quarta-feira, 2 de julho de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 8 anos, três meses e três dias de existência..

Leia nesta edição:

Editorial – O futebol tem lógica?.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica “A pressa é inimiga da vida”..

Coluna Da terra do sol – Marco Albertim, conto “Presa fácil”

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Rugas”..

Coluna Porta Aberta – Clóvis Campêlo, crônica “E agora, Maria?”.

Coluna Porta Aberta – Samuel C. da Costa, poema, “Aurora outonal”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com 
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
 “Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Futebol tem lógica?

O futebol tem lógica? Essa é a pergunta que mais tenho ouvido nesta época de Copa do Mundo, que já apresentou várias surpresas, mas mostrou a prevalência de alguns favoritos de sempre. Bem, nem todos tiveram o sucesso que deles se esperava. Os que tendem a responder afirmativamente á pergunta, ou seja, que o futebol tem lógica, citam, para corroborar sua convicção, o fato das oito seleções classificadas para as quartas de final deste Mundial, sem nenhuma exceção, serem exatamente as que terminaram na primeira colocação de seus respectivos grupos na fase de classificação: Brasil, Holanda, Colômbia, Costa Rica, França, Alemanha, Argentina e Bélgica.

Quer dizer, então, que o futebol tem, mesmo, lógica? Espera lá, nem tanta! E nem sempre! Querem um exemplo? Cito o óbvio. Quem, antes do início desta Copa, em sã consciência, conseguiu prever a desclassificação precoce da Espanha, seleção que ainda é a campeã mundial até que se apure sua sucessora? Alguém pode até ter acertado, mas na base do puro palpite. Todavia, os que se dizem entendidos na matéria, ou que assim se acham, foram unânimes em apontar os espanhóis como favoritíssimos ao título. Sua eliminação precoce foi lógica? Se atentarmos para seu desempenho em campo, sim. A tal da Fúria, ou “La Roja” como prefere ser chamada agora, teve performances pífias, sobretudo no segundo tempo do jogo contra a Holanda e na partida seguinte, contra o Chile.

Contudo, se considerarmos seu potencial técnico, o talento de seus jogadores (que não pode ser ignorado e nem negado) sua desclassificação foi sumamente ilógica. E o que dizer da Costa Rica? Quem apostou em sua passagem de fase, em alguma das várias casas de apostas mundo afora, sobretudo da Europa (e refiro-me aqui à sua ida às oitavas de final), certamente embolsou uma pequena fortuna. E esta se multiplicou, ainda mais, com a classificação costarriquenha para as quartas de final. Há alguma lógica nisso? Bem, a exemplo da eliminação da Espanha, se for considerado o desempenho em campo, sim. A seleção da Costa Rica fez por merecer o que conseguiu. Porém, se forem levados em conta seu potencial técnico, seu histórico e seu retrospecto, muito aquém dos seus três concorrentes no chamado Grupo da Morte, todos eles com títulos mundiais, ou seja, Itália, Uruguai e Inglaterra, não se pode dizer, sem forçar a barra, que tenha prevalecido a lógica. Não prevaleceu.

Querem outro exemplo, mas que não seja o de Copa do Mundo? Cito o caso do Fluminense. O tricolor carioca foi o campeão brasileiro de 2012, com todos os méritos. Na competição seguinte, a do ano passado, qual era a expectativa geral? Era a de que, no mínimo, brigasse, até a última rodada, pelo bicampeonato. Isso, se houvesse lógica inflexível no futebol. Mas o que, de fato, aconteceu? O mesmo time que brilhou em 2012, foi rebaixado, no campo, para a Série B. O rebaixamento só não se consumou por causa da polêmica e incompreensível bobagem dos dirigentes da Portuguesa, que se utilizaram, sem a mínima necessidade ou vantagem, de um jogador suspenso pela justiça desportiva (Heverton) em seu último jogo, contra o Grêmio, no Canindé.

Considerando, apenas, o desempenho em campo, o vexame do Fluminense foi lógico. Mas levando em conta seu potencial técnico (e realidade financeira em relação à maioria dos seus concorrentes), o que ocorreu com o clube das Laranjeiras foi para lá de ilógico. Querem um último exemplo, entre os muitos que podem ser citados? Quando o Campeonato Paulista de 2014 começou, quais eram os times apontados como favoritos, principalmente após a metade dessa competição? Eram, pela ordem, Santos e Palmeiras e, um tanto remotamente, o São Paulo. O todo poderoso Corinthians estava mal e ninguém apostava nele. Mas, igualmente, nem de longe o Ituano era mencionado entre os favoritos. Os prognósticos eram que, se o clube interiorano escapasse do rebaixamento, já estaria no lucro. E o que aconteceu? Nem é preciso repetir.

