sexta-feira, 30 de maio de 2014

Solicitação de amizade...

* Por Eduardo Oliveira Freire

"Seu eu do passado quer ser seu amigo"

Desculpa, mas não quero contato contigo. Você ao saber do seu futuro, que sou eu, fará mudanças no passado e, aí, não serei mais como sou e sim outro que você quer ser.

Meu instinto de sobrevivência está em alerta. O que está feito, tá feito. Tanto minhas alegrias quanto as cicatrizes causadas por meus erros ou desventuras fazem parte de mim.

Enfim, não quero desaparecer, transformando-me em algo parecido ao ideal que você (eu antigamente) tanto almejava na época.

* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/



Solidão e solidão

* Por Alberto Cohen

Quero de volta a solidão antiga,
que era arredia, mas se fez amiga
dos sobressaltos de fechar janela
para que o sol jamais tocasse nela,
trazendo uma esperança de sorriso.
E sendo amante e sócia construía
um mundo enorme de espaços pequenos,
aonde a multidão de muitos menos
tornava-se bem mais pela poesia.
Que serventia tem essa de agora,
que, arrogante, chegou quando vieste?
A solidão inútil que trouxeste
para expulsar a minha solidão
tão triste, mas com gosto de verdade,
tão velha que de mim tudo sabia,
tão livre que era a própria liberdade.

* Poeta e escritor paraense


Cuidado no tempero

* Por Cecília França


Beth imaginava aquele encontro há pelo menos dois anos, desde que aquele par de olhos matadores entrara no escritório e em sua vida. O dia passara voando, embalado por sua ansiedade, e nem lhe dera tempo para uma escova nos cabelos. Fazia agora a última revisão dos itens que garantiriam o sucesso da noite – ao lado de seu pretinho básico.

No canto da mesa, o vinho tinto aguardava pelo prato principal. Claro que ela havia pesquisado as preferências de seu candidato e preparara o camarão quase na hora marcada para garantir que estaria com sabor de fresco. Soubera que Carlos era daqueles que se deixavam fisgar pelo estômago.

A dez minutos da hora marcada, soou a campainha. Ela já ia correndo para a porta quando se notou de chinelos e deu meia volta rumo ao quarto. Não se lembrava de ter sentido agonia igual nos últimos vinte anos de vida! Ainda teve tempo de olhar-se mais uma vez no espelho e ficou satisfeita com o que via. Seu sorriso habitual estava ainda mais escancarado.

Abriu a porta de maneira paciente. Carlos mostrava-se elegante – como ficaria até mesmo de bermuda e chinelos. Vestia paletó marrom por sobre a camisa branca semi-aberta, traje que combinava perfeitamente com seus olhos de mel. Foi ele quem disse "oi" e beijou-a na face levemente.

Convidou-se a entrar enquanto Beth ainda sorria tentando, sem sucesso, não parecer boba. Ele já sentara no sofá quando ela ofereceu-lhe um drinque ao som de Frank Sinatra, o que o deixou extasiado – sim, ela investigara a fundo a vida dele. Conversaram por mais de meia hora sobre seus relacionamentos passados, os boatos do escritório, seus hábitos, até que chegaram ao fatídico momento de silêncio, que ele quebrou confessando-lhe sua atração por ela.

Beth quis pular o jantar e partir para a sobremesa, mas manteve-se quase inabalável e pediu-lhe que sentasse à mesa. Ela já havia pegado o saca-rolhas quando ele ordenou que deixasse a parte braçal com ele. Como ela previa, era um perfeito cavalheiro.

Sua salada fez o sucesso aguardado e era hora de arrematar a boa impressão com o prato principal. Salpicou cebolinha sobre o camarão com batatas e pousou a panela na mesa. Carlos fez questão de servi-la primeiro e ela pediu que provasse antes e lhe desse o veredicto. Ele a encarava enquanto levava o garfo à boca insinuando um sorriso safado. Abocanhou o camarão com voracidade mantendo o olhar fixo no dela.

Ela já estufava o peito à espera dos elogios quando a expressão de satisfação no rosto de Carlos foi esmorecendo. Ele mastigava cada vez mais devagar e por fim manteve a boca estática; seu olhar agora estava baixo, colado no prato. Ela tinha a impressão de que ele engasgara. Perguntou-lhe o que havia de errado enquanto ele secava a taça de vinho e apontava para o paletó. Rapidamente ela provou o camarão e entendeu. O gosto era de puro sal.

Carlos, a essa altura, tossia continuamente e sua face era de um vermelho rubro. Ela começou então a desferir desenfreados tapas em suas costas sem ouvir suas súplicas, entre uma tosse e outra, para que parasse. Só aí ele conseguiu, enfim, tirar um comprimido do bolso do paletó, tocou-lhe garganta adentro e tomou mais vinho.

