Nem
Trump, nem Temer: Xereca no Rio Solimões
* Por
José Ribamar Bessa Freire
“O
homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não
sabe ler".
Mark Twain (1835-1910).
O prazer. Não foi
através dos olhos, mas dos ouvidos, que descobri no final dos anos 1950 o
prazer da leitura. Aconteceu em Coari (AM), no Solimões. Lá, no seminário
redentorista, no refeitório, na hora do almoço, enquanto a gente comia em
silêncio, um colega maior lia em voz alta romances consagrados da literatura
universal. Cada dia um leitor diferente avançava alguns capítulos, que seriam
comentados no recreio. Dava de dez a zero nas telenovelas. Foi assim com o Trem
de Istambul de Graham Green, Lord Jim de Joseph Conrad e As aventuras de Tom
Sawyer de Mark Twain, entre tantos outros.
Literatura para nós
não era a palavra escrita, mas a falada. A voz desses leitores, num passe de
mágica, imprimia cor local a qualquer narrativa, transformando cenários e
personagens. O rio Mississipi, palco das peripécias de Tom Sawyer, se convertia
no Solimões. O Cass Lake vinha lá de Minnesota para desaguar no Lago Mamiá e a
pequena aldeia de São Petersburgo, no Missouri, se tornava a comunidade São
Francisco do Jacaré. Mastigávamos o feijão cozinhado pela dona Maritó, saboreando em silêncio histórias narradas por
grandes escritores. Era uma senhora viagem.
O sucesso de cada
capítulo dependia de quem estava lendo em voz alta. Quando o leitor era
inexpressivo, monocórdio, sem variação, tropeçando nas palavras com uma
enunciação desleixada, aí diminuía o interesse e a comida provocava indigestão.
Mas havia leitores que se tornavam coautores entusiasmados do texto que liam,
envolviam os ouvintes com seu timbre bem ajustado, pausa na hora certa, ritmo
de leitura cadenciado. Era o caso do Danilo Xereca. Ele só teve um pequeno
vacilo, mas que lhe foi fatal.
O ex-Guabiru
O Danilo era alto,
magricela, tinha pescoço curto e fino, o que lhe valeu o apelido de Guabiru,
com o qual entrou no seminário, mas quando saiu anos depois, já estava
carimbado com o codinome de Xereca, adquirido numa de suas empolgadas leituras
das aventuras de Tom Sawyer. O curioso é que no dia a dia, era tímido, meio
gago, mas se agigantava ao ler no refeitório. Sem qualquer afetação, criava
vozes diversas para cada personagem, grossa ou fina, chorosa ou alegre,
perplexa ou indiferente, de acordo com a situação. Enfim, um extraordinário
leitor-ator.
Depois de ouvi-lo, aí
sim queríamos ler o livro silenciosamente e, nesse sentido, nos fizemos
leitores através da voz do Xereca e de outros igualmente competentes e
performáticos, que dominavam o sentido da leitura através da voz impostada, da
entonação, da dicção e da pronúncia, da dramatização, enfim da interpretação
convincente. A leitura em voz alta era uma oportunidade de compartilhar
coletivamente emoções e sentidos.
As Aventuras de Tom
Sawyer se prolongaram por inúmeros almoços ao longo de muitas semanas.
Saboreávamos diariamente cada capítulo, esperando ansiosamente a vez do Danilo
Xereca, que com sua voz modulada retornava uma vez na semana para imortalizar a
obra de Mark Twain. No recreio, discutíamos apaixonadamente quem matou o dr.
Robinson: o índio Joe ou o bêbado Muff Potter flagrado com a faca na mão? E
isso algumas décadas antes da novela Vale Tudo que mobilizou o Brasil inteiro
para identificar a assassina de Odete Roitman.
Tom Sawyer desenhado
por Mark Twain e colorido pela voz de Danilo Xereca era um moleque, órfão, que
morava com sua tia Polly num povoadozinho sulista às margens do rio Mississipi,
no séc. XIX, na época cruel da escravidão. Seu grande sonho era se tornar
pirata, mas tudo mudou no dia em que testemunhou um assassinato no cemitério.
