A vingança da Ana Luíza
* Por Rodrigo Ramazzini
Mulherengo!
Essa era a fama ostentada por Pablo na cidade. E ele gostava de ser conhecido
assim. Afirmava – “Chama mulher. E eu gosto de mulher!” O que era uma verdade.
Havia sempre candidatas a se enlaçarem entre os seus beijos e abraços, apesar
dos riscos. Outra verdade é que ele era um rapaz bonito, de fala mansa e de
atos românticos. Sim! Pablo era um ser extremamente romântico, ainda que pareça
antagônico ser mulherengo e romântico. Essa combinação arrancava suspiros.
Faz
três meses que a Ana Luíza aceitou o “desafio”, ou melhor, começou a namorar
Pablo, mesmo com o alerta das amigas. Conheceu-o em uma festa, e deste então, o
namoro desenrolou-se. Ela era uma dessas meninas classificadas como “Patricinha”.
Acho que não preciso falar mais nada.
Com
o conhecimento da “ficha completa” de Pablo em mãos, Ana Luíza não perdeu
tempo, e logo “sacou as suas armas”. Desde o início do namoro, começou a
monitorar, escondida, o celular dele, o Orkut, as companhias e etc. Mantinha
atenção constante, o que, diga-se de passagem, não parecia ser suficiente, pois
havia sempre um boato envolvendo-o com alguma garota. Ele negava, mas isso ele
também fazia com as namoradas anteriores. Entre os amigos, quando questionado,
apenas proferia o ditado popular – “Onde há fumaça, há fogo!” E saia sorrindo.
Pablo
tinha um “dom” (notado, aclamado e invejado por seus amigos) de estar
acompanhado pela namorada, mas sempre dar um jeito de olhar para as outras
mulheres, sem o perceber da “oficial”. Tinha as suas técnicas “secretas”,
claro! Entretanto, o fato de, mesmo em dias nublados, usar óculos escuros,
deixava alguns indícios.
Pois
bem. Era sábado, por volta das 18h00min. Pablo e Luíza saíram do Shopping, onde
assistiram a um filme, e foram para uma parada de ônibus. Enquanto aguardavam a
chegada do ônibus, ficaram abraçados, de forma que Ana Luíza ficou de costas
para Pablo. Em frente a esta parada, havia um parque, utilizado rotineiramente
para caminhadas e corridas. Assim que pararam no local, Pablo logicamente
visualizou o referido parque, bem como as mulheres que com suas calças
“coladas” por lá transitavam. E ele não perdeu tempo. Utilizando as suas
técnicas, discretamente, começou a deliciar-se com os belos corpos femininos que
circulavam no seu raio de visão. Ana Luíza nada percebeu.
Encantando
com o que via, começou mentalmente a torcer pela demora do ônibus, pois não
queria perder um só par de coxas. Aliás, nem sabia para qual olhava, visto a
abundância de opções. Mas foi então que ele enxergou um cruzar de pernas,
vestindo uma calça preta com detalhes em branco na parte traseira. Eram as
coxas mais torneadas e os glúteos mais redondos que já vira. Fixado, nem olhara
para o resto do corpo. Acompanhou o “bailar” do conjunto com tamanho afinco
que, em um instante de descuido, mostrando o quanto estava gostando, mordeu o
seu lábio inferior. Por falta de sorte, Ana Luíza olhou-o neste exato momento.
Vendo o gesto do namorado, ela rapidamente virou-se e olhou na mesma direção de
Pablo. Reconheceu aquela “calça preta”. Morava no seu bairro.
O
sangue lhe “subiu à cabeça”. Irritou-se. Flashes emergiram do “baú” da memória
com os alertas recebidos sobre a fama de Pablo. E, vingativamente, não pensando
nas conseqüências, encarou-o, e lascou, em um tom audível a todos da lotada
parada, com a linguagem surgida sem reflexão:
-
Bonito Pablo! Nem veado você poupa mais!
* Jornalista e cronista
Vingançazinha infantil, mas ainda assim, um caminho.
ResponderExcluir