terça-feira, 15 de setembro de 2015

Querido pai


* Por Eduardo Oliveira Freire


A mãe me deu a carta. Como sempre, com críticas construtivas em relação aos meus escritos. Todos acham estranho por não me visitar na prisão. Entendo e sei que nunca me perdoará. Ultimamente recordo-me dos tempos de criança, em que me mostrava jornais caseiros e panfletos com seus poemas ou contos. Depois os guardava no baú velho, que ficava no quarto da bagunça.

Lembra pai que em 1996 falei que tinha feito, junto com Drica e Bernardo, um site de literatura? Você não gostou muito da idéia, sempre achou que o computador aniquila a aura da criação. Pai, estávamos tão animados em publicar nossos textos na rede e pro mundo inteiro! Conhecíamos várias pessoas interessantes e idealistas. Independente da tecnologia, éramos os mesmos de sua geração. Como sinto saudades daquele tempo, dos debates que organizávamos na faculdade e nos bares! Horas e horas de discussões que muitas vezes se transformavam em barracos históricos, os quais ainda muitos comentam. Como me arrependo do que fiz...

Tenho até dificuldade de pensar e de escrever, mas preciso desabafar. Namorava Drica há dois anos e Bernardo sempre vivia conosco. Nós três éramos unha e carne. Escrevíamos juntos, fazíamos grupos de estudos de um determinado autor e sempre estávamos na ativa para chamar alguém interessante para os debates da faculdade.

Apesar das diferenças e discussões, vivíamos bem. Engraçado, como num instante tudo pode mudar! O que achávamos consistente, se desmanchou perante nossos olhos. Tinha ficado até tarde na biblioteca e quando cheguei na quitinete, em que morava com Drica, a vi de quatro na cama com Bernardo. Gemiam alto e pareciam vira-latas que ficavam no Campus, cruzando na frente de todos sem pudor.

Primeiro, fiquei sem ação. Depois, um ódio descomunal tomou conta de mim. Peguei uma faca na cozinha e matei os dois rapidamente. Não sei como consegui fazer isso. Sou uma pessoa sedentária e sem forças nos braços. De repente, me tornei Hércules e exterminei as feras.

Agora, tenho claro o porquê de ter matado os dois. Não foi por ciúmes da Drica, mas por terem me excluído. Por que não me chamaram? A gente poderia ter curtido e serviria até de inspiração para escrevermos.  Sei que é errado pensar assim. Eles não tinham que me incluir. Será que se falassem a verdade, esta tragédia aconteceria? Pai, seguirei o seu conselho: não vou especular sobre o “sí”. Aconteceu e devo pagar por meu crime.

Uma jornalista me procurou. Quer fazer uma antologia dos meus contos. Não sei se aceito. As pessoas comprarão não pela qualidade literária, mas porque os contos foram escritos por um assassino que matou a namorada e o melhor amigo. Quero ser reconhecido pelo meu talento e não pela fama.
Um abraço, Pai,
P. A.

***

O pai, depois de ler a carta do filho, fala com a mulher:
– Querida, quando for visitar P.A., pergunta se posso publicar esta carta no meu blog, para mostrar como o meu filho escreve bem.

* Eduardo Oliveira Freire é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, está cursando Pós Graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá e é aspirante a escritor

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