O sonho II
*
Por José Calvino
Luiz Carlos ao
regressar do trem da tarde, durante o percurso de Recife à sua cidade natal,
sentado num dos bancos de encosto-móvel-de-vime, observava pela janela o velho
gasômetro, o parque do Exército e a favela do Coque. A “Maria Fumaça” arrotava
faíscas de sua fornalha, caindo nos olhos dos que se atrevessem a por a cabeça
do lado de fora, geralmente as crianças. A loco apitava sucessivamente ao
passar antes dos cruzamentos de automóveis, soltando fumaça em desenhos,
através de sua chaminé, deixando pela linha afora um cheiro saudoso do
carvão-de-pedra. Desfilavam os postes com os seus fios telegráficos e as placas
em vermelho, com letras brancas, advertindo: P.N. APITE PARE OLHE-ESCUTE.
O trem já passava da
estação de Lacerda. Luiz dormia. Inicialmente, sonhou sendo preso como
comunista, por ter participado de um comício de Prestes, conhecido como “O
Cavaleiro da Esperança”. Este sonho era como um aviso profético, que
futuramente haveria de se realizar. O local esquisito era como o “Buque” da
Chefatura de Polícia. Ora parecia com um quartel da Meganha, onde fora
humilhado, colocado na solitária. Aquele sonho parecia real! No isolamento via
elementos, da própria polícia, presos sendo maltratados e marginalizados pelos
próprios companheiros. Ouvia dizerem aos policiais-presos:
- Vão ser excluídos e
entregues à Polícia Civil, transferidos para a Casa de Detenção junto com esse
civil safado!
A promiscuidade com os
presos de diferentes classes era ridícula. À proporção em que sonhava já se
sentia na Casa de Detenção do Recife com seu companheiro José, taxado como pivô
das greves e passeatas dos ferroviários, preso como comunista por contrariar as
leis...
- Isto é uma loucura,
eles só sabem fazer leis e não dão os nossos direitos. Me matem!
- Luiz Carlos
ultimamente chegava em casa sempre embriagado. Já trêmulo, vocês não viram? Não
tinha mais forças. Sua morte caminhava lenta. E o futuro carnaval que pensava
brincar à sua maneira, foi a do “suicídio lento”, sufocando-se na bebida e no
fumo! A meu ver as bebidas alcoólicas deveriam ser com prescrição médica como
são com os medicamentos que um paciente ou animal deve tomar assistido e orientado por psicólogos(as) e
psiquiatras, com uma rigorosa fiscalização da prescrição. – disse Jane advogada dos ferroviários.
Finalizando esta
crônica, até porque como escritor é meu
dever transmitir aos leitores (principalmente aos jovens) as minhas
experiências, apresento o poema que está sendo bem comentado, sobre esta triste
realidade:
O que eu quero lhe
informar
Sai de casa para beber
e fumar.
É melhor sempre olhar
pro mar,
Também é bom amar,
Fazer o bem e chamar
E à risca do povo
aclamar
Que ao de tudo de bom
provar
Algumas coisas só
fazem é prejudicar.
Eu quero apenas lhes
informar:
A bebida faz
embebedar,
O fumo faz poluir o ar
E ambos só fazem
drogar
Ou morrer mais
depressa, continuar...
Nota – Alguns trechos
extraídos do teatro “Trem da Vida” e do livro “O ferroviário” – Cap. IV, pp.
39-43. Ed. 1980.
*Escritor, poeta e
teatrólogo. Blog Fiteiro Cultural – http://josecalvino.blogspot.com/
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