terça-feira, 1 de julho de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 8 anos, três meses e dois dias de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Milhões de técnicos de futebol”.

Coluna À flor da pele – Evelyne Furtado, crônica, “O homem no sofá”..

Coluna Observações e Reminiscências – José Calvino de Andrade Lima, trecho de peça teatral “Trem & trens 2”.

Coluna Do real ao Surreal – Eduardo Oliveira Freire, conto, “A grande deusa”.

Coluna Porta Aberta – Emir Sader, artigo “Das pérolas que escapamos (porque a Copa deu certo)”.

Coluna Porta Aberta – José Ribamar Bessa Freire, artigo “Dersu Uzala na Copa”.


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
 “Cronos e Narciso” Pedro J. BondaczukContato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal”Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Milhões de técnicos de futebol

O Brasil tem 200 milhões de técnicos de futebol”. Perdi a conta das vezes que já ouvi essa afirmação. Bem, no que diz respeito à cifra, há imenso exagero. Embora a modalidade seja a de preferência nacional, nem todos os brasileiros a apreciam e lhe dão alguma importância. Ademais, nesses 200 milhões temos que descontar os bebês e as pessoas que vivem nos grotões mais distantes deste país-continente, sem eletricidade e, portanto, sem rádio e televisão. E sem acesso a nenhuma informação, muito menos sobre futebol. Bem, reduzamos, pois, essa cifra à metade. Digamos que o Brasil tenha cem milhões de “técnicos”, ou de indivíduos que se julgam como tal. Esse pessoal todo acha que entende de táticas e não perde a oportunidade de criticar os comandantes de seus clubes e, mais ainda, da Seleção Brasileira.

Outro reparo que faço é que acho inadequada a designação de “técnico de futebol”. Prefiro chamar essa figura o que ela de fato é: “treinador”. Por que? Porque a modalidade não é nenhuma ciência, e muito menos exata. Não envolve nenhuma técnica, ou seja, eventual conhecimento científico específico, especializado, como ocorre em tantas e tantas profissões.  O que esses sujeitos fazem é treinar suas equipes e às vezes nem isso. Não são técnicos, portanto, mas treinadores. Do que mais o brasileiro gosta é de palpitar na escalação de times e, principalmente, de seleções. Entre estes, destacam-se os que têm à sua disposição microfones de rádio e de televisão e colunas em jornais e revistas. Ou seja, os cronistas esportivos. O cidadão comum, salvo exceções, embarca na opinião deles, quando se trata de escalar, concordando ou discordando.

Não me lembro de nenhuma Seleção Brasileira em torno da qual houvesse consenso sobre os onze que deveriam ser titulares. Nem os supertimes de 1970 e de 1982 escaparam do que se convencionou chamar na gíria futebolística de “cornetagem”. Na equipe atual, que peca, sobretudo, pela inexperiência em Copas, isso não poderia faltar. E não falta. Desde o primeiro jogo, há um coro, quase uníssono, pedindo, e até exigindo, a substituição desse ou daquele jogador. O mais “repudiado” tem sido, sem dúvida, o ala direita Daniel Alves, astro do Barcelona, onde conquistou importantes títulos e é parceiro constante de Messi, a quem serviu, muitas e muitas vezes, propiciando-lhe gols decisivos e sensacionais. Mas na Seleção Brasileira... conta com rejeição quase consensual.

Outro jogador muito contestado, após o último amistoso, contra a Sérvia, é o quase menino Oscar. As críticas contra ele arrefeceram um pouco, após sua brilhante performance contra a Croácia, mas voltaram a ganhar força depois do jogo com o Chile. Os palpites na escalação não pararam (e não param) por aí. Um deles envolve Paulinho, não faz muito tido e havido como um dos melhores volantes do mundo, mas que, repentinamente, passou a não “prestar”. Isso sem falar na titularidade de Júlio César, intensamente contestada desde a convocação e pelo menos até o jogo contra a Seleção Chilena, quando impediu a precoce desclassificação brasileira.

Será que esse pessoal todo entende mais do potencial desse grupo, e do que se passa longe das vistas da imprensa e, portanto, do público, do que quem o convocou e o treina? Sabe o que se passa, por exemplo, nos treinos? Conhece o que ocorre na concentração? Tem noção do porque Luís Felipe Scolari convocou cada um dos 23 jogadores da atual seleção, de como pensa utilizar cada um deles? A resposta para todas essas questões, óbvio, é não! Caso fossem mais competentes do que o atual treinador, essa tarefa seria confiada a eles, não é verdade? Opinar é uma coisa e “exigir” que a opinião prevaleça é outra muito diferente.

