O silêncio não existe
“O silêncio não existe. Viver é mantermo-nos no centro de um
fluxo que só a morte interromperá”. Essa afirmação é de um dos romancistas mais
profundos do século XX, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1952
justamente pela espiritualidade com que impregnou seus personagens. Refiro-me
ao francês François Mauriac, autor de romances como “O beijo no leproso”, “O
deserto do amor” e “O ninho de víboras”, entre outras obras-primas. Li, certa
ocasião (não me recordo onde) que o som não se perde jamais, que é
indestrutível. Que se fosse possível retornar, por exemplo, ao ponto do espaço
que a Terra ocupava ontem, ali encontraríamos toda a barulheira produzida no
Planeta na véspera, posto que em forma de ondas. Provavelmente, não ouviríamos
essa algaravia toda, já que a capacidade auditiva humana é limitadíssima (como
ademais todos os outros nossos sentidos). Há ultrassons que os cães e outros
animais captam com naturalidade e que sequer desconfiamos que estejam sendo
emitidos.
Se essa informação (inútil, como tanta coisa que lemos) é
verdadeira ou não, não posso garantir. Presumo que tenha certo fundo de
verdade, sei lá! O fato é que o silêncio absoluto, completo, total não existe.
E não somente onde haja vida – que se manifesta sempre de forma se não
barulhenta, pelo menos ruidosa – mas até onde esta seja rigorosamente inviável.
Imaginem o barulhão que a explosão de
uma estrela produz!. E nem precisa ser uma gigantona, milhares de vezes maior
do que o nosso sol – por exemplo, a VY Canis Majoris, o maior desses astros
conhecidos – cujas simples ondas de choque possivelmente seriam tão poderosas a
ponto de destruírem tudo o que encontrassem pelo caminho. Felizmente, essa
mega-estrela situa-se a 5.500 anos-luz de nós. Ou seja, a luz que ela emitiu há
5.500 anos, quando nem as pirâmides egípcias haviam, ainda, sido erguidas, está
chegando hoje ao nosso minúsculo planetazinha azul. Ainda assim... Sei lá!
O certo é que, por mais que você pense, não conseguirá provar
que Mauriac estava errado. O silêncio, aquele absoluto e total, por mais que
sua inexistência pareça absurda, de fato não existe. Mesmo as pessoas com
surdez total, ao que se sabe, ouvem certos chiados, embora não ouçam o que se
fale ou se faça ao seu redor. Estou consciente que estas considerações, mesmo
que curiosas (presumo que sejam), são absolutamente inúteis. Que seja! Mas
podem, caso você queira, servir para alguma coisa: para reflexão. Tudo no mundo
é relativo. Confesso que detesto o silêncio (esse mesmo que Mauriac jurava que
não existe). Não o absoluto, portanto, mas esse que entendemos como tal, no
qual sempre há algum ruído: de algum grilo, de alguma rã, de um latido distante
de cães, do cantar dos galos, do ronco abafado de motores de carros
etc.etc.etc.
Não que eu seja adepto de contínua e irritante barulheira
(como de uma britadeira, ou de um bate-estacas, ou a gritaria que muitos chamam
de música, coisas assim). Não é isso. Gosto das coisas com moderação. E entre
estas, incluem-se os “barulhos”, no caso cicios, cochichos, marulhos, suspiros,
gemidos e vai por aí afora. Ou seja, ruídos, posto que discretos, quase
inaudíveis. Mesmo para dormir. Mesmo para escrever. Aliás, nesse aspecto fui
treinado, adestrado, condicionado a produzir textos só com absoluta ausência de
silêncio. O que, leitor, você duvida? Pois não deveria”.
Os melhores artigos, crônicas e reportagens que já redigi
foram escritos numa redação em que o barulho chegava a ser concreto, de tão
intenso. Imaginem um salão com quase cem pessoas trabalhando simultaneamente.
Mas não em computadores, dos quais sequer se cogitava naqueles tempos
românticos. Eram quase cem barulhentas máquinas de escrever usadas
simultaneamente, ou quase. Imaginaram? Se fosse só isso... seria suave. A esse
matraquear, porém, junte dezenas de repórteres “gritando” ao telefone, numa
época em que esses preciosos aparelhinhos, hoje tão práticos eram rústicos e
arcaicos. Mas não era só. Acrescente, a essa intensa algaravia de endoidar os
mais fracos, nervosos editores tentando se comunicar com atarefados “caçadores
de notícias”. Logicamente que essas tentativas se davam aos berros (não havia
outro jeito), para se fazerem minimamente ouvidos. Creio que os jornalistas do
meu tempo eram masoquistas e nem desconfiavam. Gostávamos daquela agitação,
daquele barulho que fazia a redação vibrar como num terremoto. Eu, pelo menos,
gostava.
Hoje, conto com um gabinete de trabalho que tem tudo para
ser o mais silencioso possível. Poderia, sem nenhum exagero, servir de estúdio
para alguma gravadora. Até revestimento acústico tem. Mas... quem disse que
consigo escrever um só e reles parágrafo, razoavelmente coerente, neste imenso
e assustador silêncio? Não consigo! Para redigir meus textos, sou forçado a
colocar música no ambiente. É verdade que não se trata de nenhum “rock pauleira”,
desses hiper barulhentos, de estourar os tímpanos, tão ao gosto da meninada.
Mas só não escolho esse tipo de música não pelo barulho que faz, mas por não
apreciar (para o espanto dos que me conhecem) esse ritmo. Escrevo ouvindo os clássicos,
ou grupos de jazz, ou MPB dos tempos da Bossa Nova, dependendo do meu humor no
dia. Escrever em silêncio?! Nem pensar! Não sai nada. É como se invencível
letargia tomasse conta do meu cérebro. É como se, subitamente, me sentisse “analfabeto”
e não conseguisse identificar e juntar letras para formar palavras e utilizar
estas para compor idéias. É como se me sentisse morto, com tanta vida vibrando
não só ao meu redor, mas principalmente em mim.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
O som não se propaga no vácuo, então o silêncio absoluto existe.
ResponderExcluir