De novo, se for considerado exclusivamente o desempenho em campó, houve lógica na conquista do Ituano. Contudo, se a consideração for por qualquer outro parâmetro de avaliação (como potencial técnico, poderio financeiro, força da torcida etc.etc.etc.), o resultado final foi rigorosamente ilógico. O brasileiro até cunhou um termo para caracterizar esses casos surpreendentes: “zebra”. Qual (ou quais) a conclusão (ou conclusões) que se pode (ou que se podem) extrair do exposto? A principal é que a lógica, e isso se houver, pelo menos no futebol, é relativa. Não é, pois, nem remotamente, parecida com um teorema de matemática ou com alguma lei da física, em que o resultado é sempre o mesmo, desde que ocorram determinadas condições. Nesse apaixonante (e não raro, decepcionante) esporte das multidões, sua ocorrência é relativíssima.

Caso se confrontem dois times estratosfericamente distintos em qualidade, por exemplo, digamos o Cruzeiro, que está voando no Brasileirão de 2014, e o Arranca Toco Futebol Clube, é provável que em cem jogos, o esquadrão estrelado de Belo Horizonte vença noventa e nove. Todavia, lá um belo dia, sabe-se lá por que, o cavalo pangaré tem desempenho de puro sangue e... vence. Onde a lógica? Lógico seria o Cruzeiro ganhar “sempre”. Posso até estar sofismando, mas creio que demonstrei que o futebol não tem lógica. Não, pelo menos, a absoluta, que nos permita prognosticar resultados sem a mais remota possibilidade de erro.

Boa leitura.


O Editor

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.                 
A pressa é inimiga da vida


* Por Mara Narciso

Tornou-se chique fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas é indispensável reforçar a conduta alardeando que não se tem tempo para nada. Correr esbaforido virou modus operandi. Quem tem tempo é gente sem importância, desocupada. Para seguir a tendência é preciso mostrar-se agitadíssimo, atrasado, correndo sem poder nem piscar. Para agenda cheia, um conselho banal, por ser senso comum: fazer cada coisa na sua hora, não pensando nas seguintes, seguindo o horário, sem aflição. Esse procedimento reduz a adrenalina e a palpitação.

Ainda bem que o Facebook destruiu o Messenger e os e-mails, pois são dois itens a menos na agenda. Coisa antiga checar e-mails, e mais ainda, ficar dez horas seguidas ou mais falando/digitando ao MSN ou Skype. Não sobrava tempo nem para comer, tomar banho e dormir. Por outro lado, o Facebook escravizou uma parte dos internautas, que dizem estar enjoados, por ser uma rede social com ações repetitivas, gente se expondo para aparecer, virou outro Orkut, ninguém é original, que está politizado e agressivo. Porém, ainda que contrariado, o usuário não sai de cena. É o tempo todo on line.

Lembrando antigamente, na década de 1960, quando quase nada era mecanizado (hoje digitalizado), as pessoas faziam tudo “no braço” e tinham tempo para conversar na porta de casa, quando o sol esfriava. O rol de obrigações parecia menor.

O dia está a cada vez mais curto, porque depois do grande tsunami depois do Natal de 2004, houve uma alteração na inclinação do planeta, e isso pode ter mudado sua rotação. A Terra gira em torno do seu próprio eixo a 1675 km/h, o que é uma velocidade considerável. Isso não é tudo, pois a quantas andam as prioridades e as mudanças de hábito? Não desgarrar do celular é a coisa mais importante do mundo? E do computador? Quando Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, chamou a televisão de máquina de fazer doido, nem de longe poderia imaginar quantas máquinas enlouquecedoras surgiriam.

Muitos se agarraram à pressa, fazendo dela sua razão de viver. Contraditório? Aos que fizeram da falta de tempo seu orgulho, quase seu deus, sabem também que o stress que isso acarreta faz mal. De que adianta querer ser rápido, quando se tem um trânsito para enfrentar? É obrigatório sair mais cedo. Montes Claros, uma cidade de porte médio, na qual há cinco anos era possível ir de um bairro mais próximo ao centro em cinco minutos, hoje, o tempo necessário triplicou. Outra coisa que destroi qualquer pressa é uma colisão no trânsito. Adeus agenda! E que não seja com uma moto.

