Um dia qualquer
* Por
Raimundo Sales Freire
O sol entrou pela
fresta da casa e ele acordou; lá de fora vinha o barulho forte do vento contra
as árvores e da cozinha o cheio do café. Depois de uma boa espreguiçada ele se
levantou e saiu do quarto. O céu estava azul sem nenhuma nuvem; o sol brilhava
intensamente, os galhos das árvores dançavam conduzidos pelos ventos e as
galinhas andavam de um lado para o outro no quintal comendo os grãos que sua
mãe lhes atirava. Depois de uma rápida conversa com a mãe, ele se sentou à mesa
e comeu o delicioso cuscuz de arroz com café e leite. Saboreou cada bocado e
quando estava satisfeito se levantou, pegou a baladeira[1] e foi para a casa do
seu melhor amigo. Faziam aquilo todo dia – passarinhar era divertido (apesar de
nunca ter matado nenhuma ave) e possibilitava caminhar pela mata naquela sombra
fresca, colher castanhas de caju (que depois eram devidamente assadas ou então
usadas para brincar, já que nem todos possuíam petecas), comer mangas, goiabas
e correr um pouco. Ah, como aquilo era bom…
Quando o sol já estava
subindo ele deixou a floresta com seu amigo e voltou para casa. Não havia
televisão ou nada que se pudesse fazer. A esta hora suas irmãs e sua mãe
estavam cuidando da casa e ele, como só tinha sete anos, não fazia nada – por isso
pegou seus livrinhos e foi para sua pituruna[2]. Lá, se sentou em seu galho,
que por obra da natureza permitia que se escorasse como em uma cadeira e
começou a ler aquelas fábulas infantis enquanto sentia o doce aromas das flores
e ouvia o som das pipiras[3].
A hora do almoço passou
e ele, junto com sua mãe e suas irmãs, foi para o local onde ficavam os cocos,
a uns quarenta e cinco minutos de caminhada. Era em cima de uma serra, onde
havia várias palmeiras e ali o vento era muito forte, mas era tão boa a
sensação de liberdade que ele proporcionava… Todos se sentaram com seus
machados em volta dos cocos e começaram a quebrá-los. Ele quebrava apenas por
diversão, sua mãe não o obrigava, mas era tão bom estar junto de suas irmãs;
durante todo o tempo, riam. Às duas e meia, quando terminavam, ele havia
conseguido quebrar apenas um litro[4], suas irmãs conseguiam cerca de dez.
Aqueles cocos seriam torrados, pisados e tirado o óleo, aquele óleo seria usado
na cozinha e para a fabricação de sabão, um processo chatinho para um menino de
sete anos, tinha que misturar a potassa com água e depois com o óleo e então
mexer, mexer, mexer… até dar o ponto e então era colocado em uma bacia…
A família chegou em
casa pouco mais que três horas e depois de um bom banho eles lancharam e então
o resto do dia era de brincadeira. No final de semana seu pai viria e então ele
o carregaria na garupa da bicicleta… A vida não podia ser melhor!
Imperatriz, 16 de
setembro de 2014.
[1] Estilingue
[2] Árvore, nome
cientifico: Cenostigma tocantinum Ducke.
[3] Pássaros, também
conhecidos como sanhaços.
[4] Quando se quebra o
coco babaçu, se extrai as sementes – ou bagues como são conhecidos na região –
se deposita em um litro, muitas mulheres no interior vendem, o valor de cada
litro é inferior a R$ 1 real.
*
Escritor maranhense
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