Até concordo que o cerne do seu trabalho é criticar o que seja criticável. Isso, todavia, exige responsabilidade e bom senso, o que me parece que muitos não têm, ou não se utilizam deles. Ademais, quem critica tem que admitir que suas opiniões também sejam criticadas. Esses cronistas não são donos da verdade que, ademais, é conceito muito subjetivo. Que cada macaco fique no seu galho e não procurte extrapolar sua função. A escalação cabe ao treinador que, caso o resultado não seja o que esperava, arcará sozinho com as conseqüências. Aos críticos cabe concordar ou não, mas nunca tentar impor. Ou seja, não fazer nenhum “lobie” para a entrada de Fulano ou Sicrano, com a conseqüente saída deste ou daquele.

Será que já não basta a pressão que esta Seleção jovem e relativamente inexperiente vem sofrendo, pelo simples fato desta Copa ser disputada no Brasil e pela cobrança generalizada de que a ganhe, para apagar o fracasso de 1950? Esse pessoal não entende que tumultuar o ambiente, com cobranças que não lhes compete fazer, só tende a complicar ainda mais uma situação já por si só tão complicada? Não percebe que, ao agitar o ambiente, está dando munição aos adversários? Ponham na cabeça, “treinadores potenciais” (que pelo menos assim se julgam) que futebol não é ciência, e muito menos exata, mas um jogo. E que nem sempre o melhor vence. Encontrem um jeito de ajudar e se não encontrarem, o melhor que podem fazer é não atrapalhar. Criticar atos alheios, seja em que atividade for, é fácil e cômodo. Fazer melhor é que são elas, viram, duzentos milhões de técnicos de futebol (ou, para ser mais exato, cerca de cem milhões)?

Boa leitura.


O Edito

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.   ,
O homem no sofá

* Por Evelyne Furtado

Clara, entra em casa após o dia de trabalho e encontra um estranho sentado no seu sofá. Ela olha desconfiada. Ele parece bem à vontade lendo o jornal da tarde, com os pés em cima da mesa do centro. Clara não sabe bem o que fazer, pois o homem não parece ser um assaltante. Chega a pensar que entrou no apartamento errado.

Não. Ela está na sua casa e para completar aquele homem a cumprimenta,com intimidade. O que a deixa incomodada. Ele a chama pelo nome. Pergunta sobre seu dia. Ela percebe que são conhecidos, mas não consegue lembrar de onde.

A angústia toma conta dela que sai de casa correndo. Clara pega o carro e vai ao seu lugar preferido na praia. Estaciona e de repente as lágrimas começam descer sobre a sua face. Um pranto incontrolável sacode seu corpo, enquanto a memória vai voltando aos poucos.

A dor é tão forte que ela mal consegue respirar, mas ela vai entendendo aos poucos o que estava acontecendo. Naquele dia ela havia descoberto que o homem que ela amara e admirara por tantos anos não existia. Ela amara um homem honesto, carinhoso e de sentimentos nobres, porém descobrira que o homem era um impostor.

A verdade surgiu e Clara descobriu que vinha dormindo, amando e trocando carinhos com alguém que mentia e manipulava as pessoas, inclusive ela. A descoberta fez disparar um mecanismo de defesa e Clara não reconheceu seu marido quando entrou em casa há poucos minutos.

Agora entendera tudo. Não voltaria para casa naquela noite; talvez nunca mais voltasse. Mas parte de si morrera naquele dia. E ela enterraria a parte que tinha amado o homem do sofá.


* Poetisa e cronista de Natal/RN
Trem & Trens 2

 *Por José Calvino

ATO II

CENA I

CENÁRIO – O mesmo do primeiro ato.

ANOS 60:

Ao abrir-se a cortina, pela metade, devagar, é noite e se vê a Estação fechada. Flávio, envelhecido, de barba, deitado num banco da plataforma, sendo acordado por um meganha com uma lanterna iluminando o seu rosto. Chuta-o, com o bico do coturno.
MEGANHA (Arbitrário) – Não tem casa não, matuto?