A solução encontrada por algumas pessoas para driblar o excesso de tarefas é dirigir falando ao celular, largar da televisão, em frente da qual passaram longos anos e ir para o computador. Cada um da casa diante de uma tela. Conversar, só via texto. E para ganhar tempo, há quem esteja no médico, e durante a própria consulta, fique digitando mensagens. Isso sim é aproveitar o tempo com qualidade.

Comer devagar, mastigando e saboreando. Quem faz assim? Sugestões para fazer o tempo render: só se deitar quando estiver caindo sobre o teclado, acordar duas horas mais cedo (com sono para mais duas horas), tomar banho bem rápido (no inverno não tomar - há pessoas que ficam sem lavar a cabeça mais de 15 dias, observem), e só ir ao vaso sanitário no momento crucial. Cuidado para o celular não cair dentro dele.

Difícil é entender o endeusamento atual da correria. Contrasenso é beber três ou quatro litros de água por dia. Essa panacéia não deixa a pessoa sair do banheiro, então despeça-se da tranquilidade. Claro que é bom ter tempo, ou fazer esse tempo, para dar atenção ao outro, abraçá-lo, ouvi-lo, compreendê-lo, aceitá-lo com suas falhas e erros, perdoá-lo. Tão útil escutar as crianças, dar-lhes o devido valor, assim como não achar bobagem o que diz e sente o idoso.

É agradável abrir a janela e sentir o ar fresco da manhã, ouvir o canto dos passarinhos, ver a lua, caminhar, olhar a paisagem, ouvir música, assistir um filme, ler um livro. É tão melhor degustar, sorver, cheirar, apreciar, utilizando-se de verbos suaves. Assim como amar, olhar nos olhos, beijar com calma. Fazer tudo devagar, sem consultar o relógio, isso sim, é luxo só.


*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”   



Presa fácil

* Por Marco Albertim

O apito vindo da fábrica estourou primeiro nos ouvidos de Mousinho. Convencera-se disso há pouco mais de três meses, quando fora despedido, surpreendido pelo dedo em riste do chefe da manutenção, por ter desbastado um milímetro a mais, no torno, um pino de aço que serviria de ligação entre a base de um estampo e sua navalha, acima, para o corte de chapas de ferro, quadradas, pequenas, com laterais de igual comprimento.

Acostumara-se ao estouro do apito enquanto estava empregado, visto que a sonoridade alegre vinda do cimo do bueiro, saudava-o, lembrando a utilidade de sua vida, inda que a rotina dos dias fosse tão cinzenta quanto as paredes de adobe seco da casa onde morava.

Agora, sem a agudeza de antes, a sirene estrugiu densa, trazendo o dorso largo abaixo do rosto duro, frio, do chefe da manutenção. Mousinho não se olhou no espelho, não precisava; o couro seco de sua pele morena contraíra, feito uma aderência lenta, sem freios, à mesma cor ressecada das paredes sem reboco, só com a crosta com pontas desiguais, de baixo para cima do teto, junto às telhas expostas.

Pensou em tomar um café, pensou com olhos sombrios e selvagens, sorvendo o cheiro quente, fumaçado, vindo dos fundos da casa. Ao lado da cozinha sem móveis, a vizinha já espremera o pano de café, despejara-o no bule de ágata, pusera-o na mesa onde se juntava ao marido de bigode basto, tão escasso de palavras que perdera o jeito de dar bom-dia. E ainda os dois filhos, enteados dele; o mais velho, cobrador de ônibus, tão tagarela, que se referia ao dinheiro passado em suas mãos, como se estivesse amealhando para si próprio. O colóquio, inda que seu salário fosse de curta duração, também bulia de cobiça os olhos da mãe e do padrasto. O filho mais novo, submisso ao silêncio impositivo do padrasto, mastigava mudo o cuscuz quente com a língua já encourada pela comedoria muita, sem a sustância de proteínas.