Xereca: a viúva
Embora cada
seminarista, como futuro padre, estivesse fadado ao celibato, todos nós nos
apaixonamos pela namoradinha do Tom, a sedutora Becky Thatcher, filha do juiz
da comarca, que desfilava com suas tranças louras e seus olhos azuis. Na nossa
imaginação a Bequinha era uma caboquinha linda daquelas de pé roxo. Quando a
mocinha entrava em cena, Danilo Xereca, ofegante, caprichava na leitura, com
enfeitiçados suspiros capazes de
nocautear o mais renitente celibatário. Até mesmo o controvertido Ives
Gandra Filho, da Opus Dei, para obrigar a bela Becky a obedecê-lo, seria capaz
de desistir da vaga do Teori Zavaski no Supremo Tribunal Federal (STF), vaga
que implora ajoelhado ou de cócoras.
Não lembro mais se foi
antes de Tom Sawyer se perder numa gruta com a fulgurante Becky, ou se foi
depois das férias escolares quando ficou acamado com sarampo. Sei que entra na
história um personagem absolutamente secundário, a viúva do juiz Douglas, mãe
de Becky, justamente num dos capítulos lidos por Danilo, que a essas alturas
ainda não era Xereca. Foi o episódio vivido pela viúva do juiz que lhe pespegou
o apelido.
A palavra viúva, que
aparece seis vezes no texto, foi lida por Danilo em voz alta, já no final do
almoço, eletrizando a todos nós. Acontece que com a empolgação, pretendendo
realçar o papel da protagonista, em vez de pronunciar "viúva", com
todas as letras do Ivo quando viu a uva, ele falou seis vezes
"vulva", em alto e bom som. Usou todos os recursos vocais para trazer
a "vulva" para cá, levar a "vulva" para lá, era
"vulva" aqui e "vulva" ali. Não deu outra. Perdeu ali mesmo
o apelido de Guabiru, passando a ser conhecido, a partir de então, com a
honrosa alcunha de Danilo Xereca, com o qual ficou célebre.
Tudo bem, em tempos de
Trump, Temer, Gilmar Mendes, Ives Gandra Pai e Filho, Eike Batista e Sérgio
Cabral posso ser cobrado por contar aqui abobrinhas. Acontece que passei a
semana sem ler jornal, nem ver televisão, ministrando curso em Aracruz (ES)
para os Tupinikin e os Guarani, que me salvaram, poupando-me desses dissabores.
Deixo-vos aqui, portanto, com o Danilo que talvez agora nem seja mais Xereca.
Aliás, em algum lugar,
um jornalista escreveu sobre a pobreza vocabular do Trump, suas limitações
discursivas, que podem ser extensivas ao Michel Fora e a toda sua corriola.
Desconfio que esses caras nunca tiveram acesso à literatura de grande porte.
Saudades dos livros de Mark Twain.
P.S. - A disciplina
Línguas Indígenas, que compartilhei com a profa. Ana Suely Cabral, faz parte do
Curso de Licenciatura Intercultural Indígena da Universidade Federal do
Espírito Santos (UFES), criado em 2010 dentro do Programa de Formação Superior
e Licenciaturas Indígenas (PROLIND), vinculado à Secretaria de Educação
Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI), ligada ao
Ministério da Educação (MEC). São 73 alunos, a maioria esmagadora formada por
mulheres muito inteligentes, que tornam ainda mais agradável o trabalho do
professor. Foi a literatura oral indígena que me trouxe a lembrança da leitura
coletiva em voz alta, aproveitando os intervalos do curso para escrever essas
mal traçadas linhas. Na disciplina trabalhei, entre outros, com textos dos
linguistas Wilmar D´Angelis e Márcio Silva e da antropóloga Maria Inês Ladeira.
O curso é coordenado com entusiasmo pela antropóloga Celeste Ciccarone.
*
Jornalista, professor e historiador.
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