Brilhante município planaltino
no Contestado catarinense
* Por Nilson Cesar Fraga
Matos
Costa, um pequeno município do Contestado, em Santa Catarina, já foi chamado de
São João dos Pobres. Hoje, com o nome mudado, ainda se configura como uma das
mais pobres cidades catarinenses. Mas isso se reflete apenas em números da
economia e em índices dos mais diversos, pois, para quem visita, conhece e
sente essa pequena cidade, o termo pobreza passa longe. Há, em Matos Costa, quatro
das maiores riquezas do povo barriga-verde: a simpatia, o acolhimento, a
hospitalidade e a simplicidade no trato com os que vêm de fora, fazendo dela
uma das cidades mais ricas do estado – seu povo e sua luta diária, há mais de
um século, é sua maior abastança, pois isso não tem como ser mensurado.
Assim, falando a partir da alma e do coração,
descreve-se um pouco do que se viu e se sentiu estando em Matos Costa no dia 19
de outubro de 2013.
Guiado
por mim, um grupo de estudantes de Pós-graduação em Geografia (Mestrado e
Doutorado), incluindo professoras do Curso de Direito e Serviço Social,
estudantes de Iniciação Científica e a socióloga Edna Pereira da Silva, todos
acadêmicos da Universidade Estadual de Londrina e trabalhos ligados ao
Observatório do(s) Centenário(s) da Guerra do Contestado (OCGC-UEL/UFPR), com o
objetivo de exploração geográfica, histórica e antropológica nos sítios de
batalhas da Guerra do Contestado e dos Espaços Sagrados do monge São João
Maria, foram percorridos 1.400 quilômetros por diversas cidades da Região do
Contestado Catarinense, com destaque para Irani, Caçador, Lebon Régis, Porto
União e Matos Costa, esta última será descrita na sequência.
Porém,
antes de chegar a Matos Costa, no decorrer das atividades de campo, foi
possível visitar o sítio histórico do Combate do Irani, a carneira do monge
José Maria, a vala dos 21 e uma apresentação cultural com Vicente Telles e seu
filho Vicentinho, que brindaram o grupo com uma opereta sobre a Guerra do
Contestado. Em Caçador, explorou-se o importante acervo regional e da Guerra do
Contestado no Museu mais bem estruturado sobre o processo de formação regional,
onde fomos recepcionados pelo historiador Julio Corrente. Um dos pontos mais
interessantes da viagem se deu no crematório de Perdizinha, local onde eram
queimados os corpos de caboclos e soldados mortos em batalhas, que hoje se
localiza no município de Lebon Régis.
O
dia mais intenso de atividades de pesquisa ocorreu na pequena e hospitaleira
cidade de Matos Costa, quando o grupo foi recepcionado, na Prefeitura Municipal,
pelo prefeito Raul Ribas Neto e pelos secretários municipais de Desporto,
Cultura e Turismo, Dalton Fagundes, de Indústria e Comércio Alvir Tomacheuski e
de Ação Social, Elisangela Tibes, que deram as boas-vindas. O prefeito explanou,
para os visitantes, sobre as dificuldades de gestão de uma pequena cidade com
parcos recursos financeiros no interior do Brasil e, ao mesmo tempo, deu uma
aula de gestão pública sobre como se organiza a vida em sociedade e se trabalha
para o bem coletivo, neste caso, o povo matos-costense.
Faz-se
necessário mencionar que o território do município de Matos Costa era
originalmente pertencente ao de Porto União da Vitória, sendo que, em 9 de maio
de 1910, instalou-se o Distrito de São João, em terras contestadas entre os estados
do Paraná e Santa Catarina, e com o acordo de limites de 1916, a vila de São
João passou para a jurisdição catarinense de Porto União, passando a se chamar
São João dos Pobres.