Mousinho teve o cuidado de pentear os cabelos com a escova de cerdas grossas; o penteado para trás serviria de disfarce às maquinações mal contidas na fronte de fauno. Depois, o bom-dia na voz submissa, deixando escapar um indício de urbanidade, ocultaria o rebuliço dos sonhos já esquecidos. Ele passou rumo ao banheiro de uso comum; impossível não se dar conta dos urdumes daquela família, àquela hora também espreitando a marcha sem surpresas do dia mal anunciado; sobretudo os urdumes de Tércia Tiara, a quem cabia receber o dinheiro do aluguel pago por Mousinho. Despedido há três meses, não dera conta do ócio involuntário à proprietária cinquentona, de cabelos lisos, estirados, escondendo a nuca ainda lisa, resistente à tensão de segurar com uma das mãos a alça dos baldes cheios d´água, puxada com a ajuda da bomba manual nos fundos do quintal.

Mousinho cobriu-se da água esfriada da manhã sem calor. Quando saiu do banho, aliviou-se vendo a cadeira vazia do velho que nunca respondera a seus cumprimentos; a do velho, a do enteado falastrão e a do caçula com o juízo tolhido pelo medo inconfesso. Só Tercia Tiara, ainda recolhendo pratos, talheres, uns restos do cuscuz, e prestes a fazer uso da bomba na beira do poço, na lavação das louças.

Mousinho, com o que recebera da indenização, não deixara de pagar o aluguel. Tércia Tiara, sem contar a pecúnia recebida, recolhia-a ao bolso do vestido, na altura da coxa grossa, do mesmo marrom escuro de seu queixo torneado.

O macacão de uso na fábrica, Mousinho pendurara-o depois de lavado, de espremer com sabão grosso as camadas de óleo e graxa no dia a dia gorduroso na oficina de manutenção da metalúrgica. A secagem no varal dos fundos, beneficiava-se do mesmo calor nas calcinhas de largura plena de Tércia Tiara.

Ele saiu. O macacão ficou para trás, guardando o viço da limpeza e a impropriedade de não voltar a se engordurar de óleo. Foi para a frente da fábrica, ali mesmo, a dois quilômetros da rua onde morava, no meio da população rala da Vila do Pirambu. Pendurada no gradil de ferro, na entrada da fábrica, viu a placa anunciando vagas, sem precisar o ofício; por certo mais um ferramenteiro, com habilidades no fabrico de peças com medidas de precisão. Um milímetro a mais no desbaste do aço bruto, o anúncio de outra vaga seria posto sem pompa, inda que com o cálculo seguro de quem mira o primeiro desempregado do outro lado da rua.

Sentou-se no banco do abrigo da parada de ônibus. Trocou duas palavras com a velha a quem comprara fiado pães, bolachas e doces. A velha cumprimentou-o feliz com os olhinhos miúdos. Ofereceu-lhe café sem nada cobrar, posto que soubera de sua dispensa.

Ao meio-dia, a sirene estrugiu o aviso para o almoço. O chefe da manutenção, sem fazer uso do refeitório, cruzou a rua para subir no ônibus, almoçar em casa.
 - Ainda está desempregado? – quis saber de Mousinho.

Viu no desânimo do ex-subordinado, uma presa fácil para entregar à gerência uma captura pouco onerosa à folha de pagamentos.
- Tenho uma vaga para você. Para trabalhar como ajudante de ferramenteiro, e não como ferramenteiro...

*Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem três livros de contos e um romance.


Rugas

* Por Núbia Araújo Nonato do Amaral

Não conto tuas rugas, nem dobras.
mal reparo no tremor
de tuas mãos vacilantes.
Prendes minha atenção a cada letra
decifrada,a cada palavra emoldurada.
Tua poesia ressoa pujante,
não recua, nem envelhece...


 * Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
E agora, Maria?

* Por Clóvis Campêlo

Tudo parecia pronto para uma tarde festiva e vitoriosa, quando Maria, a colombiana, apareceu na sala vestindo uma camiseta vermelha, destoando da predominância amarela que ali se instalara. Talvez um descuido, talvez um ato falho, mas a situação gerou muitas brincadeiras e desafios.

