* Por Risomar Fasanaro
Ela não chega de repente. Antes estende uma nuvem cinza que invade a casa. Tudo perde o brilho: os móveis, os bibelôs. É como se há anos a casa estivesse abandonada, e a poeira cobrisse tudo.
Mas não é essa poeira que todos nós conhecemos, é algo mais denso, mais forte que nos entra pelos poros, e vai nos tomando aos poucos, em compasso de espera, até que ela chega. Inteira. E nos encharca por inteiro.
A morte. É assim que a sinto. A casa antes tão clara, tão cheia de luz, onde o vento entra balançando as folhas das plantas, às vezes tão forte que derruba algo, de repente paralisa tudo. Tudo se cala.
Foi assim que ficou a casa com a partida do meu irmão. Aquele irmão que era só silêncio. Que de tão calado, eu dizia – antes de casar ele falava pouco, agora ficou mudo. E todos riam dessa verdade tão dura.
Mas havia os momentosraros em que ele falava. Era quando íamos à sua casa e ele conversava conosco todo tempo, a ponto de a mulher ficar enciumada: “com os irmãos tem assunto....” Mas não era só com os irmãos, havia também os amigos queridos com quem ele tinha muito assunto: Emílio Pansa, Joel de Godoy, Fiori, e vários outros. Falavam de fotografias, de pescarias, de viagens à Amazônia, ao Brasil central...
O que guardaria ele dentro daquele coração de criança, incapaz de uma palavra áspera, de um gesto de desagrado, de um momento de insensatez?
O que sentiria ele com aqueles olhos expressivos, extremamente escuros, ao ver as barbáries do mundo, se ao ver uma formiga entrar na sala, levantava-se, deixava o que estivesse fazendo, para levá-la até à rua, para que ninguém a esmagasse?
Ele que guardava as sementes de todas as frutas que comia, que as plantava para doar a quem tinha terra, já que nos últimos tempos morava em uma casa sem quintal?
Lembro-me de que nos anos 80 ele sabia de cor quantas árvores havia na rua Pedro Fioretti, e em contagem regressiva, lamentando muito, ia me contando uma a uma quantas árvores tinham sido abatidas, até que nenhuma mais houve e ele se calou.
Era assim meu irmão. Com sua câmera fotográfica gostava de captar os pequenos brotos que teimosamente nasciam dos troncos cortados, para mostrar a força da vida. Tanto quanto eu, revoltou-se quando dizimaram as 3.400 árvores da reserva atlântica que havia na cidade. Ouvi dele um “longo” discurso de protesto: ” absurdo”, que repetiu três vezes. Foi a única ocasião que vi a fúria em seus olhos. Olhos que primavam por uma “ternura sem igual” como disse sempre minha amiga Juçara Rodrigues. Aqueles olhos falavam, não precisavam de boca.
Com ele aprendi muito cedo a amar os indígenas. Todos os anos, quando solteiro, ele ia a Goiás, e ficava entre os carajás. De lá trazia peças de arte deles. Nos anos 60 ganhei dele duas peças em madeira que guardo como relíquia ( e é).
Ao receber o título de cidadão osasquense, no ano passado, chamado a falar ele fez um longo discurso. Disse aos presentes: “muito obrigado”. Era assim meu irmão que partiu.
Enquanto o outro, Paulo, esbanja notas musicais em seu bandolim, e as duas irmãs falam sem parar, ele nos ouvia e se calava.
Meu irmão Rômulo fotografou esta cidade palmo a palmo, de ponta a ponta, desde os 14 anos. Difícil para todos nós da família, percorrê-la agora, pois a lembrança dele está em cada rua, em cada esquina, em cada viaduto...
* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Blog http://risomarfasanaro.blogspot.com (Risomar)
Como é bonita a nossa individualidade com as nossas particularidades que agradam uns e desagradam outros. A força da morte foi muito bem exposta por você. Ela entra nos poros e causa um tremor, e um arrepio gelado. Meus pêsames, Risomar, e descanse em paz, Rômulo! E espero que o seu retorno seja permanente.
ResponderExcluirQuerida Risomar, em primeiro lugar, aceite minhas sinceras condolências. Em segundo, reitero, de público, apelo que já lhe fiz em particular, para que se reintegre, e em definitivo, a este nosso “bando de Quixotes”, composto pelos que amam a Literatura e procuram cultivá-la e difundi-la. Sua inteligência e sensibilidade só enriquecerão este nosso grupo de idealistas, de escritores que confiam em um Brasil e em um mundo melhor. Aceite o sincero preito de admiração e carinho de quem aprendeu a estimá-la como a uma querida irmã. Um grande e fraterno abraço!
ResponderExcluirAssociando-me sentimento de dor e pesar motivo falecimento vosso irmão, apresento sinceras condolências família enlutada.
ResponderExcluirReitero as palavras do nosso querido editor. A volta à coluna "Tecelã de emoções", seja constante no nosso convívio literário.
Abração, escritoramiga!
Obrigada, amigos,pelo carinho, pela atenção!
ResponderExcluirMeu abraço e minha gratidão a vocês!