Tarde
demais 22 – O atendimento
* Por
Gustavo do Carmo
A sirene urrava pela
cidade. A ambulância do SAMU costurava o trânsito em busca de espaço na pista de
rolamento para chegar o mais rápido possível à sua chamada de emergência. Saíra
do Centro da cidade, na hora do rush, em direção a um bairro do subúrbio. A viagem, que normalmente é feita em meia hora, demorou duas.
O solicitante do
socorro, um rapaz de uns trinta anos, estava na porta do velho prédio baixo
onde morava, desde que nasceu, com a sua mãe, que era quem estava passando mal.
Seu olhar era tenso, apreensivo, vendo a ambulância, finalmente, entrar na rua
de pouco movimento.
A van, branca com
detalhes vermelhos e o enorme número 192 – o telefone da emergência - gravado
na lateral, estacionou no meio-fio da calçada. Desceram, dos bancos da frente,
uma bela moça de branco (morena de olhos e verdes com corpo magro) e um casal
de farda caqui. O homem era mulato e musculoso. A mulher gorda e masculinizada,
que em seguida pegou uma prancha de madeira e coletes no baú. Nas mangas do
uniforme de todos, inclusive da bela moça de branco, que devia ser a
médica-chefe do atendimento, via-se, em cada braço, uma bandeira do Brasil e
outra do estado.
A médica bonita se
manifesta. O olhar apreensivo do rapaz solicitante se torna repreensivo e
também furioso.
— Recebemos um chamado
de atendimento de emergência. É aqui?
— Agora que vocês
vieram? Respondeu o rapaz.
— Senhor, o chamado é
aqui? Ela insistiu.
— O que vocês acham?
O único homem da
equipe sai em defesa da moça e intimida:
— Olha aqui,
desrespeitar funcionário público no exercício da sua função é crime, viu?
— Ah! Negar
atendimento não é?
— Nós recebemos muitos
trotes. Pela sua reação percebo que você é um desses autores. Respondeu a
mulher masculinizada, com olhar de julgamento para o rapaz.
— Ah, tá! Fui eu que
passei trote? Minha mãe estava morrendo, passou cinco horas sem socorro, sem
vocês sequer aparecerem e eu que passei trote? Bradou.
— O senhor se acalme,
por favor! Senão vamos chamar a polícia para te prender por desacato. Ameaçou a
mulher masculinizada.
— Eu vou me acalmar
sim! Porque agora é tarde demais! A
minha mãe morreu na semana passada! Estou vindo da missa de sétimo dia dela,
que não resistiu após a demora do atendimento, e vocês me aparecem uma semana
depois???? Devem ter tido uma fila enorme de trotes para atender!
— O Serviço de
Atendimento Móvel de Urgência pede sinceras desculpas pela demora no
atendimento e lamenta a morte da sua querida mãe. Mas você poderia ter ligado
para cancelar a chamada. Esclareceu a médica bonita.
— LIGAR??? FOI UM
CUSTO LIGAR PRA VOCÊS PARA SOLICITAR O ATENDIMENTO, VOCÊS NÂO VIERAM, A MINHA
MÃE MORREU E NO DESESPERO QUE EU ESTAVA VOCÊS ACHAM QUE EU IA ATURAR DUAS HORAS
DE ATENDIMENTO ELETRÔNICO!
— Senhor, se acalme!
Senão vamos chamar a polícia para prendê-lo. Já avisamos. Alertou o homem do
SAMU, já impaciente.
— EU ESTAVA SOZINHO
COM A MINHA MÃE QUANDO ELA PASSOU MAL E NENHUM TAXISTA QUIS LEVÁ-LA PARA O
HOSPITAL PORQUE JÁ VIU QUE ELA JÁ ESTAVA MORTA! MAS AINDA ESTAVA COM UM POUCO
DE VIDA! MINHA IRMÃ CHEGOU MAIS RÁPIDO QUE VOCÊS DEPOIS QUE EU A CHAMEI, SEUS
INCOMPETENTES!!!
Enquanto o rapaz
gritava, já aos prantos, a médica bonita ligava para a polícia. Em cinco
minutos apareceu uma patrulha que levou algemado o desolado jornalista
desempregado, de cabelos grandes despenteados, cueca samba-canção e chinelos,
para a delegacia.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance
“Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea
“Indecisos - Entre outros contos”.
Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por
leitores
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