FLÁVIO (Transtornado, passa as mãos na barba, limpa os olhos com as costas da mão, com o rosto encandeado pela ilumiação da lanterna que o meganha lhe dirige)- Ahn?!

MEGANHA (Irritado) – Vamos, seu porra velho... (Chuta-o outra vez e pega Flávio pelo colarinho, erguendo-o e lhe alumiando  novamente o rosto).
FLÁVIO – Ahn? (Abre a boca sem sono) Ah...Ah... diga, seu guarda.
MEGANHA (Fulo da vida, joga-o do banco abaixo) – Guarda uma porra...
FLÁVIO (Admirado, tranquilamente levanta-se) – Perdão, não sei o que dizer...(Pejorativo)... desculpe, seu polícia!
MEGANHA – Têje preso (Empurra Flávio, que cai na Plataforma, dando-lhes outros chutes e Flávio sai rebolando pelo chão. O guarda o pega pelos cós da calça, no cinturão). Vamos, “fila da puta”!
FLÁVIO (Espantado, noutro tom) – Eu sou ferroviário... me solte, pelo amor de Deus, pelo amor que o senhor tem à sua mãe.
MEGANHA (Tira as mãos do cinturão de Flávio, surpreso) – Como?
FLÁVIO (Tranquilamente, limpa a roupa e passa a mão na barba) – Sou telegrafista e quando amanhecer o dia estarei indo a uma reunião, lá no Sindicato...
MEGANHA (Baixo, a Flávio) – Olha, meu velho, vou soltá-lo, veja bem... (Temendo perder o bico) ... sou casado e novato na Companhia e não quero perder esta “boca” (Cria coragem). Se eu perder, ajustará contas comigo, está ouvindo, velho?
FLÁVIO  (Benévolo) – O senhor não se preocupe. Eu sei o que é isso e que a culpa não é do senhor...(Parodiando João Cabral de Melo Neto) “Hoje, o grande doente é o Brasil, com mais fome, mais violência e mais doenças”. Até, amigo!

Saem pela plataforma abaixo. A cortina abre-se totalmente. O meganha gesticulando para Flávio pausadamente, pára e depois ambos seguem seus destinos, desaparecendo. Enquanto isto, na Rotunda, telegrafistas ferroviários vão se reunindo, conversam juntos com estudantes jovens em geral).

2º TELEGRAFISTA – Os ferroviários irão entrar em greve no dia 21 à zero hora.
3º TELEGRAFISTA – Vamos lutar. A gente só é telegrafista na licença do trem, mas no ordenado somos G-5, “golinha”, “rola-voou”, et cetera.
4º TELEGRAFISTA – Nós não somos considerados do quadro. Estão chamando a gente até de “amostra grátis”! É um verdadeiro trem de apelidos...
5º TELEGRAFISTA – A minha carteira do Ministério do Trabalho se encontra na Inspetoria há dois anos!!!
6º TELEGRAFISTA – A reunião tem é pouca gente, né?
7º TELEGRAFISTA – É medo de perder o emprego, e quem mora na casa da Companhia, aí já viu, aceita e concorda com tudo. Eles enganam direitinho.
2º TELEGRAFISTA – Será que vai dar “QRM”, na greve?
2º SINDICALISTA – Vamos reivindicar tudo isto: bom salário, etc...
3º SINDICALISTA – A reunião no Sindicato é contra o pessoal do “Trem do Chaleiras”, que querem furar a greve como na outra vez. A gente se encontra lá (Sai).
Flávio (À platéia, em voz alta) – Vamos ver se o Sindicato desta vez funciona. Vocês devem se unir e votar no nosso candidato...

Aplausos

Platéia

JOVEM CABELUDO (Entra com a bandeira do Brasil, revoltado) – Era bom uma greve geral moralizada, para dar uma lição no “Trem dos Corruptos”.

Vozearia

VOZES – Viva, viva!!!

PLATÉIA (Exalta-se novamente).

Obs: Quanto à provocação e participação da platéia, o critério deverá ser da direção , se julgar conveniente.

Ouve-se o silvo tradicional da “Maria Fumaça”

“O trem”

TREM DE CARGA – Café com não? Bolacha não
                                     Café com não, café com não.
                                     Bolacha não...

Trem de carga ao parar.

