domingo, 2 de setembro de 2012

Leia nesta edição:

Editorial – A gangorra da vida

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica “Melhor é agir e se arrepender”.

Coluna Direto do Arquivo – Márcio Juliboni, poema “O passo das horas”.

Coluna Clássicos – Hermann Hesse, crônica, “Árvores”..

Coluna Porta Aberta – Carmo Vasconcelos, poema “Maria das flores”.

Coluna Porta Aberta – Fernando Barreto, conto “Ou dá ou desce-VII”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

A gangorra da vida

Vocês já notaram o quanto dependemos das circunstâncias (ou do acaso, como queiram), para obter sucesso no que quer que seja? Muitos atribuem essas oscilações, ora dramáticas e intensas, ora mais suaves e amenas, que ocorrem sem nenhum aviso prévio em nossas vidas, a algo mal definido, que chamam, genericamente, de “destino”. Para essas pessoas, tudo o que nos acontece, de bom ou de ruim, já está ou já estava predeterminado desde nosso nascimento ou até antes. Tolice, claro.

Fosse assim, de nada adiantariam nossos esforços para nos instruir, nos capacitar e nos tornar aptos a encarar quaisquer desafios. Jamais conseguiríamos construir nada de útil e de positivo que não estivesse previamente “escrito” (onde, podem dizer, e por quem?). Ou seja, que não nos fosse “destinado”. Não consigo acreditar nisso, por mais que me esforce.

O que há são circunstâncias aleatórias, ora favoráveis, ora até destrutivas (quando não definitivas e letais), que nos cabe enfrentar e tentar modificar para melhor (no caso de serem negativas). Como? Cada qual deve procurar a melhor estratégia que se adéqüe a situações específicas. Muitas vezes, conseguimos fazer essa reversão. Outras tantas, contudo, por uma razão ou outra, mesmo tentando com todas nossas forças, físicas e mentais (principalmente estas) nos damos por vencidos. Fracassamos.

A vida é como uma “gangorra”. Em determinado momento nos jogas para cima, quando então gozamos as benesses do sucesso, achando que este será duradouro. Raramente é. Quando menos esperamos (e nunca esperamos), de repente, num piscar de olhos, nos atira no fundo do poço. E nos vemos na necessidade de batalhar para encontrar alguma saída. Às vezes nos surge uma oportunidade providencial que, aproveitada, nos impulsiona, de novo, para o alto. Caso não a aproveitemos... O não aproveitamento dessa chance, que pode ou não ser a única, se juntará ao nosso elenco de aflições, com o arrependimento por não termos feito nada, agravando, assim, nossa penúria.

Nem sempre as oportunidades surgidas são claras. Às vezes são, até, bastante obscuras e temos que nos arriscar. É possível que nos atiremos de cabeça, tentando agarrá-las e venhamos a nos dar mal. Se não tentarmos, todavia, jamais saberemos. Todos temos, em algum momento, a nossa hora decisiva, o instante fatal que pode determinar todo nosso futuro ou, até mesmo, se teremos algum. Há que se ter coragem nessas decisivas situações. E, claro, contar com a favorabilidade do acaso.

Ao lermos biografias de determinadas personalidades, obviamente vencedoras (caso contrário sequer seriam biografadas), somos tentados a achar que “todas” as circunstâncias de suas vidas, ou, pelo menos, a maior parte delas foram favoráveis. E que não tiveram que encarar essa infernal “gangorra”, que consome tempo e energia nos momentos de baixa. As coisas não são bem assim. Vejam o caso de Victor Hugo.

É certo que no final da vida, gozou de amplo reconhecimento e inequívoca admiração dos franceses. Para que vocês tenham uma idéia do quanto isso tudo foi, basta dizer que sua morte causou profunda comoção na França. Seus restos mortais foram expostos, antes de serem sepultados no Panteon dos heróis da pátria, por um dia inteiro no famoso Arco do Triunfo, bem no centro de Paris, e foram homenageados e reverenciados por um número estimado de dois milhões de franceses!!! Quantas pessoas vocês conhecem que receberam tamanha reverência e carinho? Eu não conheço nenhuma.