Durante
a Guerra do Contestado, a pequena vila de São João dos Pobres foi várias vezes
atacada, mas o mais famoso ataque se deu em 1914, ocasionando a morte do capitão
João Teixeira de Matos Costa. Só em 15 de setembro de 1917, por meio da
Resolução nº 37, a vila de São João dos Pobres passou à condição de distrito e,
com a construção da nova Estação Ferroviária, pois a antiga havia sido
queimada, São João dos Pobres passou a denominar-se Matos Costa, em homenagem
ao capitão morto.
Na
sequência, aos viajantes foi servido um almoço baseado na culinária cabocla, no
Restaurante Tibes, comida reforçada, visto que se teria uma tarde de caminhada
por vários sítios históricos municipais.
A
partir da estação denominada Matos Costa, o grupo caminhou sobre os trilhos da
extinta EFSP-RG por alguns quilômetros, e o jornalista João Batista Ferreira
dos Santos, conhecido como JB, foi apresentando a cidade e algumas curiosidades,
tais como, a vassourinha – famosa erva dos chás do monge São João Maria. Por
terrenos íngremes, foi-se caminhando até o traçado original da EFSP-RG, visto
que ele foi modificado e melhorado com a criação da Rede de Viação Paraná-Santa
Catarina (RVPRSC). Dali, a caminhada continuou por alguns minutos, até alcançar
a sombra de uma vistosa araucária, quando foi possível ouvir as palavras de um
antigo vereador e prefeito de Matos Costa, o Sr. Nelson Castilho, que
acompanhou o grupo juntamente com seu filho Adilson Castilho e mencionou as
dificuldades para se administrar uma cidade sem acesso asfáltico, pobre e
pequena, nos idos dos anos de 1970 e 1980, mas que, sob a sua gestão, foram
construídas 18 escolas e outras obras sobre o território municipal. Ouvir a
experiência do ex-prefeito permitiu aos estudantes viajarem no passado e
entenderem um pouco do processo de formação socioespacial de Matos Costa.
Das
sombras da araucária, o grupo rumou para o local onde, em 1914, numa emboscada
em plena Guerra do Contestado, soldados e "jagunços" se enfrentaram,
ocasionando a morte do capitão Matos Costa, que hoje dá nome à antiga São João
dos Pobres. Tal combate épico ainda causa controvérsias, pois a emboscada ainda
se encontra envolta pelas brumas de tal batalha, visto que, oficialmente,
teriam sido os caboclos os responsáveis pela armadilha histórica contra o único
militar que possuía uma visão social sobre a situação vivida pelos caboclos do
Contestado.
Na
sequência o grupo rumou para o Pocinho de São João Maria, uma vertente de água
atribuída como milagrosa pela população, juntamente com o cruzeiro ereto pelo monge.
Localizado numa propriedade composta por pastagens e araucárias, esse espaço
sagrado foi escolhido pelos excursionistas para registrar, por meio de uma
fotografia do grupo, onde todos, segurando bandeiras do Contestado e dos povos
originários, se reuniram para eternizar o momento histórico: o do primeiro
grupo de estudantes de Pós-graduação em Geografia da UEL que esteve em trabalho
de campo na região do Contestado.
Deste
espaço sagrado do Contestado, a caravana seguiu para o local onde ficava, desde
meados do século XIX, o Quilombo do Rocio que, estabelecido sobre um morrote,
ainda é possível ver os restos da edificação da igreja do Quilombo e um grande
pedaço de madeira que ornava a construção, com uma grande cruz. Um dos últimos
pontos visitados foi o cemitério do mesmo Quilombo, tido como o cemitério
antigo de São João dos Pobres, um espaço cercado por um muro de taipa e repleto
de túmulos e carneiras, onde se verificam datas que remetem à metade do século
XIX. Cercado de pínus, o cemitério é cuidadosamente mantido pela atual
administração municipal, aliás, a atual gestão tem se desdobrado em esforços
para a manutenção e salvaguarda de todo esse patrimônio material de Matos
Costa.
Por
fim, o grupo retornou à prefeitura, acompanhado pelo jornalista JB, onde o prefeito
Raul os aguardava para saber como havia sido a caminhada de meio dia sobre os
principais pontos históricos municipais. Depois de uma longa conversa de
agradecimentos, propostas e debates, o gestor matos-costense se despediu dos
visitantes da UEL que, imediatamente, seguiram viagem para Porto União, cidade
mãe de Matos Costa.
Nas
Gêmeas do Iguaçu, Porto União – SC e União da Vitória – PR, foi explorada a
estação da antiga EFSP-RG e, a partir dela, se fez uma caminhada pelos trilhos
de trem até a Praça do Contestado, inaugurada em 2012, para memorar o centenário
da Guerra do Contestado. Mas, ali mesmo, foi possível verificar o Contestado
secular, por meio das políticas públicas das cidades gêmeas, uma vez que a
praça, a estação e o parque linear da estrada de ferro possuem diferenças
infraestruturais no que concerne ao planejamento local, onde, cada cidade,
mesmo sendo uma só mancha urbana, faz suas obras e seus planejamentos.
Em
Porto União foram encerradas as atividades de campo pela região da Guerra do
Contestado, com uma visita ao Parque do monge João Maria, um espaço de devoção,
romarias e sagrado desde o século XIX. Dali, o grupo retornou para Londrina,
com os cadernos de anotações cheios de informações geográficas, históricas e
antropológicas do Contestado – da terra, do território e do povo que habita
aquela região desde tempos imemoriais.
Há
que se salientar que a realização desse trabalho de campo só foi possível
graças à sensibilidade e ao prestimoso apoio do Pró-Reitor de Pesquisa e
Pós-graduação da Universidade Estadual de Londrina, Prof. Dr. Mário Sérgio
Mantovani, que disponibilizou o ônibus, permitindo, assim, a realização dos
trabalhos de pesquisa. O grupo que viajou para o Contestado agradece a hospitalidade
e o carinho por parte do prefeito Raul Ribas Neto, do jornalista João Batista
Ferreira dos Santos (JB) e seus filhos, do ex-prefeito Nelson Castilho e seu
filho Adilson, Vicente e Vicentinho Telles, Márcia Schuler e demais
autoridades, estudiosos e músicos contestadenses. Cumpre agradecer aos
motoristas Alex Rubo de Sá e José Airton Pereira, da UEL, que tão bem conduziram
a viagem pelas terras outrora manchadas de sangue, pelo genocídio do
Contestado.
Porém
nossos agradecimentos mais profundos se estendem aos munícipes de Matos Costa,
por meio da atual gestão municipal, que não mediu esforços para que nossa
estada na cidade e visita aos sítios históricos acontecessem. Nossa mais
profunda gratidão – Nilson Cesar Fraga, Alexandre Orsi, Ana Cláudia Duarte
Pinheiro, Camila Freres D. Mascarenhas, Fernando Fenrique M. de Moura, Carla
Maria Freres Stipp Baptista, Edgar Henrique de Castro, Edimar Eder Batista,
Edna Pereira da Silva, Evandro Gabriel Arcanjo, Gilberto Pereira Rocha de
Godoi, Heitor Matos da Silveira, Juliana Santiago de Freitas, Leandro Garcia
Niehues, Marcos Antonio Cury Harfuch, Naibi Souza Jayme, Paulo Henrique Marques
de Castro, Rodolfo Rodrigues de Souza, Sandra Maria Almeida Cordeiro, Sérgio
Kaoru Nakashima, Valquíria Pires Garcia, Viviane Custódia Borges.
* Geógrafo, Doutor em Meio Ambiente e
Desenvolvimento Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia – UEL Professor
do Programa de Pós-graduação em Geografia – UFPR. Coordenador do Observatório
do(s) Centenário(s) da Guerra do Contestado
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