Fumaceira

                                     FECHA A CORTINA

                                              Cena II

CENÁRIO -  O mesmo das cenas anteriores.

Ao abrir-se a cortina, Flávio aparece bem vestido e barbeado, com líderes sindicais sentados em uma mesa redonda, na sala do Sindicato. Alguns entram (A quantidade fica a critério da direção).

Pausa

FLÁVIO (Presidindo a mesa, no comando da greve) – Na primeira greve negociamos os 40%. Agora, vamos colocar piquetes em todas as oficinas, principalmente na de “Moscouzinho” (JÁ - Jaboatão) e Werneck ( EW- Edgar Werneck). Vamos reorganizar as nossas bases, companheiros.
LÍDER 2º (Levantando) – A nossa sorte depende do apoio da Igreja, que não tivemos na primeira... (Senta).
LÍDER 3º (Levantando) – É isto aí, na outra vez de igreja brasileira só teve o padre do 14RI, que apoiou a nossa greve (Vide “Moscouzinho), colocando a bandeira do Brasil na linha do trem...(Senta).

Pausa

LÍDERES – “Vamos distribuir panfletos...”
                    “ No jornal deve sair esta matéria...”
LÍDER 4º (Levanta) – Agora nós entendemos de lei trabalhista. Não será como naquele tempo, que as carteiras profissionais eram assinadas quando eles bem queriam (Senta).
LÍDER 5º (Levanta) – Temo que enfrentá a poliça com pau e pedra (Senta).
LÍDER 6º (Levanta) – Até mesmo com o sacrifício da própria vida (Senta).
LÍDER 7º (Levanta) – Eu não tinha direito a Instituto e a minha esposa deu à luz na indigência. Eles me pagam...(Senta).
FLÁVIO (Corta. Levanta acompanhado pelos demais) – Então companheiros, estamos combinados. Faremos tudo para o bem de nossa nação (Levanta o braço direito com o punho cerrado). Atenção: meia noite em ponto!

Retiram-se, conversando um por um, com vozes inaudíveis.
Pausa.
Silêncio.

                                                      FECHA A CORTINA

                                                           CENA III

CENÁRIO – O mesmo das cenas anteriores.

Ao abrir-se a cortina já é dia vinte e um de agosto. Militares (Uniforme: brim verde-oliva, capacetes, mosquetões...) e PMs (Fardamento : brim cáqui ruço, armados cassetetes tamanho família). Encontram-se na Rotunda, junto a patrões e empregados (Os empregados, em maioria, de macacão e alguns com bonés).

Vozearia dos grevistas.

CAPITÃO (Uniforme idem, capacete com três estrelas, idem sobre as platinas. Voz alta) – Silêncio! (Com a mão no revólver) Tenham calma... (Noutro tom) quero falar com o comandante de vocês.
FLÁVIO (Com ar espantado, se apresenta) – Pronto!
DOUTOR CORK (De chapéu, prepara o charuto, tira o selo do meio, lambendo-o bem e morde a ponta, pondo-o na boca, entre os dentes. Acendendo-o, benigno, para os grevistas) – Vamos negociar, minha gente (Coloca a mão em cima de Flávio e do Capitão).

Vaias

2º GREVISTA (Em voz alta, irritado) – Agora eles querem negociar. Antes, não quiseram nem ouvir a gente!
3º GREVISTA (Sujo de graxa, com uma bicicleta) – Nós aceitamos somente 35%...

Vozearia. Gritos e tumulto. É formado um cordão de isolamento, por militares.

4º GREVISTA (Agride um dos policiais militares) – Confia ma farda é, seu porra?

VOZES – “Quede a tua combléia?”
                 “Deixei em casa, pra que?, dois tiros e uma carreira.”
                 “Eu prefiro a minha faca.”
                 “Opa!” 
                 “Cabeça de glória, cu de purgatório.”

Risos abafados.

DOUTOR  CORCK (Alarmado, com voz abafada ao capitão) – Vou telefonar para o general...
O chefe do tráfego (CHT) sai correndo, com a mão no chapéu-do-chile, com o seu “Havana” pelo meio, apagado, e desaparece.

Vozearia dos grevistas.

