Alegria na Natureza
* Por
Wanderlino Arruda
Mais cedo que de
costume, Olímpia me acordou bem antes das seis, e me disse que estava chovendo.
Queria saber se eu havia apanhado a roupa lavada do arame, como me pedira ontem
à noite, depois que eu tinha chegado da Faculdade. Marido exemplar, certas
horas, respondi afirmativamente e me recordei de uma alegre sensação de paz, do
carinhoso cheirinho de roupa lavada, tão grato à vida em família. Todos nós,
mortais, pensei, devíamos cantar diariamente um hino de louvor às lavadeiras,
criaturas que nos permitem o conforto da limpeza e do bem-estar. Ótimo, acordar
assim. Nada melhor do que a felicidade, principalmente de manhãzinha...
De pé, volto ao
quintal, manhã já clara, embora a névoa de chuva, cheiro de chuva, festa de
primeiras chuvas. Tudo bem, só havia esquecido, no arame, algumas toalhas, do
lado mais escuro, onde o holofote nada me mostrara durante a noite. Mais, só
alguns jeans da garotada, que ainda bem molhados, deixei lá de propósito.
A esta altura, tudo
estava pingando água, translúcidas gotas de início de estação, generosas,
bonitas, merecedores de gratidão nossa e da natureza. Um espetáculo, que se não
tão interessante para a dona de casa, para mim - sonhador - um encanto de
poesia! Mais uma vez, tudo bem com a vida...
Uma vez, não sei
porque, no meio de uma conversa de escritório, Pedro Narciso, falando de maravilhas
da vida de fazenda, comentou sobre a quase lubricidade com que o gado acorre
aos primeiros brotos, às primeiras flores de primavera. Uma pontinha de capim,
por menor que seja, é uma festa. Um galhinho, mesmo às alturas, é um motivo de
esforços instintivos, com pescoços esticados, línguas salivadas de desejo,
buscando um novo sabor de pasto verdejante, como que uma saudade criada e
recriada pelos meses de secura e magreza. São cenas gratificantes, o animal
demonstra alegria, o homem o vê assim, e, mesmo sem misticismo, agradece a Deus
a recompensa na recomposição do cenário em novo colorido, verde escuro
substituindo o amarelo-palha, amarelo cinza, cor viva substituindo tons
desbotados, o poeirento.
Em poucos minutos, de
pé, olhando a chuva, remoendo experiências, construo o quadro dessa crônica.
Feliz, muito feliz, rendo graças pela visão de transcendência, o poético, o
artístico, o real que o momento me ofereceu. Volto e dou um muito obrigado
também à minha mulher pelo presente do muito cedo me despertar... Afinal,
existem momentos melhores e mais gratos do que os da felicidade?
*
Escritor, advogado, político e professor, membro da Academia Montesclarense de
Letras.
Delícia acompanhar sua alegria, Wanderlino. Fiquei vendo as cenas, Olímpia, sua bela e agradável esposa e Pedro Narciso, meu tio. Que bom encontrá-los aqui.
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