Contudo, sua vida também foi uma “gangorra” em que se alternaram sucessos e fracassos. Nem tudo o que ele fez foi correto, eficaz, louvável ou mesmo coerente. Hugo errou, e errou muito, quer na conduta pessoal, quer na atividade de escritor. Ou seja, foi humano, como todos nós, sujeito às mesmas tentações, vícios e contradições que nos afetam amiúde. Isso, todavia, não o deslustra. Pelo contrário, valoriza o que foi e o que fez.

Anotei, nas várias biografias do escritor que li, diversos fatos, alguns até bizarros, de atitudes que podem ser consideradas, no mínimo, condenáveis ou pelo menos contraditórias. Espero poder comentá-las na sequência destas reflexões. Por hoje, me concentrarei no seu casamento.

Víctor Hugo casou-se, com Adele Foucher, em 12 de outubro de 1822. É difícil dizer se essa ligação se deu por amor ou por algum outro interesse. Essa mulher, à qual desposou, ou seja, se uniu por vínculo tão forte, era uma amiga de infância. Ambos cresceram juntos, brincaram, brigaram, trocaram confidências, namoraram e... Casaram. Sabe-se que o escritor teve inúmeras amantes, notadamente antes de partir para o exílio. A mais famosa foi Juliette Drouet, pintada por alguns biógrafos como atriz de segunda categoria, de escasso talento, mas de grande beleza e poder de sedução, que atuou em duas das peças teatrais de Hugo. Ela foi, no entanto, apenas uma das tantas ligações ilegítimas do escritor.

Ocorre que Adele Foucher sempre foi a paixão secreta do irmão do nosso personagem, Eugene. O sentimento deste era tão profundo que, em decorrência do casamento, o rapaz, pasmem, enlouqueceu. Foi internado em um hospício e pouco tempo depois, morreu em conseqüência desse profundo e irreparável desgosto amoroso. Ora, se Hugo não amava Adele (que, no entanto, lhe deu três filhos), por que não favoreceu o relacionamento dela com o tão apaixonado irmão? Pelo contrário, alimentou um casamento infeliz para ambos (ou, nas verdade, para os três), a ponto de amasiar-se, sem precisar esconder de ninguém, com atrizes bonitinhas e ordinárias, com aristocratas insatisfeitas com os maridos e com humildes costureirinhas (e foram várias), a sua predileção? É... ninguém é perfeito...

É certo que, após o nascimento de mais uma de suas filhas, que recebeu o nome da mãe, obteve, da esposa, “sinal verde” para “pular a cerca” e ter os relacionamentos extraconjugais que quisesse, desde que “não a aborrecesse”. Em contrapartida, Adele lhe deu o troco, tornando-se amante de um amigo da família, o também escritor Saint-Beuve. Ainda assim, o casamento resistiu a tantos e tão fortes abalos e o casal não se separou, vindo a ser restabelecido durante o período de exílio de Hugo.

Viram como nosso personagem também não escapou da “gangorra” da vida? Seus fracassos se multiplicaram e se diversificaram. Só que o escritor soube dar a volta por cima. Daí ter epílogo tão glorioso em sua dramática e movimentada biografia.

Boa leitor.

O Editor. .

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Melhor é agir e se arrepender

* Por Pedro J. Bondaczuk

“Ah! Se arrependimento matasse!”. Quem nunca fez, ou pelo menos nunca pensou em fazer, esse tipo de desabafo? Quem jamais se arrependeu de coisa alguma? Alguns, até, podem afirmar que não se arrependem de nenhum ato que praticaram, que se pudessem retroceder no tempo e começar a vida do princípio, fariam tudo o que já fizeram da mesmíssima maneira, sem alterar nada. Estão mentindo, claro. Ou, se não estiverem, sequer se conhecem direito.

Arrependimentos temos, e em profusão, quase que diariamente. Até os santos (claro, se ainda existir algum) arrependem-se de alguma coisa que fizeram ou deixaram de fazer. Porquanto arrependemo-nos tanto de ter feito o que não deveríamos (e que nos trouxe resultados nefastos, quando não desastrosos) quanto de não haver agido em momentos que exigiam ação. Aliás, estes últimos, suspeito, são em muito maior quantidade e mais incômodos.

