quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Para viver de Literatura

* Por Marta Barcellos

Minha amiga tem um sonho. Nova ainda, ela é cheia de sonhos. No entanto, já passou da idade de revelá-los - teme parecer ingênua. Pois minha amiga me faz perguntas sobre o mestrado em literatura que estou cursando, o que pretendo com ele, se minha carreira no jornalismo ajudou... Ajudou a quê? Ah, ela acha bacana hoje eu viver de escrever. Respondo que não é bem assim, que continuo sendo jornalista, e devo muito desse "ganhar a vida" ao jornalismo econômico. Minha amiga, claro, é poeta, e acha economia uma chatice.

 O que ela quer saber, depois de ter começado e largado a faculdade errada, é como se faz para viver de literatura. No fundo, este é o maior de seus sonhos. Também tem o da pousada na praia - e quem não passou por este...

 Achei que talvez pudesse ajudá-la. Nos últimos anos venho formando uma imagem do tal sistema literário: fiz algumas matérias, conheci escritores e pessoas ligadas ao mercado, passei a frequentar (poucos) eventos literários e ando pesquisando questões para o mestrado. Às vezes encontro alguém e penso: veja só, este vive de literatura. Como sonha minha amiga. Depois descubro que não é bem assim. O sustento vem de outra fonte.

 Minha amiga, é verdade, tem algum apoio da família (em troca do quê?). Mas não é rica, do tipo herdeira. Em outros tempos, nos tempos em que eu tinha a idade dela, eu diria que deixasse de besteira e escolhesse uma profissão/trabalho para garantir sua independência financeira (e existe outra?).

 Ah, a independência. Este sim, o meu sonho da juventude. Que os interesses culturais e artísticos se tornassem hobby, e somente quando houvesse tempo e condições para tal - era o que eu pensava. Importante mesmo era sair da casa dos pais (para quê, agora?), ter um salário, pagar as contas. Sobrando, compravam-se livros e discos. Um dia, quem sabe, uma casa de campo. Nela habitaria o sonho de escrever um livro, ou uma peça teatral - na aposentadoria...

 Este Brasil onde não eram permitidos sonhos, vale ressaltar, era outro. Não tinha dado certo, jamais daria. Éramos todos sobreviventes da Ditadura e da inflação, e se estabilidade e futuro existissem, eles estariam num bom emprego no Banco do Brasil, como ainda pensa Felipão. Aliás, o técnico da seleção brasileira nem estava tão desatualizado assim em sua gafe - basta olhar em volta quanta gente ainda estuda para concurso público sem pensar em prazer ou vocação.

 Mas minha amiga, como eu ia dizendo, é sonhadora, e nasceu neste Brasil em transição (para onde?), portanto não cogita desperdiçar sua criatividade e sua força de trabalho olhando o relógio de uma repartição. Observo a realidade à minha volta, as últimas notícias e indicadores econômicos, e acredito que ela tenha motivos para pensar assim. Se algo chamado Vale Cultura foi aprovado pelo governo federal e a economia criativa floresce no Rio de Janeiro, por que não daria para viver de arte hoje? Ou isso ainda seria exceção?

 Foi assim que me flagrei pesquisando e pensando em conselhos para minha amiga, e para pessoas com o perfil e a idade dela. Observei e conversei com escritores, professores, gente que vive, se não da literatura, em torno dela. Gente, porém, que, quando indagada, prefere desaconselhar o seu caminho. Ah, um caminho difícil, dizem. Para persistentes. Para sofredores. Mas eu já ouvi esse papo no jornalismo, e dou um desconto. Há uma necessidade de valorizar o que se conquistou - no fundo, uma vaidade.

 Mesmo assim, algumas respostas foram surgindo. Com doses esparsas de cinismo e amargura, é verdade, mas caminhos foram apontados. Vamos a eles:

 1) Além de escrever, assuma como bandeira a promoção da literatura nacional, crie programas de leitura ou outras formas de incentivo capazes de atrair patrocínios e, principalmente, verbas públicas.