5º GREVISTA  (Com dois braços erguidos, em voz alta) – A Companhia é nossa.
2º GREVISTA (Gesto obsceno para os militares) – Fora os militares! (Em voz alta) Milicos assassinos!!!
3º GREVISTA (Agride o 2º GREVISTA com um soco, desmaiando-o) – Toma, pra saber respeitar...
6º GREVISTA (Enfurecido, quebra a bicicleta do 3º GREVISTA e joga-a em cima dos militares) – Agora, me matem.

Os militares apontam as armas, com as baionetas caladas para os grevistas. Em seguida, o Capitão ordena que atirem para o ar.

2º MILITAR (Uniforme idem, capacete com 3 divisas, idem nas mangas. Com horror, em voz alta) – Eles estão com “coquetéis molotov!”
5º GREVISTA – Eles estão atirando com cartuchos de festim!
CAPITÃO (Agitado, retira do cinto uma bomba de gás lacrimogêneo e joga em cima dos ferroviários-grevistas, produzindo fumaça) – Comunistas de um figa, agitadores, tomem o que merecem (Em voz alta) Vocês não são brabos?

Vozearia

Ouve-se o apito da “Maria Fumaça”. Música “O trem”. Os grevistas ficam atônitos ao ver o trem parar.

Fumaceira

2º GREVISTA – Furaram a greve! Olha um trem cheio de soldados...

VOZES – “Prenderam Flávio com a mauser”.
                 “A Polícia está revistando quem atravessa a linha.”
                 “Não adianta.”
                 “Não façam isso, eu tenho mulher e filhos.”
                 “Não tenho culpa.”
                 “Por que não ficou em casa?”
                 “Para, para.”
                 “Tomaram a peixeira de Zé Pedro”
                 “Eu confio é no meu simituesse  (Smith & Wesson).”

Neste momento, a Rotunda é subitamente invadida por tanques de guerra, carros de choque da Polícia do Exército (PE). Vê-se parado um trem de tropa do Exército, som de corneta, soldados desembarcam com armas na mão pela plataforma da Estação, sob o comando de um Oficial Superior de gabardine verde-oliva, com megafone da mesma cor, idem para os grevistas. O capitão presta sua continência regulamentar ao receber as ordens de seu superior hierárquico. Incontinenti, retira uma pistola do cinto e aponta para os grevistas. Ao acioná-la, sai uma substância química de efeito moral, provocando disenteria. Os soldados, em posição de “cunha”, com as baionetas caladas, atiram fulminantemente em direção aos grevistas. Ouvem-se tiros. Homens, mulheres e crianças saem correndo para todos os lados, sem destino, seguidos por militares atirando a esmo.


Fumaceira.
Toque de corneta.
Silêncio. Ouve-se o hino da Independência.

POVO DO ARRAIAL

“Já podeis da pátria filhos/Ver contente a mãe gentil. Já raiou a liberdade/No horizonte do Brasil/Brava gente brasileira/Longe vá temor servil/Ou ficar a pátria livre,/ Ou morrer pelo Brasil...”

O Hino à Independência do Brasil (letra de Evaristo da Veiga e a música, do então Imperador D. Pedro I) continua durante toda a cena de violência. Fecha-se lentamente a cortina. Vê-se alguns grevistas mortos, outros moribundos estendidos, na casinha-de-fossa, em torcicolo, feridos, espancados, machucados... Alguns sendo fuzilados na jaqueira, grevistas cambaleando pelo matagal...
A cena, quase às escuras pela fumaça. Abre-se lentamente a cortina, e aparecem alguns líderes, escoltados por soldados, todos cagados e com os olhos lacrimejando, comicamente  tristes olhando para a platéia (Fica a critério da direção a relação ator/espectador). Um dos soldados cai, com ataque epilético (Sugestão: comprimido efervescente na boca provoca espuma junto à saliva).

“O trem”

TREM – Café com não/Bolacha não
               Café com não/Com não, com não,
                Com não...

Fumaceira

                                                                 FECHA A CORTINA
                                                              FIM DO SEGUNDO ATO


Nota – Extraído do teatro “Trem & Trens”, pp. 39-46 – ed. 1990.


*Escritor, poeta e teatrólogo.