A crise passava aos poucos enquanto Beth tagarelava dizendo que não entendia como aquilo acontecera e mentindo que camarão era sua especialidade, que nunca errara na cozinha, e tal. Falava tanto que mal viu quando Carlos pegou seu paletó e retirou-se, ainda tossindo, agora mais espaçadamente.

Beth investigara suas preferências, porém, esquecera-se de especular sua ficha médica, que diagnosticava hipertensão. Diante do fiasco, pegou-se sozinha, em pé na sala, olhando para a salmoura que se assemelhava a camarões e formulando um método infalível para evitar outra gafe. Seu próximo primeiro encontro seria em um restaurante.

* Jornalista

Numa noite qualquer

* Por Adailton Bastos

Diante de uma
folha em branco,
ainda não há pranto
e nem encanto...

Busco uma palavra
para ser feliz,
que escorrega por um triz
numa rima infeliz!

Caminho até a janela
fitando um vazio infinito:
A chuva cai!
A noite é obscura e turva!
Hoje as estrelas não
brincam no meu céu!

O vazio parece infinito...
Se não há encanto
há pranto,
Sem poesia a
folha continuará em branco...

* Poeta, professor e escritor


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 8 anos, dois meses e um dia de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Salva pela Literatura.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczul, crônica,“Toque de amor”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, crônica, “Chuvesp”

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, crônica, “A farsa do perdão”.

Coluna Porta Aberta – Renato Phaelante da Câmara, crônica, “O Recife na MPB 2”.

Coluna Porta Aberta – Sally Satler, artigo “Ninguém apanha quieto, só Gandhi”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas”Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
 “Cronos e Narciso” Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Salva pela Literatura

A Literatura tem importância variável para as pessoas, dependendo de como elas encaram a arte e, sobretudo, a vida. Para uns, é uma atividade como outra qualquer, embora com suas regras e técnicas específicas. Para outros, não passa de mero hobby, tanto na qualidade de leitores, quanto (e nem sempre) de escritores. Para terceiros, é uma inutilidade em termos práticos, no caso, para os que não apreciam a leitura e não têm o mínimo talento para se expressarem razoavelmente bem por escrito. E há várias outras formas de encarar a Literatura.

Mas há os que têm nela muito mais do que uma atividade profissional. Os que não a consideram um hobby, mesmo que prazeroso e muitíssimo menos a têm como uma “inutilidade” da qual se possa prescindir. Esse grupo seleto faz da Literatura algo como religião. É sua paixão e opção de vida, à qual se dedicam de corpo e alma. Modestamente, incluo-me neste último caso, embora não tenha certeza que a exerça com competência e perícia desejáveis. Exerço-a, todavia, com plenitude e convicção, jamais considerando o meramente bom como suficiente. Persigo, sem nunca alcançar, a excelência, ou seja, a perfeição. Esse também sempre foi o caso da poetisa norte-americana Maya Angelou, que faleceu neste 28 de maio de 2014, na cidade de Winston-Salem, na Carolina do Norte onde residia, aos 86 anos de idade. Não foi revelada a causa da sua morte.

Embora para mim, o interesse por sua vida esteja ligado à sua atividade literária, essa mulher notável, negra, destacou-se em tudo o que fez. Batalhou muito para que isso acontecesse, é verdade.  Foi, por exemplo, além de escritora, cantora, dançarina, atriz, dramaturga e compositora. Nas letras, destacou-se, notadamente, por fazer da sua vida, de sua vasta e não raro dramática experiência pessoal, tema central da maior parte do que escreveu. Sua autobiografia, em sete volumes, é considerada obra-prima do gênero. E como poetisa, foi uma das primeiras mulheres negras a se tornar best-seller nacional. Aliás, foram inúmeros os feitos pioneiros em sua relativamente longa vida. Um deles foi o fato de haver sido a primeira motorista de ônibus do sexo feminino, e negra, na cidade de San Francisco. Foi mulher determinada, idealista, batalhadora. Não por acaso, assessorou dois presidentes (Gerald Ford e Jimmy Carter) e foi condecorada por outros dois (Bill Clinton e Barak Obama). Aliás, este último sempre demonstrou mais do que respeito por ela: reverenciou-a.

