Simplicidade e sabedoria
A simplicidade (salvo uma ou outra exceção) quase sempre está diretamente vinculada à sabedoria. O sábio entende o mundo, aceita as pessoas como são, conhece a vida com sua grandeza e limitações e sabe, portanto, o quanto somos efêmeros e transitórios. E, principalmente, o quanto o sucesso e o fracasso são fortuitos e enganadores, posto que passageiros. Tudo passa. Tudo... inclusive nós passamos. A sabedoria popular consagrou a expressão: “Não há bem que sempre dure e nem mal que nunca se acabe”. O néscio não entende essas coisas. É arrogante, prepotente e cabe-lhe, a caráter, a afirmação de que “tem um rei na barriga”. Pelo menos parece ter. Embora não afirme, porquanto não me considero onisciente e muito menos dono da verdade, desconfio que quem não cultive a simplicidade, a candura e a inocência, jamais poderá ostentar a condição de sábio. Pelo menos nunca conheci nenhum que não aliasse essas duas características.
Estas reflexões vêm a propósito de um jornalista e escritor que muito prezo e que seguirei considerando amigo enquanto viver, posto que ele tenha já “se encantado”, em 31 de janeiro de 2014, e prematuramente, aos 61 anos de idade. Afinal, como garantiu em certa ocasião o romancista Guimarães Rosa: “Um poeta nunca morre. Fica encantado”. E essa maiúscula figura, admirada e amada por todos, era, entre outras tantas coisas, íntimo (diria “intimíssimo”) das Musas. Era, “também”, inspirado poeta. Refiro-me a Eustáquio Gomes, conhecido na intimidade como “Tatá”, de quem tive o privilégio e a honra de ser não somente companheiro de trabalho na redação do Correio Popular de Campinas, mas, sobretudo, de privar de sua amizade. Tanto isso é verdade, que é dele o prefácio (e que prefácio!) do meu livro “Por uma nova utopia”, cujos direitos comerciais doei ao Centro de Defesa da Vida, entidade voltada à prevenção de suicídios. No referido texto, ele esbanjou simplicidade e generosidade, sem perder a objetividade, ao ver, em mim, méritos literários que nem sei se de fato tenho.
Proponho-me a escrever sobre Eustáquio Gomes – que foi, além de jornalista, escritor, mestre em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cronista semanal da revista “Metrópole” do Correio Popular, autor de quinze livros, entre os quais “Febre Amorosa” (romance, recentemente traduzido para o russo), “Cavalo Inundado” (poesia), “A mulher que virou canoa” (contos), “Os jogos de junho” (novela), “Hemmingway: sete encontros com o leão” (ensaio biográfico), “Jonas Blau” (romance) e “O mapa da Austrália” (romance) – nos próximos dias. Por hoje, limito-me a reproduzir o generoso prefácio que redigiu para meu livro “Por uma nova utopia”, que intitulou de “Um jornal das sensações”. Ei-lo:
“Pouco sei da
biografia pessoal de Pedro Bondaczuk, exceto que foi radialista e trabalhador
de indústria, que escreve contos e poemas, especializou-se num jornalismo
multímodo e tem uma grande biblioteca. Seu único livro até aqui publicado,
“Quadros de Natal”, circula por aí em edições sucessivas, sob o selo de um
colégio preparatório. E isso é tudo o que sei.
Mas
não é preciso muito para imaginá-lo por trás de sua escrivaninha de escriba,
consciente de um método que é só dele, seguro de uma lucidez que não se
entrega. Basta acompanhar sua produção através das páginas do “Correio
Popular”, caudalosa, variada e sempre informativa. Tem-se a impressão de que
dando-lhe espaço ele encheria um jornal inteiro, diariamente, com seu repertório
inesgotável. Balzac o colocaria num romance, Diderot gostaria de tê-lo a
serviço de sua Enciclopédia.
Assim
como pululam, em todas as épocas, os cronistas da negatividade, Pedro Bondaczuk
é positivo até mesmo quando critica. Não perde ocasião de rechaçar as frases
feitas dos céticos, recusa-se a acreditar na surrada lenda que diz que “os
tempos atuais” são os piores, nega-se a “fazer da angústia um estilo de vida”.
Mas tampouco pactua com os pares que, para edulcorar seu próprio cotidiano,
tratam de extrair “riqueza da miséria, nobreza da canalhice, ética da
imoralidade”.
Pode-se
dizer que, homogêneo na variedade de suas peças, este livro é bem o retrato de
seu autor, nele transparecendo sua concepção de vida, a clareza de suas idéias,
a profundidade de seus conhecimentos e a riqueza de suas esperanças. Seus temas
tanto podem ser a cidade que o acolheu e lhe deu um título de cidadania quanto
aos progressos da ciência, a poetisa que morreu prematuramente, os rumos do
País à porta do novo milênio ou os mistérios da realidade circundante “que, de
tão fantástica, chega a humilhar a ficção”.
Trata
de reis e crianças abandonadas, tanto cita Tolstoi quanto poetas de província.
Mas,
generoso, é severo com os grandes e indulgente com os pequenos. Claramente para
ele não contam o dinheiro, o prestígio ou o poder, mas sim “o ato de viver, de
apreciar esta maravilhosa aventura (da vida), que tem mais valor por ser
única”. Não por acaso há nele ressonância de Krishnamurti e Daisaku Ikeda, mas
é na frase de Roland Barthes – “Nenhum poder, algum saber, muito sabor” – que
acharemos talvez a melhor definição para a escolha filosófica de Bondaczuk,
cujo texto é sempre um incitamento ao exercício de viver, às possibilidades da
existência.
Creio
que a certa altura o autor se coloca a questão que para ele deve ser crucial:
escritor-jornalista ou jornalista-escritor? Parece-me que a questão se resolve
naturalmente na medida em que todo o texto jornalístico de Bondaczuk se inclina
para a literatura e, como tal, apresenta características de durabilidade que o
jornalismo puro não tem. Não por acaso ele passeia da poesia à ética, da
biologia à história, da sociologia ao romance. Ninguém é capaz de fazê-lo sem
contar com um senso de orientação apurado e sem o domínio das formas breves da
linguagem literária. E ele os tem.
Brevidade,
concisão, clareza. Eu diria que são estas suas principais qualidades.
Homem
de muitos instrumentos, Bondaczuk prefere todavia o solo da flauta – o conto, o
poema, a crônica. Está no seu elemento, conhece as complexidades do gênero e as
domina. Isso lhe permite falar consigo mesmo e com seus leitores, sondar-lhes
os sentimentos, ouvir sua respiração e, a partir dessa intensa troca de códigos
cotidianamente o diário de suas sensações, como um jornal que, refletindo as
pompas e as misérias do mundo, ecoasse também o fragor da alma”.
Muito obrigado, generoso e sábio amigo –
dotado de tantas virtudes, entre as quais a simplicidade – por fazer parte não
apenas da minha carreira de escritor (posto que dos mais obscuros e modestos),
mas da minha vida, com seus exemplos de competência, responsabilidade e
grandeza que tento e sempre tentarei seguir. Gratíssimo, inesquecível Tatá,
sobretudo por ter existido e se abrigado, para sempre, em meu coração e em
minha memória!!!
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
A descrição da sua pessoa,feita pelo seu amigo Eustáquio Gomes, aproxima-se bastante do que você deixa transparecer em seus escritos, que acompanho desde 2007. Ficou uma adulação sem exageros. Coisa de amigo fiel.
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