Civilização da solidão
Os
tempos atuais são caracterizados, entre outras tantas coisas, por uma profunda
solidão, que se abate sobre grandes contingentes de pessoas, gerando
infelicidade, carências afetivas, neuroses, depressão e outros males psíquicos
e físicos.
“Mas como?!”, perguntará, admirado, o
atento leitor, como que duvidando da sanidade do cronista. “Afinal, já somos
mais de 7,6 bilhões de tripulantes na espaçonave Terra e, atualmente, nascem
mais de três bebês por segundo em todo o mundo”, dirá, com convicção, o mais
bem-informado, como se apresentasse um argumento decisivo, que pusesse fim à
conversa.
De fato, é o que ocorre. “Ademais”,
acrescentará, “os meios de comunicação são cada vez mais sofisticados,
aproximando pessoas de todos os continentes; como os jornais e revistas que se
multiplicam pelo mundo afora; os computadores, cada vez mais rápidos, simples e
popularizados; o rádio e a televisão, onipresentes em nosso dia-a-dia; e o
celular, que permite a qualquer um falar diretamente com milhões de
interlocutores, estejam onde estiverem”.
Isto, é fato, não há como negar. Desde
que acordamos, até o momento de nos recolhermos de novo, para dormir, mantemos
contatos diretos e/ou indiretos com dezenas, centenas e, não raro, com milhares
de pessoas em nosso convívio, quer familiar, quer profissional, quer social.
Ainda assim...sem que na maioria das vezes venhamos a nos dar conta, estamos,
de fato, real e irremediavelmente sós.
Tanto que o escritor francês André
Malraux (1901-1976), especializado em assuntos políticos, de comportamento e de
cultura (em 1959 assumiu o então recém-criado Ministério das Questões Culturais
no governo do general Charles De Gaulle), assegurou, do alto da sua experiência
e conhecimento, que de fato integramos “a civilização da solidão”.
As comunicações que mantemos em nosso
cotidiano raramente são pessoais, íntimas e intensas. Caracterizam-se, em
geral, pelo formalismo, pela impessoalidade, pela frieza e pela formalidade.
Parecem atos, gestos e palavras ensaiados, como se estivéssemos representando
uma peça teatral num palco. E, de fato, estamos, mesmo que não saibamos ou não
admitamos.
Raros se preocupam, de verdade, com o
que o interlocutor é, com o que pensa e, principalmente, com o que sente. E a
recíproca é verdadeira. Poucas vezes temos a oportunidade (e a confiança
suficiente), para abrirmos, de fato, nossos corações a alguém, até mesmo aos
cônjuges ou aos pais, para expressarmos, sem pudor, sem freios e nem
restrições, nossas angústias, carências, temores, fraquezas e idéias. Em geral
mostramos o que não somos e o que não pensamos, por medo de críticas e
recriminações. Felizes os que encontram um ouvido generoso ou um ombro amigo e
acolhedor para as suas confidências
Não raro, vivemos anos sob o mesmo teto
com um punhado de pessoas sem que nos conheçamos, de fato, naquilo que
realmente importa. Por isso, embora residindo em superpovoadas concentrações
urbanas, algumas com populações equivalentes à de países (São Paulo, por
exemplo, tem uma vez e meia o número de habitantes de Portugal), apesar de
termos nosso espaço vital cada vez mais restrito e encolhido e da privacidade
ter se tornado, literalmente, uma impossibilidade, somos, ou pelo menos nos
sentimos, cada vez mais sós. Irremediavelmente sós!
Ademais, sem que sequer nos
apercebamos, nos vemos coagidos a abrir mão da nossa individualidade, dos
nossos gostos, do nosso jeito de ser, induzidos, sutilmente (pelo que se
convencionou chamar de “educação”), quando não coagidos, à massificação. Concordemos
ou não, temos que nos enquadrar em determinado sistema, ideológico, político,
econômico, religioso e/ou social. Somos forçados a aderir ao que se
convencionou chamar de “moda”, que nos impõe o que e como se vestir, que tipo
de alimento consumir, que espécie de lazer praticar e, até mesmo, como amar uma
pessoa.
Experimente, por exemplo, caro leitor,
sair à rua trajando fraque, cartola e usando um pince-nez. A primeira
interpretação de quem o vir com esses trajes será a de que você está vestido para
um baile de fantasias, principalmente se for tempo de Carnaval, ou para
participar, como ator, de alguma peça de teatro. Mesmo que você aprecie esse
traje, portanto, jamais o usará no dia-a-dia, a menos que não se importe de se
expor ao ridículo.
Esta civilização, como assinalou
Malraux, separa inflexivelmente, de todas as anteriores, “a posse dos gestos
humanos”. Massa. Temos que nos enquadrar na massa, mesmo que não concordemos
com o que nos for imposto. Ou nos enquadramos, ou nos tornamos marginais, discriminados
e, quem sabe, confinados num manicômio, como loucos perigosos.
Eminentes filósofos, como Aristóteles e
Santo Tomás de Aquino, afirmaram que o homem jamais está, de fato, só e que
nunca deve ficar, já que é um animal basicamente social, sobretudo político. A
solidão, todavia, pode ter dupla interpretação. Do ponto de vista físico, num
mundo com mais de 7,6 bilhões de habitantes, não há, de fato, como estar
sozinho. Todavia, espiritualmente... Se levarmos em conta nossas diferenças de
gostos, de sentimentos e de emoções, o processo genuíno de comunicação, salvo
exceções, torna-se quase que mera abstração. Não somos entendidos e, em
contrapartida, não entendemos os que nos cercam. E nos sentimos
irremediavelmente sós...
Boa leitura!
O Editor.
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Os motivos da solidão são o medo e a insegurança obrigatórios nos dias que correm. Confiar é um risco.
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