Livro que eu gostaria de ter escrito
“Número zero”, no jargão jornalístico, é aquela edição de
teste de um novo jornal, antes do seu efetivo lançamento. Em boa parte dos
casos, sua circulação é limitada ao âmbito da própria empresa responsável pela
publicação. Às vezes, esses exemplares são encaminhados às agências de
publicidade e a vários anunciantes potenciais para facilitar a venda de espaços
publicitários. Nele são testados o visual, com a devida diagramação e as várias
vinhetas, a linha editorial, a linguagem a ser adotada e, enfim, tudo o mais que
se pretende que seja o estilo do nascente órgão de imprensa.
O “número zero” tende a ser uma edição caprichada, por todos
os motivos que se possa imaginar, e tem tudo para de fato ser, até pelo tempo (que
não se restringe a nenhum rígido e implacável deadline) para ser editado e impresso.
Possíveis erros são cuidadosamente observados, para não ocorrerem quando o
jornal estiver efetivamente circulando. Métodos de redação, revisão e edição
são testados e aperfeiçoados e estabelecidos como normas. Enfim, esse número
zero irá determinar a cara e a “personalidade” da publicação que está nascendo.
Meus tantos amigos jornalistas, que algum dia embarcaram nessa
aventura – nem sempre bem sucedida (diria que, na maioria, fracassada) – de
criar algum órgão de imprensa, não importa se jornal ou revista e nem sua
periodicidade, sabem a que estou me referindo. Já participei desse tipo de
projeto, embora sem nunca liderá-lo e muito menos bancá-lo, integrando equipes.
A maioria teve curtíssima duração. Um ou outro sobreviveu e existe até hoje. Bem,
“número zero” é isso. E por que estou trazendo esses detalhes à baila? Porque
esse é o título, e o tema, do novo romance do filósofo e semiólogo italiano
Umberto Eco, lançado no Brasil pela Editora Record.
Adianto que é um livro que eu gostaria de ter escrito, mas
que nunca tive coragem. Tremi na base somente ao pensar nos problemas que
enfrentaria se me dispusesse a revelar tudo o que sei a respeito do, digamos, “mau
jornalismo”. Há cada podre de fazer corar estátuas de pedra! Seu conjunto parece
até delírio de uma mente doentia quando relatado. Todavia... é tudo real.
Mas... cadê coragem para enfrentar pessoas poderosíssimas, com doutorado em
todo o tipo de corrupção e sacanagem, capazes de me destruir com um mero olhar
ameaçador, como se de seus olhos brotassem chispas de mortais raios laser? Não
só eu, mas muitos outros amigos jornalistas já me confidenciaram que gostariam
de escrever um livro nessa linha. Mas... como eu, não ousam nem pensar duas
vezes nisso. É um assunto tabu. Não, todavia, para Umberto Eco (aproveito para
observar que em textos anteriores, grafei o nome desse autor com “H” no início,
mas o correto é sem essa letra. Força do hábito).
O “Número Zero”, do romance em questão, é a edição teste do
novo jornal, chamado de “Amanhã”, projetado para circular em Milão, no norte da
Itália. Todavia, destinava-se a fazer não um jornalismo legítimo, o ideal e
limpo, mas estava sendo criado para desinformar, difamar adversários, chantagear,
elaborar dossiês e documentos secretos e, sobretudo, manipular autoridades e
leitores. Existem jornais assim? Infelizmente, sim!!! E muitos!! Tanto que Eco se inspirou em
personagem real da vida italiana para criar o protagonista central. Caricaturou
Carmine Pecorelli, que editava um boletim de notícias que era enviado a um
público seleto de poderosos, acenando com a divulgação de notícias
constrangedoras caso não se submetessem às suas chantagens. Nesse caso, esse
cidadão teve fim trágico (posto que previsível): foi assassinado.
A história se passa no ano de 1992. Umberto Eco explicou por
que: "Elegi 1992 para situar o livro porque nesse momento houve esperança,
nasceu a operação 'Mãos Limpas' e parecia que tudo mudaria, havia a luta contra
a corrupção, mas chegou Berlusconi e as coisas aconteceram exatamente ao
contrário". Toda a trama começa quando um jornalista fracassado, Colonna,
é contratado por Simei para ser editor-chefe de um jornal que não existe (e que
nunca existirá). Os demais integrantes da equipe são levados a crer que estão
se preparando para o lançamento do “Amanhã”. Estabelecem estratégias
jornalísticas, criam as seções e até definem pautas. Todavia, a verdadeira
missão de Colonna não é comandar um jornal. É escrever um livro sobre essa
experiência. A tal redação, onde está sendo preparado o “número zero”, é um
retrato escrachado do mau jornalismo: o venal, mentiroso e canalha (que,
infelizmente, existe, e em vários lugares do mundo).
Nas reuniões da equipe vêm à tona coisas como “criar uma
notícia, conduzir (e induzir) os leitores, manipular a opinião pública
escolhendo só versões convenientes e ocultando as demais” e vai por aí afora. Não
lhe parece, caríssimo leitor, algo sumamente familiar? Deixo a pergunta no ar.
Óbvio que não farei, que sequer insinuarei, a sinopse do romance. Quem quiser
conhecer o enredo, que compre o livro. Limito-me a registrar a impressão que “Número
Zero”, de Umberto Eco, me causou.
A mim ficou claro que a intenção do autor não foi somente a
de criticar, com fina ironia e ate de forma um tanto cínica e exagerada, a
imprensa sensacionalista e canalha. Critica, também, o Estado ladrão e
incompetente que, de uma maneira ou outra, propicia a existência e a
prosperidade desses arremedos de jornais. E condena nas entrelinhas, sobretudo,
a indigência mental e moral da sociedade, que mostra suposta indignação contra
a corrupção, de forma tão exagerada que denuncia se tratar de farsa, mas que é
corrupta até a medula (e sabe disso, embora negue enfurecida, assumindo postura
moralista mais falsa do que cédula de três reais).
Li, nos últimos dias, dezenas de críticas ao romance de
Umberto Eco, que vão de um extremo ao outro, tão díspares que nem parecem se
referir ao mesmo livro. Vão desde elogios rasgados tratando o romance como o
suprassumo da perfeição à mais acerba condenação, como se nada no livro
prestasse. Não me surpreendo com essa variedade. Aliás, gosto dela, de opiniões
tão heterogêneas e divergentes que, se às vezes me confundem, com um pouquinho
de concentração me permitem fazer a própria avaliação, com o máximo cuidado,
sem afoiteza e sem deixar escapar notórios méritos e possíveis deméritos. Só
posso dizer uma coisa, com plena convicção, sem margem sequer para
arrependimento: “Número Zero” é um livro que eu gostaria de ter escrito, caso
tivesse a coragem, o preparo e, claro, a competência de Umberto Eco. Mais não
direi...
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Um enredo conhecido (ou pelo menos suspeitado). Esse punhado de opiniões nos faz ter cautela para formar opinião, e isso, mal não faz.
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