Começa a peleja e logo a seleção brasileira faz um a zero, num gol meio malassombrado de David Luiz. Logo, no entanto, manifesta-se na Canarinha a síndrome da bunda na parede. Tentamos garantir o placar minguado na defensiva, esquecendo que a melhor defesa sempre é o ataque. Como se já não bastasse jogarmos com dois volantes pouco criativos (Luís Gustavo e Fernandinho, que não repetiu a atuação do jogo anterior contra camarões), temos um meia, Oscar, sumido no jogo e esquecido em campo. O Chile empata, numa bobeira de Hulk (logo ele, o super-herói brasileiro!) e ficamos com a impressão de que o nosso escrete sentiu a porrada. Começa a pressão em cima de Maria, a colombiana, para que trocasse a camiseta vermelha por outra amarela. Maria sucumbe à pressão brasileira e faz a troca, mas a nossa seleção parece não ter entendido os anseios da torcida e continua mal na partida. Termina o primeiro tempo com um certo alívio para nós, brasileiros. Volta a esperança de que, na segunda etapa, Felipão (como se ele fosse um grande estrategista!) acerte os ponteiros da seleção e consigamos praticar um futebol digno de pentacampeões.

Porém, recomeça o jogo e, apesar da camisa amarela de Maria, a colombiana, e do suposto esporro de Scollari, continuamos mal em campo. Aumenta a pressão chilena. Parece que o nosso meio campo desaprendeu de vez a jogar. Não funciona e a todo momento tentamos a chamada ligação direta da defesa para o ataque. Isolado, lá na frente, Fred pouco ou nada consegue fazer. Recuado para buscar jogo e marcado até com uma certa deslealdade, Neymar Jr. não produz. Somos muito mais um amontoado de jogadores em busca desesperadamente do gol do que um time coeso e praticante de um futebol coletivo. Assim se encerra o tempo regulamentar e vem a prorrogação. Nela, escapamos milagrosamente da derrota com uma bola na trave no finalzinho da segunda etapa. Na cobrança dos pênaltis, porém, a nossa redenção. Júlio César se impõe e defende dois. Neymar Jr. converte a última cobrança e nos classifica para as quartas-de-finais. A emoção acumulada aflora de vez e muitos não conseguem conter o choro. Escapamos por pouco.

Séria, Maria, a colombiana, a tudo assiste. Na sequência da tarde, vê a Colômbia derrotar o Uruguai com uma exibição de gala de Cuadrado e James Rodriguez. Com a classificação inédita, a Colômbia será a nossa adversária nas quartas-de-finais.

E agora, Maria?

* Poeta, jornalista e radialista, blogs:


Aurora Outonal

* Por Samuel C. da Costa

Para Mariana P. Monzon

Em céus noturnos
Um brilho raro
De raios paralelos e alinhados
Que mudam inconstantes
Em uma iluminação ultravioleta
 De luz violeta, azul...

Que sopre o vento solar
Que trazem o glorioso caos
Na ionosfera terrestre
No campo magnético terrestre

Nem Júpiter, Saturno...
 Marte ou Vênus!
Pois és tu...
 A minha doce e delicada Valquíria
De brilho raro e difuso
Como uma cortina estendida
Em meio a elétrons, para além de prótons
E partículas alfas...
Em meio a tempestades solares...
Tempestades magnéticas
Que colidam os átomos
Na atmosfera terrestre
Que formam a ionosfera terrestre...
Que cirandam os doces distúrbios
Terrenos
Que criam doces confusões...
Em vidas pequenas e frágeis!

És a minha misteriosa e nebulosa Valquíria
Perdida na magnetosfera...
Em um fluxo rarefeito de plasma quente
Perdida em meio ao gás de elétrons livres e cátions
Que nos brinda o astro rei e sua coroa solar

Percorres gloriosamente...
 As regiões longínquas aurorais
Nos pontos de auge boreais e austrais
Pontos remotos
Em tempos remotos

Nem Júpiter, Saturno, Urano
Netuno ou Mercúrio
És o meu anjo divinal
Que me atormenta
Que me apequena

És o vento solar
A aurora que ilumina o céu de Júpiter
Que sopra na ionosfera de Io
Que irradia em Ganimedes e Europa
És as vulcânicas erupções em Io
Que irradia e me invadi
Enlouquece-me
Derrota-me
Vence-me por fim

Nem Galileu, James Cook,
Pierre Gassendi, Público Cornélio Tácito
Ou Edmond Halley
Explicam o efeito em mim
És a minha doce e delicada ninfa vaporosa

Que sopre o vento solar
Nem Júpiter, nem Netuno
És toda mistério
Nebulosa e solitária
Que invadi a minha pequenez cotidiana


* Samuel da Costa é poeta em Itajaí