Reflexões sobre personalidade
O escritor, jornalista e crítico literário francês do século
XVIII, Jean-Baptiste Alphonse Karr, escreveu, em um dos tantos textos que nos
legou: “Cada homem possui três personalidades: a que exibe, a que tem e a que
pensa que tem”. Muitos concordam com tal avaliação, outros tantos discordam,
sem que haja consenso a propósito. Da minha parte (embora leigo na matéria),
por observação, e mais que isso, por intuição, concordo com essa conclusão. Nem
sempre (ou quase nunca), o que mostramos em público, ou mesmo o que pensamos a
nosso próprio respeito, condiz com o que somos.
O tema, por dizer respeito a coisas tão relevantes a
propósito de nossa identidade psicológica, merece reflexão. Mas antes é preciso
definir, mesmo que superficialmente, esse conceito. O que vem a ser, afinal, a
personalidade? É o conjunto de características psicológicas que determinam nossos
padrões de pensar, sentir e agir. Em suma, é nossa individualidade: pessoal e
social. Sua formação é um processo gradual que pode durar uma vida inteira.
Todavia, tende a ser complexo e único para cada indivíduo.
O termo é usado em linguagem comum com sentido mais
genérico. Ou seja, como "conjunto das características marcantes de uma
pessoa", de forma que se pode dizer que alguém "não tem
personalidade". Claro que esse uso
é, cientificamente, inadequado. Não leva em consideração as características
peculiares que todos temos, que nos diferenciam e identificam, mesmo que essas
diferenças aparentem ser ínfimas. Nunca são. Não há, no mundo, duas pessoas com
personalidades “iguais”. Há, sim, e muitas, “semelhantes”. E semelhança não é igualdade.
O psicólogo e psicanalista suíço Carl Gustav Jung realizou
profundos estudos a respeito e estabeleceu teoria original que serve de base,
até hoje, aos profissionais e estudiosos da matéria. Concluiu que o
comportamento humano não é aleatório, como muitos pensavam (e vários ainda
pensam). Pode ser medido, previsto e classificado. Ou seja, é possível
estabelecer “tipos de personalidade”. Isso não quer dizer que as pessoas que se
enquadrem em cada um deles sejam “iguais”. Não são. São “semelhantes”.
Destaque-se que no livro ”Tipos Psicológicos”, lançado no ano de 1927 na Europa, Jung
afirmava que a personalidade pode ser composta por diversos fatores. E que é a
combinação deles que constitui a maneira de agir e de pensar de cada grupo.
As conclusões do psicanalista suíço formaram a base,
reitero, da psicologia contemporânea, apesaqr de conter diversas lacunas,
preenchidas por outros estudiosos. Nos anos 50 do século XX, por exemplo, a
norte-americana Katherine Briggs Myers e sua filha Isabel Briggs Myers, que
eram diretoras de uma pequena fábrica nos Estados Unidos, resolveram aplicar as
teorias de Jung para selecionar com
melhor critério funcionários para a empresa a que serviam. Tudo teria começado
como uma “brincadeira”. Como os resultados positivos começaram a aparecer, no
entanto, e os empregados selecionados se mostraram melhores, mais produtivos e
confiáveis do que antes, mãe e filha passaram a observar seriamente os candidatos
que pretendiam contratar com base nesses critérios.
A partir desta observação prática, todavia, as duas mulheres
concluíram que o livro de Jung, mesmo sendo muito bem escrito e convincente
deixava várias lacunas. Perceberam, entrevistando candidatos, que havia mais
fatores em jogo para determinar os tipos de personalidade do que os propostos
pelo ilustre psicanalista suíço. Os critérios originais de Jung para definir
tipos de personalidade eram apenas dois. A eles, Katherine e Isabel acrescentaram
outros dois. Com isso, criaram um indicador, o “Myers Briggs Type Indicator” (Indicador
Myers Brigs dos Tipos de Personalidade). E este é, até hoje, o principal referencial
utilizado por psicólogos e psiquiatras do mundo inteiro para determinar os
tipos de personalidade existentes.
A classificação leva em conta quatro etapas. A primeira leva
em conta a maneira com que interagimos com o mundo. Por esse critério, podemos
ser “Extrovertidos” ou “Introvertidos”: As pessoas que têm o primeiro desses tipos
de personalidade são extremamente sociáveis. Gostam de conversar e interagir
com outras. Não temem expor opiniões e são muito comunicativas. Concentram sua
energia no mundo real. Já os “Introvertidos”, em geral, sentem-se mais
confortáveis sozinhos. São menos sociáveis e interagem pouco. Portanto,, não se
abrem facilmente. Concentram sua energia no mundo interior, no dos pensamentos.
A segunda classificação leva em conta o modo com que
observamos e absorvemos as informações do mundo. Estão nesse caso os “Sensoriais”
e os “Intuitivos”. Os primeiros são mais materialistas. Colhem as informações
pela observação de fatos e de detalhes concretos. São pessoas realistas e
práticas. Os “Intuitivos”, por seu turno, têm perfil mais imaginativo. Optam
por observar e tirar conclusões finais a partir dos próprios pensamentos e
crenças. São mais criativos, posto que, também, mais complexos.
A terceira classificação dos tipos de personalidade diz
respeito à maneira com que julgamos ações alheias, mas também ao modo com que
tomamos decisões. Neste caso, surgem, também, dois tipos de personalidade: o
dos “Pensadores” e o dos “Sentimentais”. Os primeiros tomam decisões e julgam os
outros sempre com base na lógica. Pesam os prós e contras da situação. Tendem a
ser objetivos e justos. Quase nunca deixam sentimentos influenciarem decisões.
Valorizam a lógica, a justiça e a igualdade. Os “Sentimentais” fazem julgamentos
e tomam decisões movidos pelos instintos e sentimentos. Decidem baseados no que
estiverem sentindo no momento. Valorizam a harmonia, a empatia e não seguem
regras rígidas. Aceitam bem as exceções.
Finalmente a quarta classificação tem relação com o modo com
que preferimos viver. Ou seja, se nossa preferência recai na ação espontânea ou
se optamos por pensar bem antes de agir. Os dois tipos identificados por este
critério são os “Julgadores” e os “Perceptivos”.
Os próprios rótulos definem como ambos são. Os “Julgadores” satisfazem-se
depois que as decisões foram tomadas. Decidem rapidamente. Ficam angustiados se
deixarem problemas se acumularem. Não pensam muito antes de agir. Preferem se
arrepender caso venham a errar. Os “Perceptivos” são o oposto. Ficam mais
satisfeitos em tomar decisões bem pensadas e mais acertadas. E demoram para
agir. Detestam decidir rapidamente. Pensam bastante antes de agir, porquanto temem
se arrepender.
E você, paciente leitor, em qual dessas categorias se
enquadra? Qual tipo de personalidade tem? Tem um único, ou os três sugeridos
por Jean-Baptiste Alphonse Karr? Exibe uma, tem outra e pensa que tem uma
terceira ou é linear nesse aspecto? Está aí um bom tema para reflexão, por induzir
à busca do tão necessário autoconhecimento.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Introvertida, sensorial, pensadora e julgadora, predominantemente, mas com intensidades diferentes, dependendo da situação. Ao final acredito que haja predominância de um tipo sobre o outro, nesses quatro itens, porém, não de uma maneira pura e isolada.
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