Por que, por exemplo, não buscamos reconciliação, quando isso ainda era possível, com a pessoa amada, após uma das tantas briguinhas conjugais, tão comuns entre casais que se amam (e que são até mesmo necessárias para esclarecer determinadas pendências), deixando que uma barreira de ressentimentos e mágoas ofuscasse, e depois matasse, o amor?

Trata-se, como se vê, de arrependimento de desastrosa omissão, determinada, quase sempre, por um orgulho tolo e sem sentido, apenas para “não dar o braço a torcer”. Ou seja, apostou-se tanto em tão pouco. E isso, convenhamos, é extremamente comum e corriqueiro. Muitos, muitíssimos já se arrependeram disso. Talvez nunca admitam para ninguém, nem para si mesmos, mas que tiveram esse arrependimento, ah, isso tiveram! A menos que não gostassem, de fato, da pessoa a quem juravam amor. Mas se gostavam...

O que levou, por exemplo, determinada pessoa a reagir violentamente a uma reprimenda do pai, deixando sua casa e nunca mais voltando a falar com ele? Será que quem agiu dessa forma nunca se arrependeu desse tipo de atitude? Nunca sentiu falta dos conselhos e da orientação desse alguém que tanto se importava com seu presente e seu futuro? Nunca pensou em retribuir, mesmo que minimamente, o que esse benfeitor lhe fez? Que benefício sua atitude intempestiva trouxe e para quem? Há casos e mais casos desse tipo, ditados, apenas, e tão somente, por um orgulho tolo e inútil, gerando sofrimento, dor e solidão.

Será que há alguém que nunca se arrependeu de oportunidades perdidas? Que não lamente haver aberto mão de empregos compensadores, apenas por causa de algum chefe chato ou por não querer se enquadrar nas normas de disciplina da empresa? Que não tenha comido o pão que o diabo amassou só por não ser perseverante, autodisciplinado e aplicado no que sabia fazer bem?

Conheço casos e mais casos assim. Sei de carreiras potencialmente brilhantes, interrompidas, abruptamente, em decorrência de atos impensados. Se quem agiu dessa forma se arrependesse em tempo e tentasse consertar a bobagem que fez, é provável que tudo seria esclarecido e a vida seguiria seu curso. Mas não o fez no devido tempo. E quando se arrependeu... já era tarde, muito tarde.

Não há, por outro lado, ninguém que tenha se arrependido de determinada opção, que tinha todas as evidências de fracasso, e que, por teimosia, decidiu, mesmo assim, fazer, à revelia de conselhos, alertas e admoestações, contrariando tudo e todos?

Ninguém nunca se arrependeu, por exemplo, de haver adquirido determinado vício, do qual não consegue se livrar e que transforma sua vida em sucursal do inferno? Ou de haver abraçado certa causa, claramente nociva, apenas para mostrar suicida espírito de rebeldia?

“Ah! Se arrependimento matasse!”. O melhor, óbvio, seria viver de tal sorte, com tamanha prudência, sabedoria e correção, que nunca existisse a menor necessidade de se arrepender do que quer que fosse. Mas isso é possível? Talvez o seja, por um certo tempo. Contudo, por todo o tempo... tenho minhas dúvidas.

Os piores arrependimentos talvez sejam em relação ao que poderíamos ter feito e não fizemos. Não sei se existe alguma escala de excelência nessa questão. Talvez não haja. Todavia, a menos que se tenha cometido algum crime, pelo qual seja necessário pagar o devido preço, concordo com o escritor italiano Giovanni Boccaccio, autor do tão conhecido “Decamerão”, quando afirmou que “mais vale agir na disposição de nos arrependermos do que nos arrependermos de nada termos feito”.

A omissão, ah, a omissão! Que tremendo pecado mortal é esse, em relação ao mundo e a nós mesmos! Esse impõe arrependimentos, mesmo que tardios, “ad aeternum”!! E o pior é que, se arrepender nessas circunstâncias, jamais remediará o pecado de não se ter agido quando se poderia e deveria agir!


* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk

O passo das horas

* Por Márcio Juliboni

"Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente..." (Hora Absurda – Fernando Pessoa)

Estou vespertino.
Aprofundo-me no negrume
a cada hora.
Sei que a noite terá seu cume
ao nadir da aurora...

Então, serei noturno.
Apagar-se-á de mim todo lume
nos olhos de quem chora.
Tal como a dor se resume
na prece de quem ora,

quererei ser madrugada.
Romper a sisudez de betume
da noite que me apavora.
Negá-la, antes que me acostume
à desfé que me devora.

E, novamente, serei manhã
– ponto em que o dia se assume
sobre a sombra de outrora.
E irei com a hora que rume
junto à vida que se reflora...


*Jornalista, cobre Economia e Negócios no portal Exame. Trabalhou no serviço de notícias online, “Panorama Setorial”, do jornal Gazeta Mercantil, na Agência Estado e em várias revistas segmentadas. Iniciou a carreira na grande imprensa em 2000.

Árvores

* Por Hermann Hesse

“Para mim, as árvores sempre foram os pregadores mais penetrantes. Eu as reverencio quando elas vivem em tribos e famílias, nas florestas e bosques. E eu as reverencio ainda mais quando elas estão sozinhas. Elas são como pessoas solitárias. Não como eremitas, que se perderam por alguma fraqueza, mas como grandes homens solitários, como Beethoven e Nietzsche. Em seus galhos mais altos o mundo sussurra. Suas raízes descansam no infinito. Mas elas não se perdem lá; elas lutam com toda a força de suas vidas para uma única coisa: a realizar-se de acordo com suas próprias leis, para construir a sua própria forma, para representar a si mesmo. Nada é mais sagrado, nada é mais exemplar do que uma árvore, bela e forte. Quando uma árvore é cortada e revela a sua morte ferida nua para o Sol, pode-se ler a sua história inteira no disco luminoso, inscrito em seu tronco: nos anéis dos seus anos, suas cicatrizes, toda a sua luta, todo o seu sofrimento, todas as suas doenças, toda a sua felicidade e prosperidade estão realmente escritas, os anos difíceis e os anos de luxo, os ataques resistidos, as tempestades vencidas. E cada jovem das roças sabe que a madeira mais nobre e mais sólida tem os menores anéis, que no alto das montanhas e em perigo permanente são as árvores mais indestrutíveis, mais fortes, mais ideais, que crescem.

As árvores são santuários. Quem sabe como falar com elas, e quem saber ouvi-las, pode aprender a verdade. Elas não pregam a aprendizagem ou preceitos. Elas pregam, sem se abalar, a antiga lei da vida.

Uma árvore diz: um núcleo está escondido em mim, uma faísca, um pensamento, eu sou a vida da vida eterna. A tentativa e o risco que a mãe eterna tomou comigo é único, exclusivas as formas e as veias da minha pele, único também a menor das folhas em meus galhos e a menor cicatriz da minha casca. Eu fui criada para formar e revelar o eterno em cada um dos meus pequenos detalhes.

Uma árvore diz: minha força é a confiança. Não sei nada sobre meus pais, eu não sei nada sobre os milhares de crianças que a cada primavera nascem de mim. Eu vivo o segredo da minha semente até o fim, e eu não me importo com nada além disso. Eu confio que Deus está em mim. Eu confio que o meu trabalho é sagrado. É dessa confiança que eu vivo.

Quando somos feridos e não podemos mais suportar nossas vidas, então a árvore tem algo a nos dizer: atenção! Atenção! Olhe para mim! A vida não é fácil, a vida não é difícil. Esses são pensamentos infantis. Deixe Deus falar dentro de você e seus pensamentos irão crescer em silêncio. Você está ansioso porque o seu caminho conduz para longe da mãe e do lar. Mas cada passo e cada dia o levam de volta para a mãe. O lar não está aqui nem lá. Ou o lar está dentro de você, ou o lar não está em lugar algum.

Uma ânsia para vagar arranca lágrimas do meu coração quando ouço as árvores farfalhando ao vento durante a noite. Se alguém ouve em silêncio por um longo tempo, esse desejo revela o seu núcleo, o seu significado. Não é tanto uma questão de escapar de um sofrimento, embora possa parecer assim. É uma saudade de casa, de uma memória da mãe, de novas metáforas para a vida. Isso o leva para casa. Cada caminho leva em direção a casa, cada passo é o nascimento, cada passo é a morte, cada túmulo é a mãe.

Assim, a árvore sussurra à noite, quando estamos inquietos diante dos nossos próprios pensamentos infantis: árvores têm pensamentos longos, uma respiração longa e tranquila, assim como elas têm uma vida mais longa que a nossa. Elas são mais sábias do que nós, enquanto nós não as ouvirmos. Mas quando aprendemos a ouvir as árvores, a brevidade e a rapidez e a pressa infantil de nossos pensamentos alcançam uma alegria incomparável. Quem aprendeu a escutar as árvores já não quer ser uma árvore. Ele não quer ser nada, exceto o que ele é. Isso é estar em casa. Isso é a felicidade.”

• Escritor alemão, naturalizado suíço, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura

Maria das flores

* Por Carmo Vasconcelos

Doloridas violetas traz nos olhos,
pelos dedos escorrem-lhe martírios,
e, tal em novena, ardem-lhe quais círios,
no peito amante, pálidos abrolhos.

Por que, teimosa, inda cultiva flores;
paisagens coloridas de desejos
que sonha salpicadas de ígneos beijos?...
Se na hora da colheita, colhe dores!

Alimenta-as de amor e rubro sangue,
porém os caules, meros lambareiros,
saciados, deixam-na... sozinha e exangue.

Florista acorrentada à fantasia,
só tem a flor-saudade nos canteiros…
Mas o sonho ainda habita na Maria!


• Maria do Carmo F. Vasconcelos de Figueiredo é poetisa portuguesa
Ou dá ou desce – VII

* Por Fernando Barreto

Capítulo 7- Last and least

Os moradores mais velhos do condomínio viviam apáticos em seus microcosmos, cheios de medo na fase final de suas vidas. Tinham medo do dia seguinte. As crianças descontroladas viviam sofrendo com a falta de espaço e estavam sempre cheias de energia ruim por causa do excesso de açúcar no organismo. A repressão sobre elas vinha das câmeras instaladas nos elevadores, nas escadas e no hall de entrada do prédio. Através do canal de TV que transmitia o que essas câmeras captavam, Brito assistia de seu apartamento a essa movimentação sufocada e lembrava que em seus tempos de criança as coisas eram diferentes. Mesmo sendo ele um cara que também foi criado num prédio de apartamentos.

Uma cidade dormitório. As imediações da Avenida Paulista não eram apropriadas para nenhum deles. As ruas ali em volta poderiam ser perigosas demais tanto para os octogenários e nonagenários, quanto para as crianças. Tanto à noite como durante o dia. Alguns dos velhinhos resistiam à idéia de mudarem para cidades menores, pois pensavam que a assistência médica supostamente superior a que tinham acesso em São Paulo poderia lhes dar mais alguns anos de vida. Outros continuavam a viver perto da Paulista por não terem opções práticas de mudança. Teoricamente poderiam vender o apartamento bem valorizado daquela região e comprar uma casa agradável no interior e investir o que sobrasse do dinheiro.

Seu Ciro era um senhor de 82 anos a quem Brito conhecia desde as suas primeiras lembranças, na mais tenra infância. Eram os anos 70 e aquele mesmo prédio não tinha nem ao menos um portão que isolasse a calçada dos canteiros da parte frontal. Não havia a guarita externa para o porteiro. Não se sonhava com câmeras de segurança, naturalmente. E seu Ciro ainda era um cinquentão robusto, com muito cabelo, todo ele tingido de um preto quase azulado. Foi síndico do prédio muito antes de Britão ocupar o cargo. Sua esposa era Dona Michele, uma senhora muito religiosa a quem Brito só via sair de casa para ir à igreja e para levar pedaços de pizza para os porteiros do período noturno. O casal nunca teve filhos.