 2) Depois de publicar alguns livros, ministre oficinas para aspirantes a escritores que sonham viver de literatura.

 3) Migre para a literatura infanto-juvenil.

 4) Seja experimental, ganhe prêmios, aprimore sua performance em público e passe a ser remunerado para participar de eventos literários.

 5) Deixe a implicância e a preguiça de lado, invista numa carreira acadêmica na área de letras e concilie escrever literatura com a tarefa de preencher o currículo Lattes.

 6) Seja flexível em relação a gêneros. Deixar os contos e os poemas de lado para escrever para televisão não significa que você se vendeu.

 7) Deixe a implicância e a preguiça de lado, estude contabilidade e encare um concurso público. Não é de hoje que bons escritores são também funcionários com estabilidade e salário garantidos pelo estado.

 8) Tenha uma editora, voltada para o mercado ou para a autopublicação de escritores que sonham um dia viver de literatura.

 9) Além de escritor, seja crítico literário, depois de desenvolver uma boa argumentação sobre como é possível conciliar as duas funções eticamente.

 10) Tenha outra profissão, uma "pra valer". Moacyr Scliar, 80 livros publicados, na hora de preencher o formulário do hotel, declarava como profissão: médico. Era verdade.

Rio de Janeiro, 7/2/2013


* Escritora

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 7 anos, onze meses e um dia de existência (corrigido).

Leia nesta edição:

Editorial – Dúvidas e mais dúvidas, mas nenhuma certeza.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica “Respeito é bom e a gente gosta”.

Coluna Da terra do sol – Marco Albertim, crônica “Fogo no cais’”

A favor de tudo, contra todos – Fernando Yanmar Narciso, crônica, “Tendências tendenciosas”.

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Destino”.

Coluna Porta Aberta – Francisco José Pessoa, crônica “Escrevo...”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com 
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
 “Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Dúvidas e mais dúvidas, mas nenhuma certeza

A vida de João Ramalho é impossível de ser relatada em forma de biografia, daquelas sérias e com credibilidade, mesmo que relativa, das baseadas em documentos e em testemunhos de contemporâneos. Há longos períodos de tempo em que não se sabe o que fez, com quem esteve, para onde foi ou deixou de ir, para dizer o mínimo. Isso, a começar pelos 19 anos que teria vivido em Portugal, antes de embarcar com destino ao Novo Mundo.

Quem foram os seus pais? Qual a razão de seu sobrenome ser diferente do da sua suposta família? Quando se casou com Catarina Fernandes, se é que se casou mesmo com ela? Como se vê, são informações imprescindíveis em qualquer biografia que se preze e que não dispomos. Quem se propuser a escrever sobre João Ramalho, portanto, tem que fazê-lo exatamente como eu me propus a fazer, no projeto a que já me referi, que conta com atraso de dezessete anos. Ou seja, em forma de ficção, de romance, preenchendo os vazios de referências mesmo que contraditórias com criatividade, com imaginação, com coisas que “poderiam” ter acontecido, mas que ninguém sabe e jamais saberá se aconteceram.

Para ser honesto com o leitor, todavia, o escritor que se dispuser a encarar esse desafio, tem a obrigação moral de esclarecer que não se trata de nenhuma biografia. Que o tal livro é de ficção, embora baseado “em fatos reais” (só alguns, óbvio). Ademais, quem recorrer a essa fórmula não estará sequer sendo original. Há muitos, pelo menos algumas dezenas de romances por aí com as mesmíssimas características. Algum dia ainda lhes apresentarei uma relação deles.

