Pego na curva pela
vocação
O escritor Herberto
Sales é, hoje em dia (felizmente) um dos autores brasileiros mais estudados em
universidades, e não somente do Nordeste, de onde é originário, mas de todo o
País. Isso dá a exata medida da sua importância para a Literatura nacional,
reconhecida, se não pelo público, pelo menos no âmbito acadêmico. Tenho em
mãos, entre várias outras, duas teses universitárias específicas, tratando de
aspectos particulares de sua copiosa e variada obra literária. Uma é de Andréa
Beatriz Hack, da Universidade Federal da Bahia, intitulada “A religiosidade na
obra do intelectual Herberto Sales”. A outra, é de Ângela Vilma Santos Bispo
Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco. Seu título é: “A poética da
memória: o romance de Herberto Sales”.
Tenho em mãos mais um
punhado de teses acadêmicas a propósito, todas ou de pós-graduação ou de
doutorado em Letras, com uma série de peculiaridades e características desse
inovador das letras nacionais. Não as registro aqui, não por não serem
eventualmente relevantes (todas têm grande relevância), mas pela escassez de
espaço e pela necessidade de me restringir ao essencial nestas análises que, em
momento algum, tiveram e nem têm a pretensão de esgotar o assunto. Aliás, este
é inesgotável.
Embora esta série de
estudos, com base na antologia “Histórias da Bahia” (Edições GDR, Rio de
Janeiro, 1963), se proponha, basicamente, a tratar de alguns dos principais contistas
baianos, Herberto Sales não se dedicou, “apenas” a esse gênero, o que, se o
fizesse, certamente não o desmereceria, dada a qualidade das histórias curtas
que escreveu. Destacou-se, no entanto, e, sobretudo, no romance. Mas tornou-se,
com o passar do tempo, um dos mais festejados e consagrados autores de literatura
infanto-juvenil, desafio para qualquer escritor e que poucos ousam encarar. Eu
não ousaria. Herberto, porém, encarou e se deu bem.
Escreveu, ainda, (e
publicou, logicamente) livros com descrições de viagens, ensaios e vários
volumes de memórias. Especificamente, como contista, publicou quatro obras do
gênero, a saber: “Histórias ordinárias” (1966), “O Lobisomem e outros contos
folclóricos” (1970), “Uma telha de menos” (1970) e “Armado cavaleiro audaz
motoqueiro” (1980). A maior parte, todavia, da sua extensa e eclética obra
ficcional centralizou-se no romance. E embora seja tido e havido como
ficcionista regional, notadamente da região da Chapada Diamantina,
concentrou-se, notadamente após atingir a maturidade literária, em temas das
mais variadas naturezas e zonas.
O seu premiadíssimo
romance “Além dos Marimbus”, o segundo que publicou, em 1965, trata de temática
diversa da de “Cascalho”, da qual também era “expert”: a exploração de madeira.
Ambos, porém, têm como cenário Andaraí, sua terra natal. Outro ponto em comum
entre os dois enredos é que Herberto conhecia a fundo as duas atividades de que
tratou, uma no primeiro e outra no segundo livro. Tão logo retornou de Salvador
à terra natal, foi, por algum tempo, garimpeiro. Mais tarde, foi comerciante de
madeira. Conhecia a fundo, portanto, reitero, as duas atividades de que tratou.
Ângela Vilma Santos
Bispo Oliveira, também nascida em Andaraí, reproduz, em sua tese, explicações do
próprio Herberto Sales sobre como “nasceu” o seu primeiro e festejado romance: “Comecei
a escrever ‘Cascalho’ certa noite de chuva, à luz de uma vela, em Andaraí, no
sobrado de meus pais (...) E nessa noite eu estava vivendo uma aventura nova,
aventura de um temporal e de uma chuva que eu mesmo estava fazendo, por minha
conta, no livro que começava a escrever, enquanto lá fora um temporal de
verdade e uma cheia de verdade iam encharcando a noite que enchia o meu livro –
noite de ‘Cascalho’, uma história de garimpeiros que eu não sabia onde ia
acabar e até onde ia me levar”.
Mais adiante, Ângela
reproduz a confidência de Herberto sobre o teor do seu romance de estréia: “(...)
Foi uma superposição, uma sedimentação de vivências, de coisas extraordinárias
muito ligadas a mim, e quando em determinado momento eu resolvi escrever o
livro, o livro me foi imposto por esse ‘background’ de experiências. (...) E,
naturalmente, aí sim, levado por uma posição que eu achava que devia assumir,
como um escritor em perspectiva, em relação à comunidade em que eu vivia, à
região em que eu nasci, é que eu tinha necessidade de fazer alguma coisa no
sentido de revelar ou de fazer, como eu fiz no meu livro, um tipo de denúncia
social da situação de toda uma população que vivia em condições extremamente
precárias, sob um sistema da mais incrível exploração do homem pelo homem. Mas
isso não significa partir de um desejo de denunciar para escrever o livro. Não,
isso tudo se formou ao longo do tempo e teve um desfecho natural (...)”.
A ousadia de Herberto
Sales, ao publicar “Cascalho” custou caro ao então jovem escritor. Embora seus
personagens fossem todos fictícios, vários dos poderosos da terra, dos coronéis
com seus bandos de jagunços, vestiram a carapuça e se viram retratados nas
denúncias de crimes das mais diversas naturezas que compunham o cerne do enredo.
E Ângela revela, no seu mencionado ensaio, qual foi a conseqüência para o
neófito (e imprudente?) romancista: “Não é a toa que, quando da publicação do
livro e sua repercussão em Andaraí, o escritor precisou sair ‘fugido’ para o
Rio de Janeiro, em decorrência da reação negativa das pessoas que se viram focalizadas
no romance”. Sua “fuga” trouxe, evidentemente, vantagens para a Literatura
brasileira. Caso não fizesse isso... certamente seria vítima de alguma tocaia,
coisa comum na época naquela região, que lhe daria fim à vida.
Já em relação aos madeireiros,
tratados no seu segundo livro, tão ou mais realista e denso que o primeiro, “Além
dos Marimbus”, não teve o mesmo problema em relação à ira e à violência dos
conterrâneos. Quando esse romance foi publicado, Herberto Sales já residia no
Rio de Janeiro há pelo menos treze anos.
Encerro estas reflexões
de hoje com o seguinte trecho da brilhante tese de Ângela Vilma Santos Bispo
Oliveira, seguida de uma confidência do nosso personagem, que ela cita em seu
trabalho acadêmico: “O rapaz que até os dezenove anos nunca havia confessado
qualquer interesse pelos livros, e que, por achar que morreria cedo, se
entregou à mais desenfreada boêmia, sonhando um dia ser tão somente motorista
de caminhão, se viu de repente diante de um chamamento: ‘A minha vocação
literária estava esperando por mim na curva do caminho, dentro de uma macega.
Sabia que eu ia passar por ali. Me pegou pela mão e me disse assim: Pensei que
você não viesse mais. E pela mão me levou por uma vereda cheia de espinhos, de
onde eu não podia mais voltar. A minha vocação literária me pegou numa armadilha.
Que fazer? O jeito era ir atrás dela’”.
Boa leitura.
O Editor
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.
Nenhum comentário:
Postar um comentário