A grande deusa

* Por Eduardo Oliveira Freire

Em todas as cidades do mundo existiam cartazes daquela bunda. Todos os homens e mulheres a veneravam, como se fosse uma Deusa poderosa que controlava suas vidas. Programas de televisão passavam horas, mostrando beleza da pitoresca bunda em vários closes. Enfim, aquela bunda era uma paixão internacional. Mas, a origem do sucesso dela nunca foi descoberta por ninguém e as provas ficaram eternamente esquecidas.

Ela na realidade, não era uma bunda comum, possuía vida própria e tinha poderes de persuasão entre as massas populares. Esses poderes foram conquistados graças às experiências genéticas, produzidas por cientistas e cirurgiões plásticos brasileiros, que queriam produzir bundas perfeitas para atender às necessidades básicas dos brasileiros como, por exemplo, lindas bundas embelezando as praias, ruas, praças e as cidades brasileiras. As bundas geneticamente mudadas não iriam precisar praticar exercícios ou colocar silicones. Iriam ficar sempre empinadas e rígidas, bem.

Ao iniciarem as experiências, os cientistas recrutaram mulheres como voluntárias. Tudo estava indo muito bem, quando de repente um cientista errou um cálculo na dosagem de hormônio. Logo, a bunda de uma voluntária começou a crescer rapidamente. Todos os cientistas ficaram apavorados com acontecido, a voluntária foi modificando seu corpo e se transformava numa enorme bunda. A situação estava tão fora de controle, que os cientistas chamaram o exército para destruir a grande bunda e tentar conter a presença dos jornalistas, para que a população não soubesse da trágica notícia.

O exército apareceu no laboratório com vários tanques e soldados armados com AR15 para destruir a grande bunda. Mas, ela soltou odores que hipnotizaram todos em sua volta. Demorou pouco tempo para que a grande bunda dominasse todo o mundo, intitulando-se a GRANDE DEUSA. Congressos, parlamentos, forças armadas e jornais de todo globo terrestre começaram a servir aos seus prazeres mais escabrosos. Conseguiu, com sua beleza e odores, dominar cada indivíduo da face da terra. Nessa ocasião, surgiram cantores populares que desempenharam os papéis de sacerdotes para a glorificação da Grande Deusa! A Bunda Dominadora! Suas músicas doutrinaram milhares de pessoas, fazendo uma lavagem cerebral nelas. Pararam de pensar em estudar, trabalhar e refletir. Queriam reverenciar somente, a beleza e os odores da Grande Deusa!

Há resistências, principalmente intelectuais, mas estão diminuindo cada vez mais aos encantos dela.

* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/


Das pérolas que escapamos (porque a Copa deu certo)

* Por Emir Sader

Já tinham seu estoque de frases prontas, todas ao estilo “Não disse”, “Bem que eu falei”, “Eu sabia que ia dar nisso”, “Se tivessem me escutado”. Frases de tia gorda, como dizem na Argentina.

Mas deu certo, e desse benefício também gozamos: escapamos dessas imbecilidades. Não custa fazer a lista do que teriam sido as declarações dos vira-latas. Listo algumas, vocês completam.

“Com um governo assim, só poderia ter dado totalmente errada a Copa do Mundo.”

“Só quem não conhece trafego aéreo não sabia que o “caos aéreo ia se instalar nos aeroportos do Brasil.”

“A prepotência do governo, que não deu ouvidos às reclamações, fez com que o Brasil tenha passado a maior vergonha internacional da sua história.”

“Os estádios mais pareciam canteiros de obras. Como denunciamos, começou a Copa com estádios sem terminar. A incompetência do governo ficou evidente para o mundo.”

“O governo não deu importância às manifestações populares e o transporte nas cidades da Copa colapsou. Gente abandonada nas ruas, torcedores que compraram entradas e não puderam chegar aos estádios, um caos urbano.”

“O governo saiu ainda menor do que entrou na Copa.”

“É esse governo, que organizou essa Copa do Mundo, que quer se reeleger para seguir dirigindo o Brasil?”

“Foi um erro ter trazido a Copa para o Brasil. Com tantos problemas na educação, na saúde, fomos gastar essa dinheirama toda na Copa.”

“Todo mundo sabia que com a Copa as manifestações iam voltar com mais força ainda, o governo seria incapaz de contê-las e teríamos essas cenas de violência e de sangue pelas ruas das cidades da Copa, em todos os jogos.”

“Fracasso de organização, fracasso de público: estádios vazios durante quase todos os jogos da Copa.”

