segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Tarde demais

* Por Daniel Santos

O trem chegou quase de madrugada trazendo todos eles, e eram mais de trezentos! Vieram famílias inteiras com seus velhos e crianças, muitos sem agasalhos, que os soldados pegaram-nos em casa de surpresa.

Ou nem tanta surpresa assim, pois há tempos sabiam: estava por pouco. Meses antes, por exemplo, houve quem percebesse carros da polícia seguindo-os discretamente pelas ruas. Datam daí os primeiros seqüestros.

A imprensa omitia notas sobre suicídios para evitar a generalização de um desespero que mal se continha. Natural, portanto, que se rebelassem, mas desperdiçaram tempo em discussões e sequer esboçaram um levante.

Os bancos suspenderam o crédito, dias depois cerraram as portas. Rareava o abastecimento dos mercados e, aí, todos começaram a se entreolhar com uma apreensão que rápido evoluiu à angústia coletiva.

Estava feito. Na impossibilidade da fuga, deixaram-se apanhar fácil.  Lá se fora a oportunidade da revolta! Então, arriados de arrependimento, mais que de medo, tiraram as boinas enquanto os soldados faziam mira.

* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.


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