Mas voltando a João Ramalho, sabe-se que ele deixou Portugal em 1512, embarcado em um navio mercante, rumo às terras recém descobertas do que viria a ser algum dia o Brasil. E aqui surgem diversas novas dúvidas. Ele foi degredado, como asseguram algumas fontes, pelo fato de ser judeu e de se recusar a se converter à fé cristã? Se foi o caso, teve muita sorte. A Inquisição não costumava ser tão benevolente com seus infelizes réus. Em geral, estes eram intensamente interrogados, não raro torturados para confessar até o que não eram e não fizeram (pudera), e caso não convencessem os inquisidores ou se recusassem a se converter, poderiam ir parar  em fogueiras (o que era sumamente freqüente). Isso se resistissem às torturas e não morressem antes, claro. Por isso, não creio que tenha sido esse o motivo da partida de João Ramalho de Portugal.

Em meu romance, pretendo pintá-lo como um jovem irrequieto, ávido por aventuras, que se dispõe a seguir para o Novo Mundo em busca de fortuna fácil, como tantos outros aventureiros miseráveis do seu tempo. Creio que seja a versão mais verossímil. Ou, quem sabe, embora casado, o rapaz tenha se envolvido com outra mulher e despertado a ira dos pais dela? Pode ser! Não se pode descartar essa hipótese, que entendo, até, muito plausível. Afinal, João Ramalho deve ter sido uma figura fascinante, bem apessoada, imponente e encantadora, Np sentido de sedução, caso contrário não conseguiria, no Brasil, encantar tantas índias, a ponto de se casar com uma delas (e justo a filha de um cacique) e de gerar três centenas de filhos com tantas outras. Haja potência para tanto! O cara devia ser um garanhão de marca, um reprodutor como raros. Desconheço, na História, e não somente do País, outro personagem com tamanho apetite sexual e tanta fecundidade. Nem os sultões de narrativas como as “Mil e uma noites” foram páreos para esse ousado (e sortudo) português.

Definido esse ponto, sobre o motivo de João Ramalho ter deixado Portugal, supondo ser correto o fato disso se dever a ânsia por aventuras, surgem muitos outros “furos” nessa pretendida narrativa. O primeiro, logo de cara, é o que trata da duração de sua viagem. Os historiadores citam (e nisso são unânimes) que o navio em que o rapaz viajava naufragou na costa de onde seria mais tarde a Capitania de São Vicente, em 1513. Sabe-se, porém, que o trajeto entre Portugal e o Brasil, mesmo com a precariedade dos navios de então, não durava tanto, ou seja, um ano. A duração máxima, pelo que se depreende de pesquisas, era de dois meses, e isso enfrentando as piores condições, como calmarias e brutais tempestades, por exemplo. Onde a embarcação de João Ramalho esteve nos outros dez meses, se é que esteve? Isso, historiador algum jamais se aventurou nem mesmo a especular.

Outro grande hiato (e esse longuíssimo, dos mesmos 19 anos que o aventureiro tinha ao deixar Portugal) se refere ao período posterior a 1513 (supondo ser este, de fato, o ano do naufrágio da embarcação) e 1532, quando recepcionou Martim Afonso de Souza, que havia recém assumido a tarefa de colonização do Brasil. O que fez nesse tempo? Onde esteve? Como e com quem viveu? Mistério. Insondável mistério. É outro ponto a ser preenchido por um hábil romancista com peripécias mil, com tudo o que conseguir imaginar. Sobre esse aludido encontro entre a autoridade da Coroa e o estranho aventureiro, Raimundo Menezes assim se refere a ele, em seu livro “Aconteceu no velho São Paulo” (Coleção Saraiva, 1964): “Quando Martim Afonso de Souza aportou em São Vicente, pela altura de 1532, foi recebido, para sua surpresa, por dois patrícios, que aqui se encontravam já a longo tempo: Antonio Rodrigues e João Ramalho”.

Como se vê, embora seja impossível escrever uma biografia minimamente exata, que mereça esse nome, sobre esse estranhíssimo personagem da História do Brasil, se pode escrever muita coisa a seu propósito, no mínimo para um extensíssimo livro de ensaios, mesmo que se trate de registrar, somente, dúvidas despertadas pelas versões que circulam sobre ele. Imaginem que big romance tudo isso pode originar!