“A impressão que os estrangeiros se levam do Brasil é a pior possível. Bem que a mídia mundial prevenia para que não vissem. O próprio Ministério de Relações Exteriores da Alemanha preveniu a seus cidadãos para não virem. Muitos vieram, com a ilusão de que seus jogadores iam cantar o Hino do Bahia, que iam tomar chope com a Angela Merkel, que iam se divertir com o povo da Bahia. Ledo engano. Assaltos, violência, estupros, tudo o que se previa, aconteceu. A imagem do Brasil saiu mais arranhada ainda do Mundial.”

“O que será do turismo brasileiro depois desse show de desorganização, incompetência, falta de acolhida fraternal dos brasileiros, assaltos, roubos, durante o Mundial?”

“O mundo pôde confirmar in loco que a mídia brasileira tinha razão quando fazia denúncias sistemáticas sobre o desastre que ia ser o Mundial. A nossa mídia sai fortalecida na sua credibilidade e as vozes dissonantes e o governo, ainda mais enfraquecidos.”

 “Bem que o Ronaldo, com o seu discernimento para distinguir as coisas, disse: Vamos passar a maior vergonha e a Fifa, traumatizada, nunca mais vai querer fazer uma Copa no Brasil.”

“Mas os brasileiros vão derrotar a esse governo incompetente em outubro, para que o Brasil nunca mais passe essa vergonha.”

“Agora o mundo todo ficou sabendo porque nós combatemos sem tréguas  esse governo incompetente.”

“O povo gritou nas ruas: Não vai ter Copa. E não houve!”

“Dissemos tanto “Imagine na Copa”. E o descalabro foi tanto, que superou nossa imaginação.”


* Sociólogo e cientista político
Dersu Uzala na Copa

* Por José Ribamar Bessa Freire

No futebol “a bola é um reles, um ridículo detalhe” – escreve Nelson Rodrigues, para quem o que interessa é “o ser humano por trás da bola”. O que está em jogo no gramado, portanto, “não é a diversão lúdica, mas a complexidade da existência”. Se for assim, se Nelson tem razão como quer o cronista Joaquim Ferreira dos Santos, então o campeão mundial da Copa já é o Japão, que deu um show de vida lá na Arena Pernambuco contra a Costa do Marfim e, depois, na Arena das Dunas, em Natal, contra a Grécia.

O Japão perdeu um jogo e empatou o outro dentro do campo, mas nas arquibancadas ganhou os dois de 10 x 0. As imagens reproduzidas nas redes sociais não deixam dúvidas. Enquanto torcedores do Brasil e de outros países se retiravam dos estádios, deixando montanhas de lixo, sem sequer olhar para trás, os japoneses recolhiam discretamente garrafas e copos de plástico, papel, bandejinhas de isopor, latas de cervejas e de refrigerantes, canudinhos, restos de alimentos, embalagens usadas, enfim todo lixo produzido por eles. 

Esse gesto civilizatório foi o legado mais eloquente da Copa. Com o exemplo, o japonês ensina ao mundo como tratar com respeito e civilidade o espaço público, como se relacionar com o meio ambiente e com os outros habitantes do planeta. A coleta do lixo, feita em sacos com a imagem impressa do sol nascente, foi uma lição de ética e de cidadania. Lembrei cena antológica de rara beleza do filme Dersu Uzala dirigido pelo cineasta japonês Akira Kurosawa, em 1975, baseado no diário de um capitão russo. Na torcida nipônica – diria Nelson Rodrigues – todos eram Dersu Uzala.

O chibé repartido

O filme conta a história de uma expedição científica do exército tzarista pela bacia do rio Usurri, entre 1902 e 1907, comandada pelo capitão Vladimir Arsenyev, com a finalidade de classificar as espécies existentes nas estepes da Sibéria e realizar trabalhos de topografia. O capitão faz amizade com um caçador nativo, Dersu Uzala, um velho sábio que trata o sol, as estrelas, a água, o fogo, o vento, a neve, as árvores e os animais como pessoas. Tal qual um tcheramoi guarani, ele ouve todas essas “pessoas” que vivem na taiga siberiana – a maior floresta fria do mundo - e conversa com elas.