A comunidade negra norte-americana considera-a um ícone, um símbolo, uma fonte de inspiração e  por dupla razão. A primeira, óbvio, por ser a talentosa e bem sucedida escritora que foi. E a segunda, mais importante para essa faixa da população, por suas ações como ativista dos direitos civis. Trabalhou, por exemplo, com Martin Luther King e com Malcolm X, numa época em que lutar pela igualdade racial era não apenas temeridade, mas “loucura”, pelos iminentes riscos de vida que impunha. Como cantora e compositora, Maya sempre foi admirada no meio musical. Influenciou, decisivamente, vários cantores, como Steven Tyler, Fiona Apple e Kanye West, entre tantos outros. Uma de suas mais comentadas aparições públicas dos últimos anos foi em 2009, no funeral de Michael Jackson. Na oportunidade, rendeu derradeira homenagem ao astro pop, de quem era amiga, lendo o poema de sua autoria “We had him”.

Maya Angelou, frise-se, não era seu nome verdadeiro. Era um pseudônimo, adotado no início dos anos 50, com o qual se consagrou. Chamava-se Marguerite Ann Johnson. Nasceu em Saint Louis, no Estado do Missouri, em 4 de abril de 1928. Passou a infância, além da cidade natal, na Califórnia e em Arkansas. Quando tinha apenas oito anos de idade, passou por uma experiência traumática, que mudou por completo os rumos da sua vida. Foi estuprada pelo namorado de sua mãe. O choque dessa covarde violência sexual foi tão grande, que a menina perdeu a voz. Permaneceu por muitos anos sem conseguir falar, situação que superou, apenas, com a ajuda de uma compreensiva e providencial vizinha. E como se deu tal superação? Aí é que entra a questão da paixão. Maya foi “apresentada” por sua benfeitora à Literatura. E apaixonou-se completamente pela atividade.

Inicialmente, comunicou-se com o mundo, através de textos, em prosa. Mas não tardou a fazê-lo, sobretudo, em poesia. E quando recuperou a fala, não deixou de escrever. Muito pelo contrário. Poemas e mais poemas seguiram brotando de sua inspirada pena. E letras e mais letras de canções que se tornaram sucessos. E peças e mais peças teatrais, algumas adaptadas para as telas em Hollywood. E essa paixão culminou com a copiosa e maravilhosa autobiografia, redigida com a perícia de uma escritora que tinha algo mais, muito mais, do que o mero traquejo, o indispensável domínio do idioma e da técnica de escrever. Era irremediavelmente apaixonada pela Literatura, pela qual, confessou, em diversas ocasiões, que “foi salva”.

Dois dias antes da morte, em 26 de maio, Maya Angelou parecia bem, embora postasse, em seu perfil no Facebook, que enfrentava um “problema de saúde”. Mas não revelou qual era. Escreveu (conforme informa o portal G1): “Uma inesperada emergência médica me causou grande desapontamento por ter de cancelar minha visita ao jogo comemorativo pelos Direitos Civis da Major League Baseball. Estou muito orgulhosa de ter sido escolhida como homenageada. No entanto, os médicos me disseram que não seria aconselhável viajar naquele momento. Meu obrigado a Robin Roberts por falar por mim e obrigado a vocês por todas as suasd orações. Estou melhor a cada dia”.

Todavia, não estava melhorando como pensava. Tanto que, dois dias depois, deixou a vida para entrar na história. Junto-me, humildemente, aos milhares de jornalistas e escritores norte-americanos que nos últimos dois dias têm escrito comovidas crônicas e inúmeros necrológios em jornais de costa a costa sobre Maya Angelou. Embora cheio de imperfeições (para meu desconsolo), este é um simples, posto que comovido e sincero, tributo de um apaixonado por Literatura por alguém que nutriu da mesma paixão e que, ademais, foi “salva por ela”.

Boa leitura.


O Editor

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.             

Toque de amor

Por Pedro J. Bondaczuk

  
As vidas dos grandes ídolos – sejam artistas, jogadores de futebol, esportistas bem-sucedidos de outras modalidades, políticos ou escritores de renome – são amiúde devassadas, sem cerimônias, por determinados órgãos de comunicação, como se, pelo fato de serem figuras públicas, não tivessem nenhum direito à privacidade. Claro que têm. Multiplicam-se, inclusive, revistas e sites da internet voltados exclusivamente para esse tipo de matéria. E cada uma é mais escandalosa (e fútil) do que a outra.

É bastante conhecida, por exemplo, a ojeriza dos famosos para com os tais “paparazzi”, que não medem esforços para flagrar suas vítimas em atitudes grotescas ou comprometedoras. E quase sempre conseguem. A perseguição dos tais fotógrafos freelancers foi, inclusive, uma das causas do acidente que redundou na morte da princesa Diana, em Paris.

Boa parte das matérias dessas revistas enfoca somente banalidades. E, infelizmente, há quem goste desse tipo de informação. Afinal... há gosto para tudo (ou quase tudo). Raramente, porém, essas publicações especializadas em fofocas revelam ao público fatos realmente relevantes, que mostrem um outro lado dos ídolos e revelem como eles de fato são. Divulgam-se, apenas, seus namoros (não raro inventados), aventuras extraconjugais, brigas e outras tantas bobagens do gênero, que deveriam interessar somente aos envolvidos.