Boa leitura.


O Editor

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.
“Respeito é bom e a gente gosta”

* Por Mara Narciso

A diferença entre arrogância e prepotência é que na primeira você mostra altivez, soberba, orgulho, ou, no pior sentido, insolência e atrevimento, diz o Aurélio, e na segunda não há poder alegado, mas real, exercendo influência, oprimindo e agindo de forma despótica (mesma fonte). O arrogante pensa ter a força e o prepotente a tem. Quando os políticos fazem fila em direção à cadeia, nos lembramos das “carteiradas” que uns e outros dão por aí, inclusive os citados, buscando ganhos indevidos, seja numa fila, lugar onde todos deveriam ser iguais, ou para escapar das suas responsabilidades. Quem age desta forma não se acostumou com a própria importância. Quantos andam por aí com seus carrões e nariz empinado olhando acima da cabeça dos demais como se fosse ver o disco-voador primeiro?

Os que fazem serviços humildes sabem o que é ser olhado de cima, com desprezo e pouco caso. Ou nunca ser visto, não tendo nome, e parecendo invisível. Aqueles que são usuários dos serviços dessas pessoas costumam tratá-las com desdém, ou no mínimo de forma impaciente, como se elas fossem incapazes de entender. E até podem ter dificuldade em vista de ter tido, em sua maioria, pouca oportunidade, ou ainda, se a teve não conseguiu aproveitá-la. Não vou fingir demagogia dizendo que mentalmente nunca discrimino nada ou ninguém. É claro que isso seria uma deslavada mentira. Confesso: sou impaciente com a burrice, embora cometa as minhas e espere que os outros sejam tolerantes comigo. Feio isso, não é?

Saber alguma coisa dá status, ser e ter alguma coisa dá status, o que gera respeito, mas na nossa sociedade, que muitas vezes mostra-se podre, há valores que valem como moeda, por exemplo, estar casado. Há pessoas que se arrastam em casamentos infelizes com medo do que os outros vão pensar caso se separe. E posam sorridentes e hipócritas junto aos familiares comemorando várias décadas de uma situação falsa. Mas aí entra a religião. Respeito todas elas, ainda que ache alguns dogmas absurdos. Relacionamentos se mantêm numa mentira por medo de julgamentos e subseqüente desrespeito.

Está na moda dizer que se respeita a natureza. Quanta inocência!  Produzimos lixo interminavelmente. Ainda ontem, ao invés de consertar meu celular de mais de cinco anos, o descartei e comprei outro. Isto é não ter respeito. A Terra virou um monturo de lixo, e logo não teremos mais espaço para os mais de 7 bilhões de sobreviventes. Como manter adequadamente essa multidão de gente? O lixo tecnológico foi vomitado por todos os lados. A ordem deveria ser reciclar, reaproveitar, consertar, reutilizar. Mas o que vemos são novidades a cada instante, insufladas pela publicidade que quase nos obriga a comprar. Isso é progresso que faz crescer a Economia. Minha televisão – aparelho televisor - de 29 polegadas tem um imenso tubo, 16 anos e funciona bem. Num raio de quilômetros não deve haver similar. Até lancei esse desafio no Facebook. Apareceu um concorrente, mas que não me venceu.

Os animais? Quando estão servindo são respeitados, quando não, deletam-se. Quanta violência comprar um cãozinho e vendo-o incomodar, jogá-lo fora nas mãos de qualquer um. Como disse Rogério Magri, então ministro de Fernando Collor, “os cães são seres humanos”. E não são? Sem contar os torturados bichinhos criados para comer. Quanto à água, além de emporcalharmos as imediações das nascentes, ainda deixamos aberta a torneira durante seu uso. Enxovalhamos e assoreamos os rios, sangramos o Rio São Francisco. Lástima. Até parece que nos esquecemos que água em pó não existe.

Será que nos respeitamos? Cuidamos de nós, da nossa saúde, física e mental? Até que ponto estamos presos à opinião alheia, com medo de pensar por nós mesmos e seguirmos a nossa cartilha pessoal? Vivendo em sociedade, é preciso seguir normas e regras, cumprir leis, mas há cuidados que precisam ser individualizados. Quem está próximo merece carinho e atenção. Mas, como o mundo bate em todos, o mais frequente é que as pessoas das quais gostamos encontrem em nós, não um consolo, mas sinais de irritação. É preciso amar a nós e aos que estão em nosso redor. Óbvio e esquecido.

Gente, de um modo geral, anda com as unhas afiadas, xingando todo mundo, sendo agressiva sem motivo. Responde rasgando. Apanhou ali, bate aqui e a má-vontade se espalha como rastilho de pólvora. Assim, arruma o ambiente com espinhos e na hora de se sentar, vai acontecer o quê? Ter cabelo nas ventas, não ter sangue de barata, revidar, responder com violência, não levar desaforo para casa, berrar mais alto, “olho por olho, dente por dente” são valentias que enchem a vida de amargor. O sabor doce mora ao lado. Exercitar o respeito faz bem.

*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”   


Fogo no cais

* Por Marco Albertim

Toda multidão é cega, sem exceção; não que tenha perdido o direito de enxergar, tampouco um flagelo num fim de tarde ofuscou-lhe a razão. É cega porque tem em mira tão somente o propósito que juntou-a no meio da avenida. E o propósito, por mais pasmo que cause a quem a vê com estranheza, emprenha-a de razões. Assim, a multidão, inda que não ocupando os dois lados do Cais do Apolo, assomou de um lado e de outro; uma multidão rala, por isso mesmo estridente e disposta a reproduzir com agonia a serenidade dos cem mil que ocuparam a avenida Conde da Boa Vista em junho.

Primeiro ocuparam o lado da avenida, contrário ao Tribunal Regional do Trabalho. Homens, mulheres e crianças, até crianças de colo, mantidas a custo em pé, segurando-se na barra da saia da mãe. Moços e moças com os cambitos expostos, descalços ou com chinelos estropiados. Nada conforme a elegante imponência da fachada do TRT. Troncos grossos, misturados a galhos secos de madeira, foram espalhados na avenida; em seguida, a mesma porção do madeirame foi disposta no lado do TRT.

Não era um  fim de tarde anunciando um flagelo soturno. Dez horas sob o sol incidindo nas indiferentes águas do rio Capibaribe. Troncos e galhos secos, de fácil combustão, à espera da centelha para conferir o vigor de suas moléculas. Os raios do calor, antes rompidos pelo trânsito de ônibus e veículos menores, expuseram-se numa festiva dança de traços verticais, prateados. A madeira incendida, mesmo à luz do dia, logo fez-se em brasa ruidosa. Feito primitivos celebrando a ocupação do bocado nunca lhes oferecido, homens de morins puídos, mulheres de brocados desbotados, desdentados, rostos suados em justificada convulsão, soltando apitos  agudos, gritos moleques, próprios dos rudimentos apreendidos para dar vida a um protesto.

O intento, em parte, fora alcançado. O trânsito fora interrompido. Não ocuparam a calçada do prédio da prefeitura, mesmo porque, a guarda municipal junto a um pelotão da PM, montara a barreira para impedir o acesso à administração do município.

A queima do madeirame, seguindo o curso próprio da quantidade de combustão, poupou-lhes o trabalho de monitorar a duração do fogo.

Puseram-se de um lado e de outro da avenida, mais do lado da prefeitura que do outro. No lado escasso de manifestantes, os moleques deitaram, embolaram no chão quente; os cambitos cinzentos, apáticos ao queimor do chão, fizeram-se da mesma cor do cimento cinza ainda com ressaltos na superfície.

