Feiura e banalidade
A educação é um processo contínuo, que
começa logo no nascimento – quando a natureza nos força a aprender a respirar,
a se alimentar utilizando o seio materno e a praticar outros tantos atos vitais
de que não nos damos conta – e se encerra, somente, com a nossa morte. Estamos,
continuamente, aprendendo, aprendendo e aprendendo, todos os dias, todas as
horas, todos os minutos até. Pena que a coisas novas que aprendemos nem sempre
são as mais convenientes, ou necessárias, ou mesmo saudáveis para a nossa vida.
Nesse processo de constante
aprendizado, atos, exemplos e atitudes, são muito mais importantes do que meras
palavras, por mais profundas e bem-utilizadas que sejam. O homem é um animal
imitador. Isso faz parte da sua natureza. Nesta época tensa da história, em que
imperam o egoísmo e um inconsciente e estúpido materialismo, todavia, se torna
cada vez mais difícil a tarefa do educador para ensinar princípios e valores
sólidos aos jovens.
Escasseiam exemplos de grandeza, beleza
e transcendência e abundam os de violência, cobiça e corrupção. O antropólogo e
cientista do comportamento, Konrad Lorenz, chegou a desabafar, certa ocasião,
com desalento, em entrevista a um jornal: “Como despertar num adolescente o
sentimento de respeito, se tudo o que ele vê ao seu redor é obra humana, feia e
banal?!”.
Como? Mostrando-lhe a ação dos grandes
líderes do passado, que com idealismo e talento, promoveram importantes saltos
na civilização. Não fossem eles, o mundo, certamente, estaria muito pior hoje em dia. Trazendo à
baila obras de arte, de poetas, pintores, escultores, compositores etc., que
tornaram a vida mais alegre e bela. É questão de justiça. Esses homens merecem
nossa lembrança e gratidão.
Ressalte-se que não há demérito algum,
ao contrário do que muitos pensam, em se imitar pessoas dignas de imitação. A
rigor, passados 13 mil anos de civilização, com milhares e milhares de gerações
se sucedendo, é absolutamente impossível sermos originais. Todos nossos atos e
pensamentos, dos mais banais aos mais complexos e transcendentais, são
imitados. Alguém, em algum tempo ou lugar, já os praticou.
Desde as primeiras palavras que
balbuciamos, dos primeiros passos que damos, das coisas mais triviais que
aprendemos, imitamos alguém. O problema é o modelo. Por exemplo, entre Hitler e
São Francisco de Assis, é óbvio quem deve nos servir de parâmetro, não é mesmo?
Devemos imitar quem de fato mereça
imitação, por seus atos e idéias. E muitos, dos que consideramos (com justiça)
“gigantes da espécie”, a merecem. Não se pode negar, no entanto, que a feiúra e
a banalidade imperam. Que a cobiça, a violência, a corrupção, as injustiças, a
ingratidão e milhares e milhares de outras atitudes condenáveis e perversas
prevalecem. Até a ação que deveria ser considerada transcendental (porque o é),
foi desvirtuada, corrompida, conspurcada, banalizada e tornada horrível.
O mais sublime e importante dos atos da
natureza, o que assegura a reprodução das espécies e a conseqüente
multiplicação e perpetuação da vida, foi transformado, pelo homem, em algo
trivial, de pouca (ou nenhuma) importância espiritual, mera diversão a dois. O
desvirtuamento foi de tal sorte, que a maioria das palavras de baixo calão,
utilizadas para ofender desafetos em momentos de raiva, tem conotação sexual.
O ato mais sublime e nobre que o ser
humano deveria praticar com compunção, responsabilidade e devoção, foi
corrompido, desvirtuado, aviltado, emporcalhado, mercantilizado e banalizado,
quando deveria ser considerado sagrado e encarado como nossa maior missão no
mundo.
Não se trata, aqui, de ditar regras de
moral, mas de atentar para a pura lógica que, neste caso, é violentada da forma
mais absurda e brutal. Machado de Assis, com seu talento, apresenta argumentos
irretorquíveis em defesa da sacralidade do ato sexual, numa de suas magistrais
crônicas, ao escrever: “Como a vida é o maior benefício do universo, e não há
mendigo que não prefira a miséria à morte, segue-se que a transmissão da vida,
longe de ser uma ocasião de galanteio, é a hora suprema da missa espiritual”.
Há como refutar, com idéias e não meras palavras, tão sábio e verdadeiro
argumento?
Embora a vida seja rápida demais (e é),
são muitas as experiências afetivas, boas e ruins, que vivemos ao longo dos
anos. São tantas, que sequer arranjam espaço suficiente na lembrança para
poderem se perpetuar, apesar da memória ser tão ampla e receptiva. Esquecemos,
com o tempo, de muitas dessas experiências e das pessoas com as quais as
compartilhamos. Por isso, só vemos feiúra e banalidade ao nosso redor.
Causa-me intensa piedade, acompanhada
de frustração, quando observo uma pessoa que tinha todo o potencial para se
realizar na vida, para conquistar seus sonhos, concretizar seus ideais e ser
feliz, fracassar e se tornar inútil, maldosa, amarga e derrotada. Foram
inúmeras as que vi se corromperem e se desviarem da boa rota, enveredando pelo
caminho do vício ou do crime.
Mais agudo, ainda, esse sentimento se
torna quando constato que nada posso fazer para ajudar esse alguém que se desviou
da trilha óbvia e segue, célere, em direção ao abismo sem volta. Lamento,
lamento muito minha incapacidade de convencimento e minha conseqüente desvalia.
Essas pessoas imitaram modelos errados, viciosos e corrompidos, de notórios
fracassados, e se deram mal. Passaram a enxergar, apenas, feiúra e banalidade
ao seu redor. E tornaram-se, física e espiritualmente, também feios e banais.
Uma pena...
Boa leitura!
O Editor.
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O sexo só tem algo de sagrado quando o casal se ama, o que é bem raro hoje em dia.
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