Incessante conflito
A vida, esse fenômeno maravilhoso – até aqui detectada,
apenas, em nosso planetazinha azul (embora se suspeite, posto que sem provas,
que exista em profusão em tantas outras partes do universo) – é caracterizada por
incessante conflito. O desejável seria que se caracterizasse pela cooperação,
mas não é. Algumas espécies fazem o papel de presas de outras, que são, por seu
turno, suas predadoras. E isso em todos os casos, sem exceção. Os seres que não
são carnívoros se alimentam de vegetais, que também são espécimes vivos. Conclusão:
Vida só se alimenta de vida. Disso não há como fugir. Não conheço uma única
espécie do reino animal que se alimente de minerais. Não existe.
O homem é, simultaneamente, predador e presa. Mais o
primeiro, evidentemente, do que o segundo. O fato de contar com habilidades
únicas (ditadas pela razão) faz com que tenha criado armas e desenvolvido as
mais diversas formas de se proteger de eventuais agressores. Todavia, caso se
descuide, pode, perfeitamente, se transformar (e muitas vezes se transforma
mesmo) em “comida” de vários predadores, como tigres, leões, jacarés, tubarões
etc.etc.etc. Ademais, a despeito de sua inteligência, está, o tempo todo, na
mira de seres invisíveis a olho nu (vírus e bactérias), sempre à espreita para
adoecê-lo e, afinal, matá-lo. Raros de nós escapamos da sua sanha destrutiva
(se é que alguém escape). Mais cedo ou mais tarde, ao menor descuido, somos
afetados por desarranjos orgânicos, a que damos o nome genérico de “doenças”,
que nos suprimem a vida.
Admito que este raciocínio é sombrio e mórbido, posto que
rigorosamente realístico. As coisas no mundo ocorrem inexoravelmente desta
forma, não há como negar. Queiram ou não, a vida é contínuo conflito, tanto
entre espécies, quanto entre nós, humanos. No homem, tomado individualmente, há,
igualmente, batalha contínua, entre seus próprios instintos, sobretudo entre os
dois básicos: o de sobrevivência (individual e da espécie) e o de destruição
(própria ou de terceiros). O “pai” da psicanálise, Sigmund Freud, tratou muito
bem desse conflito, sobretudo no livro “O mal-estar da civilização”.
Identificou dois princípios antagônicos, ou seja, as pulsões de vida e de
morte, que denominou, respectivamente, com os nomes de duas figuras mitológicas
da Grécia clássica, “Eros” e “Thanatos”.
O tema é, também, fartamente explorado em Literatura, sob
aspectos vários, em geral metafóricos, sobretudo em poesia (embora não só
nela). Pudera! Os escritores não iriam perder um filão tão farto, não é mesmo?
Eu mesmo aventurei-me por esse vasto campo temático. Tanto que o meu livro mais
recente, concluído há questão de semanas, tem o título de “Eros e Thanatos”.
Nele, apresento as trajetórias de um grupo de escritores, dos mais conhecidos e
consagrados, que amaram muito, foram por uma razão ou outra infelizes no amor
e... deixaram-se levar pelo instinto de destruição. Deram cabo das próprias
vidas, vencidos pela sanha destrutiva de “Thanatos”. Mas o tema é mais comum na
poesia. A propósito, navegando na internet, encontrei este belíssimo poema,
intitulado “Eterno pensar eterno querer”, de autoria de Adriana Muller, que
faço questão de partilhar com você, paciente e fiel leitor:
“Thanatos e
Eros brigam pelo meu corpo
Ambos querem
minha posse
Minha psique
atormentada
Acomoda-se e
adormece
Embebida no
desejo do desejo esquecer
Sonhos vem a
mente
Sonhos de
momentos ardentes
E da
tristeza que quero esconder
Morrer
talvez fosse à saída
Pois
enquanto houver em mim
O menor
sopro de vida
Continuarei
a pensar em você”.
Outro poema pertinente (posto que com a ausência de “Thanatos”),
encontrei na obra do prolífico poeta português Fernando Pessoa. Seu título é “Eros
e Psique” e diz:
“Conta a
lenda que dormia
Uma Princesa
encantada
A quem só
despertaria
Um Infante,
que viria
De além do
muro da estrada.
Ele tinha
que, tentado,
Vencer o mal
e o bem,
Antes que,
já libertado,
Deixasse o
caminho errado
Por o que à
Princesa vem.
A Princesa
adormecida,
Se espera,
dormindo espera,
Sonha em
morte a sua vida,
E orna-lhe a
fronte esquecida,
Verde, uma
grinalda de hera.
Longe o
Infante, esforçado,
Sem saber
que intuito tem,
Rompe o
caminho fadado,
Ele dela é
ignorado,
Ela para ele
é ninguém.
Mas cada um
cumpre o destino
Ela dormindo
encantada,
Ele
buscando-a sem tino
Pelo
processo divino
Que faz
existir a estrada.
E, se bem
que seja obscuro
Tudo pela
estrada fora,
E falso, ele
vem seguro,
E vencendo
estrada e muro,
Chega onde
em sono ela mora,
E, inda
tonto do que houvera,
À cabeça, em
maresia,
Ergue a mão,
e encontra hera,
E vê que ele
mesmo era
A Princesa
que dormia”.
Poderia citar, ainda, muitas e muitas outras obras
literárias e respectivos autores, que trataram da guerra contínua entre Eros e
Thanatos, mas não o farei, até por falta de espaço. Quem sabe, oportunamente,
as traga à baila, mas em outra ocasião. Por ora, deixo-lhes, a título de
sugestão para reflexão, esta realidade: a vida é mais frágil e efêmera do que
ousamos aceitar. E se constitui (infelizmente), antes e acima de tudo, em
incessante conflito.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Nem imaginamos se estaremos vivos no próximo minuto.
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