No meio, entre um lado e outro do Cais do Apolo, um homem segura um extremo de uma faixa com pouco mais de dois metros. Do outro, o parceiro também não tem pruridos de mostrar a boca com lacunas nas gengivas. As frases na faixas semelham-se aos garranchos de dentes que há em cada uma das bocas. Do outro lado, a fábrica de biscoitos Pilar não esconde a vaidade com que deixa o vento levar o perfume da farinha de trigo no açúcar. Os homens que seguram a faixa moram ali mesmo, na comunidade que tem o nome da fábrica. Por certo não lhes incomoda o estômago o cheiro do petisco, visto ser de fácil compra, mais fácil que a um quilo do gorduroso jabá. Incomoda-lhes morar ali, em casas de alvenaria em ruínas, pressionados pelo comércio de atacadistas e pelo Cais da Alfândega, onde o monumento a Luiz Gonzaga se ergue de metais prateados durante o dia, orvalhados à noite.

Dois bem-vestidos moços estão na calçada da prefeitura; desceram às pressas para ouvir o reclamo.
- Formem uma comissão para falar com o departamento - diz um deles.

Logo, uma mulher de vestido rendado, de cor imprecisa, toma a dianteira. Atrás dela vêm outras duas. A essa altura, duas mangueiras despejando jatos d´água, dão conta do fogaréu no madeirame.

A mulher tem um filho de colo que carrega na cintura. A criança chora, posto que a mãe deixa-a com outra, enquanto ela negocia com a prefeitura a transferência da comunidade do Pilar para outro local.

*Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem três livros de contos e um romance.



Tendências tendenciosas

* Por Fernando Yanmar Narciso

Parafusos e engrenagens estão na moda novamente! Desde 2007, quando o primeiro filme dos Transformers foi lançado, Hollywood voltou a se apaixonar pela mecatrônica. Nos últimos anos, não houve um filme familiar que não envolvesse robôs gigantes, robôs humanoides, super-armaduras e ciborgues. Só no último verão norte-americano foram lançados quatro filmes do gênero, uns bons, outros medianos, e como não podia deixar de ser, alguns tão ruins que só podiam fazer sucesso.

Aproveitando o embalo, é claro que não podiam deixar de tentar ressuscitar o pai de todos os sucatões. Numa Detroit futurista, dominada por crime organizado, tecnologia e pelas grandes corporações, o detetive Alex Murphy é brutalmente mutilado por uma gangue e deixado à própria sorte. À parte disso, há um programa proposto pelas empresas OCP para substituir policiais e exércitos humanos por robôs autônomos. Apesar de a ideia ser exportada para todos os continentes, o povo norte-americano vê o programa com receio para o uso em seu próprio solo. Pois, como sabemos, eles não suportam ver a morte de norte-americanos coitadinhos e inocentes, já o sangue do resto do mundo lhes importa tanto um peido de mosca.

Por mais absurdo que pareça, eles chegam à conclusão que a única forma de amolecer o coração do Congresso é colocar um ser humano dentro de um robô, aí é que o destino de Murphy se cruza com a OCP. Ainda em coma profundo, eles convencem Clara, a mulher de Alex, que essa seria a única forma de trazê-lo de volta a esse mundo. Assim surgiu RoboCop, um dos grandes anti-heróis da década de 80.

Concebido em 1987 pelo “Holandês Voador” Paul Verhoeven, mesmo sendo um filme de ação de respeito, RoboCop era uma sátira cruel e virulenta do mundo corporativo, do abuso de poder e da maneira como os Estados Unidos- e, por extensão, a humanidade- glorifica a violência. Claro que o espectador médio não dá a mínima para esses detalhes e só quer ver a tela ser pintada de vermelho por uma hora e meia, e Verhoeven não teve o menor pudor quanto a isso. Sendo o filme de ação mais açougueiro até então, apenas Rambo 3 e Vingador do Futuro, este também do diretor holandês, conseguiram superar sua capacidade de chocar a audiência naquela década. A cena de Murphy sendo esquartejado a tiros por um mafioso sádico e todos os tiroteios do filme não perderam sua capacidade de causar desconforto após quase 30 anos de seu lançamento.

