Dinheiro contra a democracia
* Por
Emir Sader
Se o governo Dilma não
conseguir quebrar a resistência do mundo do dinheiro para voltar a investir, a
democratização social encontrará grandes obstáculos.
A contradição
fundamental que vive o Brasil hoje, e que explica a crise atual, é aquela entre
um modelo de desenvolvimento econômico com distribuição de renda, que amplia,
como nunca, o mercado interno de consumo popular, e a falta de disposição do
grande empresariado de adequar-se a esse modelo. Como estamos numa sociedade
capitalista, este dispõe, nas suas mãos, dos grandes capitais que poderiam
permitir que o modelo apoiado pela maioria do povo brasileiro há 12 anos – e
projetado por pelo menos mais 4 anos – se intensifique e acelere. Ou, como tem
acontecido nestes últimos tempos, canalize esses recursos para a especulação
financeira - na Bolsa e nos paraísos fiscais – ou a seguir produzindo para a
alta esfera do mercado e para a exportação.
Pela primeira vez um presidente é eleito no
Brasil “contra o mercado”, isto é, contra o grande empresariado, que não apenas
mostrou, ha tempos, que preferia qualquer candidato opositor – Aécio, Eduardo
Campos, Marina – à Dilma, como militou firmemente por esses candidatos, até o
nível de manipulação da Bolsa, além de atuar, de sabotar diretamente a
economia, valendo-se do terrorismo econômico e favorecendo a especulação
financeira, contra a retomada da expansão econômica. Esse é o poder do grande
capital numa sociedade de mercado. Pode ser uma ínfima minoria, mas exerce seu
poder através do grande capital que concentra nas suas mãos.
O Brasil vive um
processo de democratização social como nunca havia vivido em toda sua história.
Pais conhecido como o mais desigual do continente mais desigual, a questão da
desigualdade social é a central do pais. Os governos do PT a erigiram na maior
das prioridades, por isso obtiveram o apoio da maioria do povo nas últimas
quatro eleições. Por isso fizeram do Lula o maior líder popular da sua
história.
A transição da ditadura à democracia não havia
tocado na desigualdade social. Esses governos vieram para dar conteúdo social à
democracia brasileira. Mas se chocam com os donos do capital, com a sua lógica
de maximização dos lucros, que vai em outras direções: especulação financeira,
exportação de capitais, produção de soja e de autos, entre outros, que se
distanciam totalmente do modelo de desenvolvimento com distribuição de renda,
apoiado pela maioria da população.
Dilma foi eleita, em grande
medida, com o voto popular, resultados das políticas sociais dos últimos 12
anos. Mas teve a grande maioria da opinião pública – fabricada pelo monopólio
privado da mídia – contra ela. A prioridade das políticas sociais foi mantida
no primeiro mandato da Dilma, que fortaleceu e estendeu as políticas sociais,
mesmo com a economia estagnada.
Seu maior desafio no
segundo mandato é conseguir retomar um ciclo expansivo na economia. Porém, os
arranjos das finanças públicas que até aqui têm sido postos em prática, incluem
novos aumentos das taxas de juros, que conspiram diretamente contra a expansão
da economia, têm um acento fortemente recessivo.
Se a Dilma não
encontrar a equação que permite cumprir com o objetivo proposto em 2010, de
baixar as taxas de juros aos níveis internacionais, desincentivando a
especulação financeira, a própria centralidade das políticas sociais estará em
questão, pela limitação dos recursos do governo.
Em outras palavras, se
o governo não conseguir quebrar a resistência do mundo do dinheiro para voltar
a investir e acompanhar a implementação do modelo apoiado majoritariamente pela
população, a própria democratização social – a alma dos governos do PT –
encontrará grandes obstáculos para seguir em diante.
* Sociólogo e
cientista político
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