Fã de Vicente Celestino e Ataulfo Alves, Seu Ciro foi uma influência para que Brito se interessasse por música. A coleção de discos de Seu Ciro era sensacional. Nesse e em outros aspectos, Brito era muito mais influenciado por ele do que por seu pai. Seu Ciro era aposentado e saía de seu apartamento pela manhã para fumar seus cigarros sentado num banco na frente do prédio. Dona Michele não o deixava fumar dentro do apartamento. Seu Ciro já não tinha tanto cabelo na parte de cima da cabeça, mas também não era muito careca. Havia desistido das tinturas muitos anos antes e isso melhorou muito sua aparência, mesmo com a idade mais avançada. Tinha um bigodinho branco aparado e óculos de Buddy Holly. Era baixinho e troncudo. Setenta e cinco quilos para um metro e sessenta e cinco de altura. Não andava curvado nem tinha um aspecto cansado.

A janela do apartamento de Seu Ciro era voltada para os fundos do prédio, de modo que ele não precisava se preocupar com o fato de sua mulher o vigiar de casa. Quando alguma garota que o agradasse visualmente entrava ou saía do prédio, ele a acompanhava com o olhar e quando ela estivesse próxima, dizia: "Sou um seresteiro da velha guarda, minha filha!"

Seu Ciro, assim como Brito, fumava Dunhill. Numa ocasião em que ele cochilou e roncou no banco próximo ao jardim da parte da frente do prédio, um garoto matreiro, sobrinho de Cleitom, substituiu parte do recheio do último cigarro de seu Ciro por maconha. O pobre velhinho fumeta acordou do cochilo e resmungou ao tirar o último cigarro e jogar fora a caixinha vazia. Teria que ir até a padaria comprar mais cigarros. Ele sempre ficava nervoso quando o maço chegava ao fim. Acendeu o cigarro e nem percebeu o cheiro diferente. Apenas tragava e resmungava palavras incompreensíveis.

Enquanto isso, Brito sem perceber desfrutava de alguma paz, porque naquele momento já tinha feito o que considerava necessário para que começasse a tomar uísque sem ter mais preocupações pelo resto do dia. Estava livre dos inconvenientes da urgência. Exercitava sua solidão e seu desprendimento social através do piloto automático. Ouvia o disco Argus, do Wishbone Ash. Sua relação com o pai estava abalada por causa da última briga. Isso acontecia de tempos em tempos. Havia um lado bom nesses períodos, porque caso Britão cometesse alguma atrocidade, Brito poderia simplesmente aproveitar o simples fato de ser oposição automática ao fato. Jogaria isso na cara do velho caso fosse necessário Por outro lado, sua reclusão não permitia que sua vizinhança soubesse das divergências com o pai, ou pelo menos das razões das divergências, ainda que elas se resumissem ao comportamento e estilo de vida de Britão. As brigas não aconteciam o tempo todo porque Brito não as alimentava. Seria burrice fazê-lo. Tentar mudar seu pai seria como querer mudar o resto do mundo. Britão era a parte mais próxima do resto de um mundo que Brito repudiava. Então ele foi fumar na sua sacada e lá de cima viu Seu Ciro gesticulando no que parecia uma alegre conversa com Guido. Ambos estavam sentados encostados no muro do hospital em frente ao prédio.

Brito desceu para saber o que acontecia. Podia evitar, mas não parecia uma situação normal e ele estava curioso. Desceu rapidamente pela escada achando que até o momento em que chegasse no térreo a cena já poderia estar desfeita. Lá embaixo era Cleitom quem estava na portaria. Brito foi novamente chamado de 'pessoa' por Cleitom, mas não se aborreceu porque bem naquele momento que constatou que Seu Ciro e Guido ainda estavam na frente do prédio, sentados do outro lado da rua. Brito rapidamente saiu do prédio e se aproximou, sendo imediatamente saudado por Guido:
- Brito!!! O vovozinho fumou um cigarrinho de carnaval!! – disse Guido.
- Que doidice é essa? Seu Ciro, o senhor conhece o Guido? – perguntou Brito ao mesmo tempo em que constatava que a roupa de Seu Ciro já estava de tal forma suja que a cena lhe parecia quase inacreditável.
- É o filho do Britão!!! – gritou Seu Ciro, antes de se acabar numa bela gargalhada.

FIM

• Escritor