Mas aqui estamos em 2014, e a sensibilidade á violência extrema, pelo menos a do cidadão comum, tornou-se mais complexa. Num mundo onde os filmes de ação em sua maioria apresentam super-heróis politicamente corretos e sem sangue nas veias, como fazer para ressuscitar um dos filmes mais cruéis da história, sem torná-lo coisa para maricas? Entra em cena o brasileiro José Padilha, diretor dos dois mega-hits Tropa de Elite 1 e 2, em sua estreia hollywoodiana.

Conhecido por seus filmes reflexivos, escancarando a corrupção policial e política enquanto leva a audiência ao delírio com ação vertiginosa e linguagem chula a granel, sua contratação parecia um convite vindo do Monte Olimpo. Como a Hollywood de hoje não permite matadouros em filmes comerciais e tudo é planejado pensando primeiro na linha de brinquedos, a solução que Padilha encontrou foi seguir a rota da nova série de filmes do Batman, tornando o roteiro espalhafatoso e lunático do primeiro filme uma jornada introspectiva e moral, buscando o homem dentro da máquina e trazendo questionamentos mais enaltecedores, como a essência da humanidade e o conceito do livre arbítrio.

Murphy (aqui interpretado por Joel Kinnaman) não teve envolvimento na decisão de torná-lo um ciborgue, e mesmo tendo “salvo a vida” de seu marido, Clara (Abbie Cornish) sente uma culpa insuportável pela operação a que ele foi submetido, aspecto que quase não foi explorado no filme original. Assim que RoboCop abaixa seu visor, você descobre que, na visão de Padilha, a lata de sardinha ambulante é o próprio Capitão Nascimento. Em menos de 24 horas ele investiga, soluciona o caso do atentado que tirou sua vida, pega o mafioso que plantou a bomba em seu carro e, só de brinde, põe abaixo um esquema de corrupção dentro da delegacia de Detroit, ligado à mesma organização criminosa que proporcionou sua, digamos, experiência de quase morte. Papa essa, BOPE!

Os efeitos especiais do filme são espetaculares. Mesmo tendo uma versão atualizada da boa e velha armadura metálica do sucatão, a versão usada durante todo o filme é o “caveirão”, toda preta e feita de kevlar, novamente inspirada nos filmes do Cavaleiro das Trevas, aposto! A computação gráfica é sutil e assustadora. A imagem de RoboCop sendo desmontado peça por peça, revelando não mais que uma mão, órgãos internos, a cabeça e o cérebro exposto de Murphy me trará pesadelos para sempre...

Não me entendam mal, gostei muito dessa releitura. O problema do filme de Padilha é que ele tentou ser mais do que a mística do personagem permitia. Quem vai ver RoboCop espera ver um filme de ação estarrecedor, burro e sangrento, entretenimento fast-food em sua essência. Quem quiser pensar na condição humana que leia um livro! Foi exatamente isso, e a falta de selvageria, que decepcionou a maioria dos fãs do original. Mas, conhecendo Hollywood como a conhecemos, podem ter certeza que José Padilha não estará na sequência, e esta trará mais purê de corpos que numa fábrica de hambúrguer. Tomara que Murphy não se enferruje até lá.

*Designer e escritor. Sites:
HTTP://www.facebook.com/fernandoyanmar.narciso
http://cyberyanmar.deviantart.com/

HTTP://www.facebook.com/terradeexcluidos
Destino

* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral

No teto de uma gruta 
escura, duas gotas caem 
no chão.
Uma se perde, tragada
pela poeira, a outra escorre
por um vão.
Uma encerra o seu ciclo
a outra se une ao ribeirão.
Destino que se revela
na vida que se refaz.
Milagre não escolhe porto
se consagra onde Deus
aponta.

 * Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário