Olhos nos olhos
* Por
Clóvis Campêlo
Nos anos 70, Chico
Buarque de Holanda negou-se a ceder a sua música “Olhos nos olhos” ao
Laboratório Moura Brasil para fazer um comercial de colírios, onde apareceriam
em close os olhos verdes do compositor. Com a recusa, deixou de ganhar um
milhão de cruzeiros, na época, uma quantia significativa.
Entendia Chico que o
uso da sua música e da imagem dos seus olhos, estimulando o consumo indevido e
inadequado dos produtos do laboratório, desgastaria a sua figura de artista,
além de contribuir para induzir o consumidor de forma enganosa.
Para quem não se
lembra, o colírio Moura Brasil, um vaso dilatador ocular, era o preferido por 9
entre 10 consumidores da famosa cannabis sativa. Naquela época, quem não tinha
óculos escuros usava colírio, contrariando a sentença máxima de Raul Seixas, o
maluco beleza que afirmava o contrário.
Isso tudo me vem à
lembrança agora com a participação da cantora Sandy na propaganda da cerveja
Devassa, da Cervejaria Schincariol. Hora, se Sandy, na sua condição de
patricinha, não bebe e não suporta cerveja, por que a participação no
comercial? Típico caso de um mercantilismo mercenário e de uma propaganda
enganosa. Um verdadeiro caso de topa tudo por dinheiro, onde os fins justificam
os meios e derrubam qualquer tipo de impedimento ético ou moral.
É comum vermos
artistas diversos venderem-se ao sistema e permitirem que suas imagens sejam
associadas a produtos quem nem sempre possuem as qualidades a eles atribuídas.
Essa é a lógica da sociedade de consumo em que vivemos e que tem o deus lucro
como seu maior totem.
Esse tipo de
raciocínio já se tornou tão comum entre nós, que, anos atrás, todo mundo se
ressentiu e criticou a “falta de ética” do sambista Zeca Pagodinho, que “traiu”
a própria Schincariol ao retornar aos comerciais da Brahma, sua cerveja
predileta.
Nessa guerra das
cervejas, aliás, até o treinador da seleção brasileira de futebol, Mano
Menezes, já se permitiu aparecer na telinha oferecendo aos incautos a péssima
cerveja Kaiser, substituindo o baixinho que, com o seu papagaio, durante anos,
contrariou as leis brasileiras de preservação da fauna.
Ao que consta, a
participação de Sandy na mídia, vendendo a cerveja que não toma, já é um
sucesso, colocando em destaque a cervejaria e o seu novo produto.
Quanto a mim, que
tenho me guardado para quando o carnaval chegar, ficarei aqui no meu cantinho,
olhando o tempo passar, sentindo a brisa morna deste final de verão recifense e
tomando a minha cerveja preferida, aquela que é suave e desce redonda.
Deixa a devassidão dos
outros pra lá.
Obs.: Publicada
inicialmente no Blog Inútil Paisagem, em 04/3/2011
* Poeta, jornalista e radialista,
blogs:
Nenhum comentário:
Postar um comentário