Sonhos de criança não morrem jamais
* Por Pedro J. Bondaczuk
Os sonhos de criança, desde que minimamente factíveis
conforme dite nossa intuição, mesmo que aparentem ser impossíveis, nunca
morrem. Podem permanecer adormecidos por anos em nosso subconsciente. Todavia
continuam vivos, como ursos em hibernação. Caso as circunstâncias sejam
favoráveis, subitamente despertam do seu longo sono, afloram à mente e, se
soubermos aproveitar determinadas oportunidades, mesmo que raras, como que por
um milagre se realizam. Estas considerações vêm a propósito de um sonho que
acalentei desde menininho de tenra idade (tinha uns quatro ou cinco anos),
alimentado, na ocasião pelo meu tio Jan Kraszczuk, irmão da minha mãe: o de ser
escritor. Era, todavia, mais ousado (com o “atrevimento” permitido apenas às
crianças) do que apenas limitar-me a sonhar com pouco. Sonhava alto, em ser
famoso, requisitado por leitores sem fim, escrevendo, e publicando, livros e
mais livros.
A rigor, tive, então, outros tantos sonhos. A imensa maioria
era tão grandiosa, que eram absolutamente não factíveis. Superavam a capacidade
humana para se concretizar. Muitos ficaram pelo caminho. Não morreram, todavia.
Continuam, até hoje, “hibernando”. E seguirão dessa forma enquanto eu viver, a
menos que. por algum fortuito milagre, surjam condições propícias para serem
concretizados, contrariando, dessa forma, a lógica. Caso isso ocorra, certamente
despertarão de seu letárgico sono. Contudo... hoje continuam congelados (posto
que vivos, vivíssimos, por sinal).
A esse propósito, a poetisa Adélia Prado (cuja poesia amo de
paixão), tem um significativo poema, que amiúde recito para mim mesmo, e tantas
vezes que o declamo a qualquer hora, sem pestanejar, decór e salteado,
intitulado “O pote dos sonhos”. Nele, esta “protegida” das musas diz:
“O sonho encheu a noite
Extravasou pro meu dia
Encheu minha vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre”.
Os meus, pelo menos, nunca morreram. E o de ser escritor,
realizou-se (mesmo que apenas parcialmente). Tem condições de ir além? Não há
como saber. Famoso não sou, mas... sou escritor. E esse sonho começou a materializar-se não
propriamente quando publiquei meu primeiro livro (de contos, intitulado
“Quadros de Natal”, hoje completamente esgotado e que nunca consegui encontrar
qualquer exemplar, mesmo em sebos). Foi quando fui eleito para uma academia de
letras (que embora não fosse a Paulista e muito menos a Brasileira, tem, para
mim, valor inestimável). Sou, com muito orgulho, e há já quase 25 anos (a serem
completados em 16 de novembro de 2017) acadêmico. Integro a instituição fundada
pelo professor Benedito Sampaio e por um seleto grupo de intelectuais. Sou
membro da Academia Campinense de Letras.
Oportunamente, trarei à baila as circunstâncias que permitiram
minha eleição para a ACL. Hoje, transcrevo, apenas, reportagem, publicada na
edição de 17 de novembro de 1992 pelo jornal “Correio Popular” de Campinas,
noticiando minha posse na cadeira de número 14 dessa casa. A reportagem foi
escrita pelo jornalista (e amigo) Edmilson Siqueira, que foi meu companheiro,
também, na antiga Rádio Educadora, atual Bandeirantes Campinas. A referida
matéria diz:
“O jornalista e escritor Pedro J.
Bondaczuk, editor de Economia do Correio Popular, tomou posse ontem à noite da
cadeira de nº 14 da Academia Campinense de Letras, que pertencia a Theodoro de
Souza Campos Jr., o último membro da Academia que havia participado da sua
fundação. Bondaczuk concorreu com mais seis pretendentes tendo recebido a maior
votação já registrada na ACL. ‘Para mim é motivo de grande orgulho pertencer à
Academia, não só pela votação recebida, mas por substituir o último acadêmico
fundador que estava vivo e por ser o mais jovem integrante da casa’, disse
ontem o novo acadêmico, entre os preparativos para a posse que aconteceria logo
mais à noite.
Como o mais jovem membro da Academia,
Pedro Bondaczuk tem alguns planos e idéias, como uma maior aproximação da casa
com a imprensa e com o público mais jovem. ‘A Academia não deve ser encarada
como um depósito de pessoas velhas que se encontram de vez em quando. É uma
entidade dinâmica que pode fazer muito pela cidade. Dentre meus objetivos,
humildemente, espero levar por lá um pouco dessa idéia de modernidade’.
Em seu discurso de posse, Bondaczuk
afirmou estar vivendo um sonho ao se tornar membro da Academia, ao lado de
figuras relevantes de nossa intelectualidade, entre eles cinco ex-professores
do novo acadêmico. Ele também traçou um perfil biográfico de seu antecessor,
Theodoro de Souza Campos Jr., e fez um breve histórico dos 36 anos da Academia
Campinense de Letras”.
Na época, como informa a matéria, eu era editor de Economia,
após haver passado por praticamente todas as editorias do jornal, embora minha
especialidade fosse a política internacional. Minha grande vantagem, porém, ao
longo de uma carreira jornalística de mais de trinta anos, era o ecletismo. Ou
seja, a de não me haver especializado em uma única vertente jornalística, mas
manter vivo o interesse por “todas” elas. Dedicava-me, na ocasião, de corpo e
alma, ao jornalismo, com enorme responsabilidade profissional sobre os ombros.
Contudo, exercitava, à margem, considerável atividade literária, movido pelo
sonho de menino: o de ser escritor. Colegas perguntavam-me, amiúde, como eu
conseguia conciliar jornalismo e literatura, tendo em vista que o dia “tem
apenas 24 horas”. Sei lá! O fato é que conseguia. Tanto que, por uma dessas
artimanhas do acaso, minha produção literária credenciou-me a ascender à
Academia Campinense de Letras. Nada como a força dos sonhos quando começam a se
tornar concretos. Encontramos forças não sabemos onde, que sequer
desconfiávamos que tínhamos. Removemos “até montanhas” diante da meta tão
próxima. Afinal, como enfatizou Adélia Prado, “sonho não morre”!!!! E não morre
mesmo!!!!
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Muito bom subir degraus, cada um deles, pois sem isso não se chega lá.
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