quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A voz dos ossos

* Por Rubem Alves

“Nestes jardins, há vinte anos, andaram nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se contemplaram nestes lagos.
Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo,
todos nós choraríamos, de mútua pena e susto imenso.
E assim nos separamos, suspirando dias futuros...
E agora que separados vivemos o que foi vivido,
com doce amor choramos quem fomos nesse tempo antigo.”

Foi o rosto dele, envelhecido, no jornal, que me fez lembrar estes versos da Cecília Meireles. O rosto não. Pois o rosto, eu não o reconheci, quando o vi. O tempo havia deixado nele as suas marcas. Foi o nome que me deu o “susto imenso”: Geraldo Vandré. E o meu susto aumentou quando minha filha observou: “Papai, este homem deve ter a mesma idade que você... “De fato: há muito tempo, sem que sequer nos conhecêssemos, nossos muitos passos haviam andado pelos mesmos jardins, e juntos havíamos suspirado por dias futuros. Meu rosto também devia estar como o dele. Só que a minha familiaridade com o espelho, que freqüento a cada manhã, me havia poupado do susto do tempo, pois o seu trabalho aconteceu lento e imperceptível.

Havia tristeza no seu olhar. Imaginei que agora, vivendo o que foi vivido, chorava o que havia sido nesse tempo antigo.

Comecei a pensar nos jardins em que andaram nossos muitos passos. Jardins inexistentes, que moravam no mundo dos sonhos, e que se tornaram vivos pelas palavras dos poetas. Vivíamos na ilusão de que um mundo novo estava sendo gerado - como se a história estivesse grávida de beleza - e cada novo dia trazia consigo a certeza de que o momento do nascimento se aproximava. Estávamos perdidamente apaixonados pela história – nossa amante - e cada gesto era um poema de amor para a bem-amada cujo ventre víamos crescer. Geraldo Vandré foi um dos profetas daqueles tempos - e o Brasil inteiro cantava com ele: “Caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, somos todos irmãos... Ei! Vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.“ Era o sentimento embriagante de que participávamos da tarefa gigantesca e linda de criar um país novo que correspondesse aos nossos sonhos. E como felicidade é a experiência indescritível do sonho abraçando o objeto do seu amor, cada momento - com seus sofrimentos e terrores - era vivido como um aperitivo da felicidade. Sentíamo-nos como músicos de uma grande orquestra cujo coro se preparava para cantar o coral triunfante do último movimento da Nona Sinfonia: “Alegria! Alegria!/ Tu, centelha divina! Embriagados com fogo/ entramos nos teus altares!/ Tua magia une/ o que o passado separou:/ todos os homens serão irmãos/ quando tuas asas se abrirem!/ Abraçai-vos, milhões!” (Schiller).

Os sonhos foram belos, deram-nos alegria e razões para viver e lutar, mas os caminhos foram equivocados; não conduziram a nada. Talvez esta seja a razão para o olhar triste do Geraldo Vandré. Talvez seja esta a razão para o olhar triste de todos os poetas. O Fernando Pessoa se dizia triste como um pôr-do-sol... Vinícius confessava sentir uma enorme vontade de chorar diante da beleza. E a Adélia Prado afirma num dos seus poemas: “Toda alegria é tristeza: é o que mais punge”. É que a beleza é uma estrela luminosa e distante, e nós não temos asas.

Hoje restam-nos os ossos dos que se sacrificaram pelos sonhos. Desenterrados anônimos de suas sepulturas, os cientistas universitários estão fazendo um grande esforço para descobrir os nomes a que respondiam, quando vivos. E parece que estão sendo bem-sucedidos. Este era o João, esta era a Maria... Muitos anos atrás tive a louca idéia de fazer um curso de Anatomia. Sobre as mesas metálicas, os membros: pernas, braços, cabeças, cérebros... Os bisturis penetravam nas linhas dos músculos e fibras, até atingir os ossos. E assim se pensava entrar nos segredos do corpo. Mas o meu pensamento divagava, e eu imaginava o que eles teriam feito, quando vivos: os caminhos que tinham percorrido, os abraços de amor, o sofrimento, os sonhos. Lembrava-me da observação de. Merleau-Ponty, de que um cadáver é um lugar sagrado, pois ele é mais que um corpo morto: é um texto silencioso cheio de mensagens secretas. Como o disse César Valejo, “su cadáver estaba lleno de mundo”. Eu pensaria nos mundos que haviam morado naqueles corpos esquartejados e que haviam dado sentido às suas vidas. E eu imaginei que os ossos não se contentariam apenas com a seca redescoberta dos seus nomes. Gostariam de poder contar a sua história, de revelar, aos que agora vivem, os sonhos que um dia lhes trouxeram alegria. Somente assim, pela memória dos sonhos esquecidos, os mortos voltam de novo a viver. Porque, não raro, os vivos precisam ser ressuscitados pela voz dos que já morreram: Os mortos viram mundos que os vivos nunca viram. As rotinas do cotidiano nos dizem: “Esquece!” Mas os ossos dos sacrificados retrucam: “Lembra-te!” Cada osso seco desenterrado, cada membro esquartejado sobre a mesa metálica, é um mistério eucarístico. Quem o diz é o padre Antônio Vieira, num dos seus mais belos sermões: “Os discursos de quem não viu, são discursos; os discursos de quem viu são profecias. Os Antigos, quando queriam prognosticar o futuro, sacrificavam os animais, consultavam-lhes as entranhas, e conforme o que viam nelas assim prognosticavam. Não consultavam a cabeça, que é o assento do entendimento, senão as entranhas, que é o lugar do amor; porque não prognostica melhor quem melhor entende, senão quem mais ama. E este costume era geral em toda a Europa antes da vinda de Cristo, e os portugueses tinham uma grande singularidade nele entre os outros gentios. Os outros consultavam as entranhas dos animais, os portugueses consultavam as entranhas dos homens. A superstição era falsa, mas a alegoria era muito verdadeira. Não há lume de profecia mais certo no mundo que consultar as entranhas dos homens. E de que homens? De todos? Não. Dos sacrificados. Se quereis profetizar o futuro, cousultai as entranhas dos homens sacrificados: consultem-se as entranhas dos que se sacrificaram e dos que se sacrificam; e o que elas disserem, isto se tenha por profecia. Porém, consultar de quem não se sacrificou, nem se sacrifica, nem se há de sacrificar, é não querer profecias verdadeiras; é querer cegar o presente e não acertar o futuro.”

Acho que compreendo o olhar triste do Vandré, o olhar triste de todos os poetas. É que eles vêem coisas que não vemos. Eles contempIam as entranhas dos sacrificados, comem os seus sonhos. Mas acho que entendo também a razão da alegria que mora em todo poema: é que os sonhos não morrem nunca. Eles são
eternos. Em cada poema existe sempre a esperança da ressurreição.

Vandré: não fique tão triste assim Suas (nossas) canções voltarão a ser cantadas.

* Escritor, teólogo e educador, membro da Academia Campinense de Letras

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