Força de
caráter
* Por Pedro J. Bondaczuk
Os educadores, constantemente, falam sobre caráter e da
necessidade de formar no educando um que seja sólido e a salvo de qualquer
abalo. Quando uma pessoa age contra princípios legais e em especial morais
diz-se que ela não possui essa característica, essa estrutura, esse conjunto de
virtudes que, se possuísse, seria modelo de comportamento a ser seguido. Alguns
entendem que se nasce com essa excelência que a educação apenas consolidaria.
Outros acham que não. Afirmam que o caráter precisa ser moldado com ensino e
sobretudo treinamento. Como o homem é complexo e assustador! Um bebê, quando
cresce, pode se transformar em um santo ou em um demônio. Em um São Francisco
de Assis ou em um Adolf Hitler. É impossível prever como será quando adulto.
Caráter, em última análise, significa identidade,
personalidade, distinção. No sentido que os educadores usam tem o significado
de parâmetro de virtude, de modelo, de referencial. A esse propósito, James B.
Stenson, professor da Universidade Georgetown de Washington observa:
"Todos nós reconhecemos uma pessoa de caráter quando a encontramos. É o
caráter que nos faz respeitá-la e admirá-la. Ao contrário do que muitos pais
imaginam, porém, as virtudes que estruturam o caráter não se desenvolvem na
vida dos filhos sem ajuda externa e por si sós. São necessários muitos anos de
ensino consciente e de treinamento pratico para construir um caráter".
Discordo do mestre. Não nego o papel da educação no
desenvolvimento desse conjunto de virtudes. O que contesto é sua exclusividade
no processo formativo. Fosse como Stenson diz, hoje em dia teríamos
pouquíssimas pessoas, (quase nenhuma) dotadas de caráter. Poucos pais foram
instruídos nesse sentido quando jovens. E ninguém ensina aos outros o que não
sabe. Só se dá aquilo que se possui. No entanto, seus filhos revelam-se, muitas
vezes, detentores de excelentes virtudes. Alguns indivíduos que vêm de lares
destruídos, que sequer merecem esse nome, ou que são gerados literalmente ao
acaso, acidentalmente, sem nenhum amor e acabam rejeitados desde tenra idade,
mostram ter um sólido caráter, embora se constituam em minoria.
Claro que os pais têm responsabilidade nessa formação. Mas
os efeitos dos seus ensinamentos são limitados. Os adolescentes são mais
sensíveis ao que aprendem na rua, na escola, na igreja etc., do que em sua
casa. Acabamos sendo influenciados, às vezes decisivamente, pelo meio em que
vivemos. Reagimos (para o bem e para o mal) muito em função das circunstâncias,
do momento, das oportunidades. O que o indivíduo precisa é das informações
básicas que o conduzam ao autoconhecimento. Somente se conhecendo estará
capacitado a fazer a escolha do que entender ser o melhor para ele. Se errar,
paciência. Será um fracassado e infeliz. Precisará ter um objetivo na vida, que
lhe direcione as ações.
Concordo, no entanto, com Stenson quando aponta profundas
falhas na educação ministrada na maioria dos lares. Destaca o professor:
"Hoje, os pais pensam na carreira profissional dos filhos e nos meios
educativos mais adequados para atingirem esse objetivo. Refletem pouco sobre as
virtudes que os seus filhos devem possuir: o autodomínio, a força de vontade, a
confiança em si próprios, as convicções religiosas, a obrigação de serem castos
etc. Refletem pouco sobre como esses traços afetarão a estabilidade e a
felicidade da futura vida conjugal dos seus filhos".
Aliás, nunca a instituição da família esteve mais ameaçada
do que agora. O Papa a todo o instante tem se manifestado a este respeito. As
pessoas perderam o senso de perspectiva. Valorizam o banal, o físico, o
transitório, a satisfação dos sentidos em detrimento do importante, da razão,
do permanente, da evolução espiritual. Daí serem tão infelizes, tão solitárias,
tão carentes, tão violentas, tão perdidas e tão sem referencial de vida. Os
objetivos que colocam à sua frente são vazios e imediatistas. Consistem, em
geral, no acúmulo de bens (na verdade bugigangas descartáveis), na busca pelo
poder (que nada pode, pois não livra ninguém da morte e, pelo contrário, a
apressa) e na satisfação dos instintos, que após saciados deixam como
subprodutos o vazio e a depressão. Daí a necessidade de valorização dos que têm
caráter. E, principalmente, da imitação desses preciosos referenciais.
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
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