Ao lado da ponte
* Por
Marco Albertim
Todas as manhãs,
somente de um lado da cabeceira da ponte, fazia sombra. Do outro lado, o sol
incidindo, o canto permanecera deserto, sequer percebido. O capim ali
estorricara, uma chusma escassa de formigas contorcia-se lenta entre os grãos
grossos de areia. Inda que fosse o lado do casario com esquina para o rio,
ninguém se dispunha a se escorar no anteparo da ponte, para uma prosa miúda.
Já do lado da sombra,
olhando para a praça com a meia dúzia de flamboyants floridos, era possível
apreciar a longitude sem curvas dos ferros sob o dorso da ponte. Da praça, no
extremo oposto, mexia-se em bulício a coreografia cinzenta das putas. As
mulheres, indiferentes ao curso morto das águas, talvez por isso mesmo
mostrassem no rosto a transição para a esqualidez; as de rosto ainda cheio,
semelhavam aos bancos amarelecidos de areia, expostos ao sol, de um lado e de
outro do estreito curso d'água.
O lado sombreado da
ponte, era apreciado tão somente a partir de uma esquina e outra, onde as
mulheres urdiam truques para a faina do comércio rotineiro do sexo.
Dificilmente elas iam para lá, porque sabiam que, aproveitando-se da sombra, um
monte de moscas varejeiras zumbia junto à parede musgosa da ponte; os fungos as
atraiam, os fungos e o balaio de mariscos trazido pela mulher que os vendia.
Não se sabia o nome certo de Teresa Miúda, ou somente Miúda. O corpo magro, com
o rosto chupado, os dentes retorcidos para dentro da boca, ainda tinha peitos;
não se acreditava que dali pudesse minguar algum fio de leite, apesar do filho
escanchado num dos lados de sua fina cintura. Miúda, de tão magra, parecia uma
vara de bambu, distinguindo-se apenas por sua cor escura, acentuada pelos
cabelos da mesma cor, escorridos e nunca penteados. Para espantar as moscas,
sacudia a palma da mão que não sustinha o filho; e somente quando o inseto se
aproximava de seu rosto ou de algum membro do filho.
Os mariscos, já
tratados, eram embalados num saco plástico, com a umidade exposta; sacos
transparentes para o deleite do freguês e para o regalo das varejeiras. Miúda
não tinha mesmo leite nas mamas sumidas. Por volta de nove, dez horas, o sol já
tinindo no calçamento entre a esquina da ponte e o casario em frente à praça,
ela atravessava com o filho no mesmo lado da cintura, rumo à padaria. Os sacos
de mariscos, inda que sem os cuidados da vendeira, ficavam para trás. Ninguém
teria a coragem de subtrair o ganho pequeno de Teresa Miúda. Na padaria, dois
pães e cem gramas de uma gordurosa mortadela. O sanduíche ela mesma o preparava
de volta ao balaio de mariscos. Podia acomodar a carne no pão, lá mesmo,
apoiada no balcão da padaria; mas tinha noção, inda que a encolhesse no juízo
curto, das diferenças de suas roupas ao lado das dos outros fregueses. O filho,
mastigando a comida com os dentes curtos, deixava escapar da boca restos do
pão, da mortadela. Ela, com os dedos, removia a baba da criança com o apontador
em concha; no vestido sem cor definida, enxugava a mão.
Às três horas da
tarde, com metade dos mariscos já vendida, arriscou-se a ficar até a noite
chegar. Às cinco horas, com a luz escassa dos dois postes no casario em frente
à praça, o ar encheu-se de penumbra; sem aparência de abandono, posto que
aquela hora, as putas tinham trocado a roupa do dia pela indumentária festiva
da noite. Teresa Miúda comera um pão inteiro e metade do outro; o filho se
conformara com a outra metade. Era um sábado. Tonha Grande, a dona de um dos
bordéis, mandou uma das mulheres da casa comprar os restos dos mariscos.
- Miúda - disse a
mulher -, dona Tonha quer o que tiver sobrando de marisco. Mas só paga amanhã.
- Pode levar.
No sábado, os cabarés
se enchem de homens que não poupam o ganho da semana. Tonha Grande, a gorda
proprietária da radiola de fichas mais ruidosa da Barra, também tinha fama de
honrar os seus fiados.
Com o balaio vazio,
Teresa Miúda pôs-se em marcha de volta para casa. Teria que percorrer, com a
familiaridade do costume, toda a margem do rio. A última casa de taipa, vizinha
a outra ponte interligando a rodovia, abrigava-a num único quarto; sem cama nem
rede, mas um estrado de madeira já encerado depois de tantos anos de uso. O
filho dormindo ao lado, numa esteira de chão.
O filho, com a
inquietação da fome, meteu uma das mãos no interior do vestido da mãe; conseguiu
esticá-la até o bico mirrado do peito materno. A mãe, abrupta, tirou-a de uma
só vez.
- Não sabe que não
tem!
Na primeira esquina,
parou para entrar num boteco também de taipa. Pôs o cotovelo no balcão para
apoiar-se. O moleque com os cambitos imóveis, os braços em volta do pescoço da
mãe, distraiu-se olhando para o rosto macilento do bodegueiro. Depois olhou,
sem pensar em nada, para os olhos vermelhos de Teresa depois de ter entornado
meio copo de aguardente.
*Jornalista
e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de
Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi
ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção
Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A
convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de
Natal”. Tem três livros de contos e um romance.
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