O gênio Máximo da humanidade
* Por
Ariano Suassuna
Aquilo também me
interessava profundamente, pelo que, sem querer; dei uma esporeada no vazio de
"Pedra Lispe", que deu uma poupa. Reequilibrei-me e falei:
- Como é? E o cargo de
"Gênio Máximo da Humanidade" também ainda está vago? Pergunto,
porque, no "Seminário da Paraíba", a gente estudava Retórica num
livro do Doutor Amorim Carvalho, as Postilas de Retórica e Gramática. Esse
Doutor era "Retórico do Imperador Pedro II", de modo que sua palavra
não é brincadeira, e ele afirma que, de todos os Poetas, "o primeiro, no
tempo e na glória, é Homero"!
- Discordo
inteiramente, porque está absolutamente errado! - disse Clemente. Essa idéia da
autoria individual das obras é reacionária e está ultrapassada! Hoje, está
provado que Homero nunca existiu! Os dois poemas que são a "obra da raça
grega" foram compostos aos poucos, pelo Povo, e reunidos depois pelos
eruditos!
- A autoria da obra é
sempre trabalho de um homem só! - disse Samuel, já se irritando. - Homero não
foi o "Gênio Máximo da Humanidade", mas o motivo principal disso foi
a vulgaridade, a grosseria que o levou a lançar mão daquelas horríveis
histórias populares!
Eu procurei, de novo,
desviar a briga. Interrompi:
- Bem, o importante é
que já estão demonstradas três teses! Primeiro, que o "Gênio da Raça"
é um escritor. Segundo, que o cargo de "Gênio da Raça Brasileira"
está ainda vago. E terceiro, que ainda está vago, também, o de "Gênio Máxima
da Humanidade", porque o único candidato apontado até agora, Homero, além
de não existir, era grosseiro e vulgar! Tudo isso constará da nossa ata,
recebendo, assim, o selo oficial e acadêmico que lhe dará certeza! Mas existe
ainda um problema importante: qual deve ser o assunto da Obra nacional da Raça
Brasileira ?
***
Meu plano era obter aos
poucos, deles, sem que nenhum dos dois pressentisse, a receita da Obra da Raça,
para que eu mesmo a escrevesse, passando a perna em ambos. Eles me olharam um
momento, em silêncio, entreolharam-se, e então Samuel falou:
- Bem, é difícil dizer
assim, depressa! Mas acho que o assunto da Obra da nossa Raça tem que ser o
Brasil!
- O Brasil? - indaguei,
perplexo. - Mas o Brasil, como? - O Brasil, o Brasil! - repetiu Samuel,
impaciente. - Que assunto melhor do que o feito dos nossos antepassados, os
Conquistadores, a "raça de gigantes ibéricos" que forjou o Brasil,
introduzindo-nos na Cultura mediterrânea e católica?
Clemente zangou-se e
vociferou, de lá:
- Esta é a idéia sua e
dos seus amigos, patrioteiros e nacionalistas! De fato, a Obra da nossa Raça
deve ter como assunto o Brasil! Mas que "cultura" foi essa que os
Portugueses e Espanhóis nos trouxeram? A cultura renascentista da Europa em
decadência, a supremacia da raça branca e o culto da propriedade privada!
Enquanto isso, a Mitologia negro-tapuia mantinha, aqui, uma visão mítica do
mundo, fecundíssima, como ponto de partida para uma Filosofia, e profundamente
revolucionária do ponto de vista social pois incluía a abolição da propriedade privada!
É por isso que, a meu ver, a Obra da Raça Brasileira, será uma Obra de
pensamento, uma obra que, partindo dos mitos negros e tapuias, forje uma
"visão de conhecimento": uma visão do mundo; uma visão do homem; uma
visão do homem no mundo; e uma visão do homem a braços com o próprio homem!
- É visagem demais para
um livro só! - disse eu.
- Alto lá, Quaderna! -
falou Clemente, sobranceiro. - Não me venha, agora, com suas "tiradas de
almanaque" não, porque isso é coisa muito séria, é o cerne da minha "Filosofia
do Penetral"!
*
Dramaturgo, ensaísta, romancista e poeta, membro da Academia Brasileira de Letras
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