. A euforia deu lugar à depressão, que levou pelo menos oito anos para se dissipar, com a conquista de 1958.

Aquela Seleção era tão ruim, como é pintada para as gerações que não a viram, porquanto sequer eram nascidas? Tecnicamente, era uma das melhores, se não a melhor de todos os tempos. As raras testemunhas ainda vivas certamente ainda têm claríssima na memória a acachapante goleada que os comandados do técnico Flávio Costa aplicaram na excelente seleção espanhola, por 6 a 0, com direito a olé. O público que lotou o Maracanã cantou, em coro, exaltado, em êxtase e em delírio, a marchinha “Touradas de Madri”, do Braguinha.

O Uruguai, recorde-se, foi beneficiado pela tabela. Pura sorte, claro. Mas foi. A “Celeste Olímpica” fez, apenas, dois jogos, para se classificar para a final. Isso ocorreu pelo desequilíbrio no número de competidores dos vários grupos, por causa da desistência, de última hora, da Seleção da Índia, que viu rejeitada pela Fifa sua exigência para que seus jogadores jogassem descalços. Claro que era (e é) coisa incabível em uma Copa do Mundo. É certo que, se participasse, seria saco de pancada dos adversários, como o Taiti foi na Copa das Confederações de 2013. Mas... desgastaria fisicamente os uruguaios, que não chegariam tão inteiros para a decisão.

Craques como Ademir de Menezes (artilheiro da Copa), José Carlos Bauer, Zizinho, Jair da Rosa Pinto, Friaça, Maneca e outros tantos, foram execrados pelos torcedores, como se não passassem de um bando de “pernas de pau”. O goleiro Barbosa – nascido em Campinas – teve que conviver, até os últimos dias, com a execração generalizada, responsabilizado pelos dois gols que sofreu, sobretudo pelo segundo, tido e havido como “frango”. Não foi. Mas... quem se importou? O fato é que o Brasil perdeu para o Uruguai. E o talento, e até a coragem dos nossos jogadores, foram questionados (e ainda são até hoje por quem sequer tinha nascido na ocasião). Nossos craques foram vistos como “covardes”, assustados com os pueris arroubos de valentia de Obdúlio Varela. Ora, ora, ora...

Essa ciclotimia do torcedor brasileiro ficou mais evidente do que nunca no último amistoso da Seleção Brasileira antes da Copa de 2014. Até o jogo contra o Panamá, os comandados de Felipão eram considerados favoritos absolutos à conquista do Mundial, com base na sua atuação na Copa das Confederações de 2013 e nos amistosos subseqüentes. Bastou, porém, que a equipe se apresentasse mal contra a Sérvia, para que o humor da torcida se transformasse da água para o vinho. E olhem que o Brasil ganhou, mesmo que por magro 1 a 0. Imaginem se perdesse! Subitamente, o torcedor passou a ver tudo errado: a zaga brasileira já não é a melhor do mundo, o meio de campo é lento e erra muito passe, o ataque é sem talento, sem imaginação e fácil de ser marcado e nosso melhor craque – talvez único – Neymar, não passa de um contumaz “cai cai”, mero produto da mídia. Ou estou exagerando? Acessem as redes sociais, sobretudo o Twitter e o Facebook, e verão que não estou.

Mas... nem tanto ao céu, nem tanto à terra. A atual Seleção provavelmente não é a melhor do Planeta (avaliação sumamente subjetiva), mas também não é pior do que as outras favoritas. Tem chances um tantinho maiores do que as badaladas Espanha, Argentina, Alemanha, Itália ou, até mesmo, Uruguai, Holanda ou Bélgica, por uma série de razões. Isso não quer dizer que a conquista do hexa é líquida e certa. Não é! Futebol é um jogo. Favoritismo não é sinônimo de vitória. Se assim fosse, a modalidade não seria fascinante como é. Seria sem graça.

Como essa Seleção será tratada pela História depois de 13 de julho? Será reverenciada como a de 1970, como a “oitava maravilha do mundo” ou execrada como as de 1954, 1966, 1974, 1978, 1986, 1990, 2006 e 2010, como um “bando de pernas de pau”, sem compromisso com o País, como um grupo de mercenários de olho, apenas, na própria carreira e nos dólares (ou euros) que venham a engordar suas contas bancárias? Nas próximas semanas, iremos saber.

Boa leitura.


O Editor

Republicado a pedidos

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.      

Brasileirinho

 *Por Pablo Uchoa


Se eu fosse mais velho, diria que as gerações mais novas não se lembram de um tempo terrível do nosso país, em que falar de estabilidade monetária era se referir a Estados Unidos ou Europa.

Pois considero que minha geração está entre as mais novas mas, pasmem, sobretudo no mundo cibernético, blogueiro, muitos meninos há por aí que nunca vivenciaram uma só troca de moeda. O Ministério avisava, era preciso cortar zeros, o mil virava um, um milhão virava cem mil, uma parte do dinheiro perdia o valor e lá íamos nós, com os bolsos cheios de notas que nada valiam (muitos nem isso).

