Náusea
* Por Assionara
Souza
Coça
o pescoço. Cabelos e unhas longos. Precisa cortar. Deve até ter arranhado a
pele, vai ver. Mas o sinal não abre. O sinal está vermelho ainda.
Estaria
arrependida? Sempre e por toda vida. Ontem, por exemplo, a lição de casa não
foi feita. Há pessoas, disse o conselheiro, veja bem... Ela não gostava da
expressão: "Veja bem...". Tudo falhava a
começar daí.
Era
uma mentira. Veja bem... sim, eu estou vendo que você é um cretino que não
consegue formular uma frase original e colou em seu discurso aquelas
particulazinhas que você considera — por via das dúvidas, veja bem...!
Ãh,
o que você disse? Veja bem, há pessoas que demoram muito tempo pra
aprender. Ele devia ser do tipo que usava esmalte. Passado
delicadamente por aquela mocinha manicura sem estudo a quem só restou o
exercício de concentração na arte do não borrar.
Ele
gostava do cheiro do esmalte. E quase fechava os olhos num gozo brevíssimo
sorvendo a tinta fresca nas unhas. A mocinha, achando que o motivo daquele
prazer vinha de sua espetacular precisão estética, não deixava de corar as
faces na medida em que escorria um fiozinho úmido entre suas pernas, bem ali no Caminho
de Swan.
As
pessoas são de uma ingenuidade tocante. Muda a estação do rádio. Duas marcas
ferozes no pescoço.
* Escritora
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