sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Crônica para um novo ano


* Por Urariano Mota


Para começo de conversa, cito do magnífico livro “É isto um homem?”, de Primo Levi, que fala de suas memórias em campo de concentração nazista:

“Steinlauf me vê, me saúda, e, sem rodeios, me pergunta, severamente, por que não me lavo.

E por que deveria me lavar? Me sentiria melhor do que estou me sentindo? Alguém gostaria mais de mim? Viveria um dia, uma hora a mais? Pelo contrário, eu viveria menos, porque lavar-se dá trabalho, é um desperdício de energia e de calor. Será que Steinlauf não sabe que bastará meia hora entre os sacos de carvão para acabar com qualquer diferença entre nós dois? Quanto mais penso nisso, mais acho que lavar a cara em nossa situação é tolice, futilidade até; hábito automático ou, pior, lúgubre repetição de um ritual já extinto. Vamos morrer, todos; estamos para morrer; se é que me sobram dez minutos entre a alvorada e o trabalho, quero destiná-los a outra coisa, a fechar-me dentro de mim mesmo, a fazer o balanço da minha vida, ou talvez a olhar para o céu e a pensar que talvez eu o veja pela última vez; ou a me deixar viver, apenas, permitir-me o luxo de um brevíssima folga.

Steinlauf, porém, passa-me uma descompostura. Terminou de se lavar, está se secando com o casaco de lona que antes segurava, enrolado, entre os joelhos e que logo vestirá, e, sem interromper a operação, me dá uma preleção em regra.

Já esqueci, e o lamento, suas palavras diretas e claras, as palavras do ex-sargento Steinlauf do exército austro-húngaro, Cruz de Ferro da Primeira Guerra Mundial. É uma pena: vou ter que traduzir seu incerto italiano e sua fala simples de bom soldado em minha linguagem de homem cético. Seu sentido, porém, que não esqueci nunca mais, era este:

Justamente porque o Campo (de concentração nazista) é uma grande engrenagem para nos transformar em animais, não devemos nos transformar em animais. Até num lugar como este pode-se sobreviver, para relatar a verdade, para dar nosso depoimento. E, para viver, é essencial esforçar-nos por salvar ao menos a estrutura, a forma da civilização. Sim, somos escravos, despojados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, destinados a uma morte quase certa, mas ainda nos resta uma opção. Devemos nos esforçar por defendê-la a todo custo, justamente porque é a última: a opção de recusar nosso consentimento. Portanto, devemos nos lavar, sim, ainda que sem sabão, com essa água suja e usando o casaco como toalha. Devemos engraxar os sapatos, não porque assim reza o regulamento, e sim por dignidade e decência. Devemos marchar eretos, sem arrastar os pés, não em homenagem à disciplina prussiana, e sim para continuarmos vivos, para não começarmos a morrer”.

Essa página para mim tem um sentido mais profundo que aquele discurso de Chaplin em O Grande Ditador. Repito o melhor trecho de Primo Levi :

“Nesta grande engrenagem para nos transformar em animais, não devemos nos transformar em animais. Até num lugar como este pode-se sobreviver, para relatar a verdade, para dar nosso depoimento. E, para viver, é essencial esforçar-nos por salvar ao menos a estrutura, a forma da civilização.”

Essa grande página junto agora a uma do jornal O Bocão do nosso amigo Mário  Sapo, que o registro civil chama de José Amaro Correia. Ele está cego, num cadeira de rodas, e nos envia esta mensagem em seu jornal:

“NOSSA TERRA TEM COMETA

No dia em que a sonda robô pousou no cometa,  depois de 10 anos, 8 meses e 11 dias de viagem, abriu-se um nova mensagem da ciência. Foi uma das maiores realizações na pesquisa espacial. Eram quatro horas da manhã, e até as cinco, durante uma hora, ouvíamos o mesmo som que os cientistas ouviram vindo do cometa.

Depois de alguns dias estudando os sons, entendemos o cometa que passava pelo alto das praias de Paulista (a cidade do grande Recife, onde Mário Sapo escuta o rádio, sua única fonte de informação nos últimos tempos). A mensagem, que também ouvi de madrugada, era

O cometa estava desejando um bom natal e um novo ano de solidariedade e amizade.

A mensagem foi dirigida para os leitores do Bocão: para os moradores de Paulista, de Pernambuco, do Brasil e todos moradores da terra”.

Que bonito, não é? Se o nosso amigo, do alto da sua esperança e padecendo de males que a outro homem deixaria deprimido, se ele nos envia tais palavras, somente podemos nos sentir pequenininhos e medíocres, de tão reclamões e mal humorados que somos, tendo muito mais que ele, pelo menos na aparência. Então, que recebamos com admiração e proveito as suas palavras de alento e esperança. Que venha um novo ano de solidariedade, porque meu amigo Mário já ouviu na esperança o que ainda não vimos:

“O cometa estava desejando um bom natal e um novo ano de solidariedade e amizade.
A mensagem foi dirigida para os leitores do Bocão: para os moradores de Paulista, de Pernambuco, do Brasil e todos moradores da terra”.

* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”.  Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros.


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