Eu era um menino e minhas compras eram apenas chicletes e balas na bodega da esquina, mesmo assim tinha a carteira estufada de notas. Valiam nada, aquelas notas. Faziam volume, apenas.

Pois esses dias, fuçando as gavetas, encontrei uma singela crônica que escrevi naquela época, seria talvez 1994, vigorava a Unidade Real de Valor – URV, que precedeu o real. O Brasil vivia uma nova troca de moeda e nossos bolsos estavam cheios de notas que valiam quase nada.

Notas altas, naturalmente. Porque os pequenos trocos a gente nem se dava o trabalho de carregar. Daí se originavam situações como essa, que transcrevo como originalmente relatado:


"Aquele barbudinho era encrenqueiro que só ele. Passando certa vez por uma famosa praça, como de costume resolveu sentar-se numa lanchonete e pedir o bendito caldo de cana do final do dia. Chamou o balconista:
- Amigo, por favor, o pastel tá quentinho?
- Saído agora - respondeu o magrelinho, limpando as mãos no avental.
- E o caldo de cana, geladinho?
- No ponto.
- Pois então me vê aí um pastel com caldo de cana.

Enquanto o rapaz servia o cidadão, a mulher do caixa ia passando o troco.
- Aqui, meu senhor – disse ela, estendendo-lhe algumas notas amassadas e, vejam só!, uma caixa de fósforos.
- Minha senhora – ele replicou naquele ar safado de inocência –  está faltando troco.
- Não, não está, não. O senhor pode conferir aí.
- Olha só: dez, vinte, vinte e cinco, vinte e seis, sete, oito, nove...
- Então: mais a caixa de fósforos, trinta.
- Caixa de fósforos!!?
-É. É.
- Espera. Eu acho que a senhora não entendeu bem. Eu não comprei a caixa de fósforos.
- Moço, o senhor é que não entendeu bem. O senhor não comprou a caixa de fósforos, disso eu sei. Mas, como não tem troco, vai essa caixa de...

O camarada protestou: vai é o... Mas de jeito nenhum!
- Meu senhor, não tem troco. O senhor quer que eu faça o quê?
- Poderia ao menos ter dito que não tinha troco, que aí eu é que não tinha pedido o pastel com caldo de cana.

A funcionária do caixa inclinou o pescoço para trás, suspirou devagar:
- Moço, qual o problema do senhor levar a desgraçada da caixa?
- Qual o problema? Meu amor, pense bem: lá em casa eu não fumo, não acendo vela, meu fogão é elétrico, então pra que diabos eu vou levar uma caixa de fósforos?
- Amigo, você tá no Brasil. –  o freguês do lado resolveu conciliar –  Jeitinho de brasileiro, o senhor sabe como são essas coisas.
- Ah! Sei coisíssima nenhuma.

Então botou a boca no mundo: clamou pelos direitos do consumidor, que um absurdo desses não podia sair impune, a senhora compreenda já uma coisa que eu não preciso comprar seu nada se não tiver pedido, o Procon ia ficar sabendo daquele cartel, a senhora me mostre já o alvará do funcionamento do seu bar.
- Moça, é o seguinte –  concluiu – eu quero falar com o gerente desse troço aqui. Pode ser?

Podia. A gerência ficava num quartinho do fundo.
- O senhor é o gerente?
- Sou, sim, senhor.
- Amigo, o caso é que eu comprei um caldo de cana com pastel e a sua funcionária simplesmente não quer me dar o meu troco: cismou que ia me empurrar uma caixa de fósforos.

O gerente deu uma risadinha amigável, colocou as mãos no ombro do barbudinho.
- Ora, amigo, mas que bobagem. O senhor sabe, moeda nova, trocada há pouco, prata insuficiente no mercado, às vezes a gente tem que fazer uns sacrifícios, não é?

O barbudinho não arredou o pé - e pra voltar pra casa, como é que era, será que ele podia pagar o ônibus com caixa de fósforos também?

O gerente viu que não tinha jeito. - Me desculpe, mas eu não posso fazer nada - quis encerrar.
- Como não? Então o senhor é gerente aqui para quê?
- Veja bem: se não tem troco, posso fazer o quê? Tirar do meu bolso?

O cidadão, então, fez menção de botar a boca no mundo: não podia ficar ali, perdendo tempo! Tinha mais o que fazer!
- Ora, pros diabos!!! Resolva-se com a caixa, que eu tenho coisas mais importantes a resolver! –  esbravejou o gerente, colocando-o a pique dali.

Voltou para o balcão, disposto a armar o maior barraco, mas aí a moça já tinha conseguido a moeda - lá estava ela, exibindo o centavo que faltava:
- Agora, o senhor sabe o que faz com ele ? - desafiou, ameaçando soltar palavras de não muito agrado.
- Sei, sim senhora – e, virando-se para o magrelinho – Aqui, meu filho, para completar sua passagem de ônibus."