Num determinado dia de abril de 1990 (cuja data exata, infelizmente, não registrei), a Rede Globo exibiu, na sessão “Corujão”, que passa de madrugada, o filme “Toque de Amor”, cujo enredo é baseado num fato verídico, envolvendo o cantor Elvis Presley. Sei disso porque o registrei em meu diário (embora, não sei por que cargas d’água, deixei de mencionar o dia exato da exibição da película), tamanha foi a impressão que o enredo me causou. 

A história enfocava a ação de uma aprendiz de enfermagem, que fazia estágio numa instituição de recuperação de crianças deficientes. Uma das pacientes internadas era Karen, menina linda, de cerca de 13 anos de idade, acometida de paralisia cerebral. Sua doença estava em estágio tão avançado, que a garotinha era considerada doente terminal. Os médicos a haviam desenganado, garantindo que a adolescente não tinha qualquer possibilidade de melhora, e muito menos de cura. Tinha, somente, vida vegetativa. Não se comunicava com ninguém.

A jovem enfermeira, porém, discordava do diagnóstico. Tanto que decidiu tentar quebrar a barreira de silêncio que a garotinha havia estabelecido e penetrar em seu mundo, para saber o que sentia, o que queria e o que a fazia feliz. Por que? Não sabia explicar. Talvez por pura piedade. As primeiras tentativas que fez, de comunicação com a menina, foram frustrantes. A paciente não correspondeu aos seus esforços e nem deu sinal de que havia entendido o que ela lhe dizia.

A enfermeira não desistiu. Mudou de estratégia. Era um desafio que exigia não apenas muita paciência, mas, sobretudo, dedicação e amor, já que não tinha nenhuma experiência em lidar com esse tipo de caso. Afinal, era a primeira vez que cuidava de doentes. Tanto ela tentou, porém, penetrar no mundo da garotinha, que num determinado dia ocorreu um “milagre”. Karen respondeu, com clareza e concisão, a uma pergunta da interlocutora, que não cabia em si de contente.

Em suma, a enfermeira conseguiu não apenas que a adolescente se comunicasse com ela, como a levou a se interessar pelo mundo e a lutar pela vida, mesmo que a luta fosse vã. No correr dos contatos, a garotinha confessou, entre outras coisas, que tinha adoração pelo cantor Elvis Presley e que o seu maior sonho era se corresponder com o ídolo.

Estava aí outro desafio para a jovem enfermeira, quem sabe ainda maior do que o de se comunicar com Karen. Suas colegas chegaram a tentar demovê-la de sequer tentar estabelecer contato com o “rei do rock”, para não se frustrar. “Imagine se ele vai dar atenção a uma menina doente, ele que é assediado por tantas fãs e que tem tantos compromissos!”, lhe diziam, incrédulas. A enfermeira, todavia, não desanimou. Moveu céus e terra para obter o endereço do cantor. Assim que conseguiu, escreveu-lhe uma carta, em nome de Karen (foi a garotinha que ditou o que queria dizer ao ídolo) e a pôs no correio.

Os dias passavam, e nada de resposta. A ansiedade fez com que o estado da garotinha piorasse. Num belo dia, contudo, para surpresa geral, eis que chegou uma carta para a menina. E adivinhem de quem? Isso mesmo, de Elvis Presley! E o roqueiro não se limitou a uma simples e formal resposta, dessas impressas que os ídolos costumam enviar aos fãs. Teve, pelo contrário, muita sensibilidade para entender o drama de Karen e passou, desde então, a se corresponder regularmente com ela. É verdade que a doença evoluiu. Os médicos tinham razão: não havia a mínima possibilidade de melhora, quanto mais de cura. A garotinha, de fato, morreu. Mas serenamente, apertando no peito uma das tantas cartas que havia recebido do seu ídolo.

Confesso que até assistir o filme desconhecia o episódio. E olhem que havia lido centenas, quiçá milhares, de reportagens sobre o “rei do rock”, do qual era (e agora sou muitíssimo mais) admirador, a ponto de ter adquirido todos os discos que ele lançou. Por que, em vez das tantas fofocas que publicaram, essas revistas, ditas “especializadas”, não trouxeram a público essa história? Talvez porque não envolvesse nenhum escândalo! Perderam, dessa forma, a oportunidade de exercer o verdadeiro jornalismo. Pois, para mim, considero a atenção que Elvis dedicou a Karen a maior das suas bem-sucedidas obras. Ou não foi?!


* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk