Paz e amor
* Por
Urda Alice Klueger
(Para
Eduardo Venera dos Santos Filho e para todas as centenas de milhares das
vítimas da Colômbia, fora os desplazados)
Assinaram a paz da
Colômbia ontem, meu amor! Como um sonho, como um presente inesperado do
destino, de repente ligo a televisão e, de branco, usando guayaberas, todos
estavam reunidos para assinar a paz, bem quando teu pequeno retrato de quando
tinhas 25 anos me olhava candidamente, um retrato quase desconhecido, de um
rapaz usando brilhantina, assim como não te conheci. Quando apareceste em minha
vida a brilhantina já se fora e teus leves cabelos de luz se sacudiam e voavam
ao vento de forma tão arrebatadora que ainda me sinto voando neles! Não
sabíamos, naquela altura, que havia uma Colômbia em guerra – tão pouco sabíamos
da vida além do amor!
Então ontem assinaram
a paz da Colômbia, lá em Havana, bem naquele lugar onde eu estivera faz três
semanas, junto aos irmãos que apostaram tudo, inclusive a vida, para que
houvesse paz um dia. E eu perguntava a um dos companheiros sobre o que ele
achava, e ele me dizia que os Estados Unidos precisavam acabar com a guerra de
forma barata, pois já havia apostado todos os milhões de dólares possíveis no
assassino Uribe, que se limitou a assassinar indiscriminadamente na tentativa
de pôr fim à guerra, sem obter nenhum resultado. Insistia com o companheiro:
“Mas há na História algum caso semelhante, em que o perdão imperou para se
terminar uma guerra assim?” – e o companheiro me falava da Guerra Civil
Espanhola e não me convencia, pois tanto quanto conheço, ninguém perdoou
ninguém, ainda, na Guerra Civil Espanhola.
Mas ontem, assinaram a
paz, e eu estava tomada de tal alegria, de tal euforia por aquele país onde,
quando se estuda sua História, fica-se pasmo que ainda tenha sobrado alguém
vivo, aquela Colômbia que sangrou abundantemente e absurdamente nos últimos 66
anos, que tinha que dividir aquela alegria com alguém! Quis o destino que a
primeira pessoa com quem pude repartir minha alegria fosse uma das pequenas
libélulas lá do Passado, coisas que não se explicam.
E depois que terminou
a cerimônia eu fiquei olhando para aquele teu retrato com brilhantina e
pensando num dia em que chegaste até mim com os braços abertos de alegria
anunciando a tão esperada nova:
- Acabou a guerra do
Vietnã! – e me prendeste no refúgio junto ao teu peito, onde eu nada temia. Nas
semanas e meses seguintes soubemos que a guerra do Vietnã ainda não havia
terminado de verdade.
Então fiquei pensando
naqueles tempos de 1973 e nos seis meses para ajustes que foram acordados ontem
na assinatura da paz na Colômbia.
Céus, é muita coisa
para acabar de verdade com uma assinatura lá na paradisíaca Havana. Como, agora,
desmobilizar os paramilitares, só para começar? Eles estão armados, e muito bem
armados – o que vai acontecer ainda até que a sofrida gente da Colômbia possa
ter a sua paz?
Quiçá tudo corra como
se sonha!!!
Blumenau, 24 de
Setembro de 2014.
* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e
doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de mais três dezenas de livros, entre
os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12
edições).
Acordos de paz que se concretizam são um alento para todos. Parece que estamos distantes, mas estamos dentro dele.
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