Akira Kurosawa vai mostrando como se tece a amizade do capitão russo com o caçador, que lhe serve de guia não apenas pelas montanhas da Mongólia, mas também pelos sendeiros da vida. Depois de uma tempestade de neve, os dois conseguem se refugiar numa cabana no meio da floresta, onde descansam. No dia seguinte, antes de partirem, Dersu, o homem da floresta, abastece o fogão com lenha, separa um pouco de sal e estoca alimentos não perecíveis na cabana. Divide assim o pouco que tem para surpresa do capitão russo, o homem da cidade, que lhe diz:
- Dersu, isso é um desperdício. É inútil deixar mantimentos aqui, nós nunca mais voltaremos a esse lugar.

Quase todo semestre passo esse filme em sala de aula e todas as vezes me comove a cena, quando o caçador, então, explica que não é para eles dois, mas para uma pessoa qualquer, um eventual viajante, desconhecido, que chegue ali cansado e com frio, em busca de abrigo, de calor e de alimento. Compartilhar o pão não necessariamente para retribuir o que eles tinham encontrado, mas pelo prazer da partilha.    

O capitão russo, um homem de ciência, civilizado, com escolaridade, fica no meio do tiroteio, perplexo e dividido entre, de um lado, o princípio da “farinha pouca meu pirão primeiro” que ele traz do mundo urbano e, de outro, o preceito do pirão compartilhado, que é único sinal humano de vida, como canta o poeta Aníbal Beça num haicai: “Apenas num gesto / o homem é capaz de vida - / chibé repartido”.

Não vai haver lixo

A ética da solidariedade, do desprendimento, do pensar no outro está presente tanto no comportamento do velho caçador desescolarizado, que vive no mundo da oralidade e que detém os conhecimentos da vida, quanto na coleta silenciosa do lixo realizada pelos torcedores nipônicos.

O cineasta japonês Akira Kurosawa rodou as cenas de Dersu Uzala em 1974, em condições adversas, depois de haver tentado o suicídio três anos antes, cortando a própria garganta e os pulsos numa forte crise de depressão. Estava desencantado com o ser humano. Nesse contexto, o filme teve o efeito daquele poema de Allen Ginsberg: uma florzinha solitária desabrochando em cima de um monte de merda. É uma reconciliação com a vida, um canto de esperança, que desperta sentimento similar ao provocado pelas imagens dos japoneses coletando o lixo no estádio.
- Eu sou bra-si-lei-ro, com mui-to or-gu-lho, com mui-to a-moooor – grita a nossa torcida embalada para a guerra. Resta saber – isso não é explicitado - do que é que sentimos orgulho. Numa sociedade patriarcal como a brasileira, parasitária, tatuada por quatro séculos de escravidão, estamos acostumados a emporcalhar tudo, ordenando que garis limpem nossa sujeira. Nossas ruas com bueiros entupidos e os banheiros e salas de aula de nossas universidades públicas são testemunhas disso. Lá, o exército do “pessoal de limpeza” trava diariamente uma batalha perdida, registrando o rotundo fracasso da escola.
- Somos milhões em ação. Todos juntos, vamos pra frente, Brasil. Salve a seleção! De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão!

Sem patriotadas, o lema dos japoneses, talvez muito mais significativo do que “não vai haver copa”, foi o silencioso “não vai haver lixo”. A corrente nipônica pra frente nos deu uma lição, que já rendeu os primeiros frutos. Na Fifa Fun Fest segunda-feira, em Copacabana, no Rio, turistas alemães, espelhados no exemplo vindo do Oriente, não apenas recolheram o lixo da praia, mas incentivaram outros frequentadores a ajudá-los.

Esse gesto de extrema delicadeza e refinamento, embora solitário, mostra que civilização não é abrir estradas, construir usinas, erguer pontes e viadutos, fabricar aviões, automóveis e robôs, clonar seres vivos. É saber se relacionar com o outro: gente, planta, animal, meio ambiente. É a qualidade dos gestos que torna a condição humana possível. Enquanto houver alguém juntando o lixo e nos deixando envergonhados de nossa imundície, o mundo não está totalmente perdido. Uma florzinha brota no esterco.

Foi um ato singelo, mas que renova nossas esperanças na espécie humana e no futuro do planeta. A bola, efetivamente, é um reles detalhe. Torcida japonesa, por despertar o Dersu Uzala que existe dentro de cada um de nós, domô arigatô gozaimasu.


J* ornalista e historiador