(*) Cronista e editor do site www.narizdecera.jor.br. Vive atualmente na Inglaterra, dedicando-se a pesquisas no Institute for the Studies of the Americas, da Universidade de Londres. Autor do livro-reportagem “Venezuela: A Encruzilhada de Hugo Chávez” (Ed. Globo, 2003), menção honrosa no prêmio Vladimir Herzog 2004.





Os Três Mal-Amados

* Por João Cabral de Melo neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


* Poeta e diplomata, membro da Academia Brasileira de Letras
As índias do Equador

* Por Urda Alice Klueger

Estive, em setembro último, no Equador, de onde só tenho lembranças lindas. Se o paraíso terrestre ainda existisse, com certeza seria parecido com o Equador.

Estive em Quito, e viajei pelo Norte do país. Eu diria que Quito tem a população mais parecida com a do Sul do Brasil que já vi pelas Américas, mas o Norte do Equador, com cer­teza, é índio.

Que paixão que são aquelas meigas e lindas índias, do Equador! Estivera, três anos antes, na Bolívia, país que, com certeza, se caracteriza pelas suas índias coloridas e tão diferentes de nós, de acordo com suas etnias e línguas, e ficara com a impressão de que todas as índias do mundo deviam parecer-se com elas. Que surpresa, então, ao chegar ao Equador!

Viajei pela região de Otavala, San Antonio e Ibarra, pátria do artesanato mais lindo do mundo, e região das índias mais limpinhas, mais cheirosas e mais lindas que se possa imaginar. Elas usam, no dia a dia, seus trajes típicos: saias pretas até o tornozelo, blusas brancas muito finas, bordadas com maravilhosa maestria, engomadas e muito bem passadas; ao pescoço, carregam um peso enorme em ouro: são dezenas, talvez centenas de correntinhas de bolinhas de ouro que, se colocadas todas juntas, devem ter uma espessura de uns 5 cm ou mais, curtas correntinhas que ficam junto do pescoço, e que formam como que um pedestal pa­ra os seus rostos de rara beleza. É claro que, nos dias atuais, aquelas correntinhas todas não poderiam ser de ouro de verdade - elas, hoje, são compradas aos magotes, em feiras populares - mas algum dia, no passado rico daquele país, com certeza as antepas­sadas daquelas índias lindas devem ter usado o mais legítimo ou­ro. Usam, ainda, para completar o traje, umas sandalhinhas do mais delicado feitio, três finos fios de couro branco se entrelaçando de uma forma que nunca havia visto.

Para completar o traje de uma dessas índias, deve haver um bebê às costas. Eles ficam dependurados às suas mães por uma faixa preta bordada, e são uma graça, com seus olhinhos negros espiando o mundo.

O mais desconcertante nesse conjunto de índias e bebês, é a simbiose perfeita como eles vivem. Fizemos diversas viagens de ônibus com muitas índias cheirosas e limpinhas, e eu não me cansava de espiar o que acontecia: as índias entram nos ônibus com os bebês às costas; sentam-se nos ônibus com os bebês as costas, viajam até o final sem tirar os bebês das costas, e não os machucam. Elas têm um jeitinho especial de sentar-se sem se encostar, e eu ficava espiando e vendo como os bebês, quando elas se sentavam, se arrumavam direitinho, os pezinhos dobrados sobre o banco dos ônibus, numa posição confortável e sem dor. São bebês que nunca choram, já que estão sempre bem juntinhos das mães nunca precisam ter medo ou se sentirem abandonados.

A História nos conta que o último dos grandes Imperadores Incas conquistou o Equador, e que lá, apaixonou-se perdidamente por uma índia. Os imperadores Incas sempre tiveram muitos filhos, mas só poderia ser herdeiro do trono o filho mais velho, tido com a mulher legítima. Isto tinha sido assim desde os primórdios do império, e sempre tinha funcionado direitinho. O último dos grandes imperadores já tinha o seu herdeiro legítimo e, teoricamente, a sua sucessão estava resolvida. Foi aí que en­traram as índias do Equador no meio. Foi louca a paixão do Impe­rador Inca pela índia de Quito; com ela teve um filho, com o novo filho quis dividir seu Império, e o fez. Quando ele morreu, os dois filhos passaram a brigar pela posse total do Império, e estavam os Incas divididos por uma guerra civil quando os espanhóis chegaram nas suas terras. Povo dividido é povo fraco (isto serve de reflexão para os separatistas do Sul do Brasil), e os espa­nhóis puderam vencer sem mais problemas os guerreiros do grande Império americano.

O Império Inca caiu por causa de uma índia do Equador. Eu estive lá, e as vi, e entendi. Elas são tão lindas, tão meigas, tão delicadas, tão cheirosas, que podem virar a cabe­ça de qualquer imperador. O Grande Imperador da América do Sul perdeu o tino, a cabeça e o coração por uma delas, e acabou destruindo o seu Império. Mas basta a gente olhar para elas para en­tender.

Blumenau, 11 de janeiro de 1997.

* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR