sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Adeus lembranças primevas

* Por João Alexandre Sartorelli

Adeus trem de Itapira,
Estação da Luz,
Meu avô me levando
De pijama,
A cancela do sítio
E as vacas pressentidas.

* Analista de Sistemas por profissão e poeta por vocação


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 7 anos, onze meses e dois dias de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Haja imaginação!.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica,“Responsabilidade desnecessária”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, crônica, “Enfim, fora da caixa”.

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, conto, “O puxador sem voz?”.

Coluna Porta Aberta – Carmo Vasconcelos, poema, “Dualidade”.

Coluna Porta Aberta – Marta Barcellos, crônica “Para viver de Leiteratura”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
 “Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Haja imaginação!

A aparência física de João Ramalho é – entre tantas coisas que cercam a vida e as ações dessa figura lendária da História do Brasil – um dos aspectos que mais espicaçam minha curiosidade, embora não haja a mais remota chance dela vir a ser saciada. Como era esse mítico aventureiro? Era louro ou moreno, alto ou baixo, gordo ou magro, de olhos azuis ou de outra cor? Ninguém sabe. Só souberam desses detalhes os que conviveram com ele, porém...  Afinal, a fotografia só foi inventada quase quatrocentos anos depois que ele morreu e não consta que algum eventual pintor tenha registrado seus traços numa tela.

Vi várias gravuras mostrando como seria seu aspecto, mas tenho absoluta certeza que são, todas elas, meros frutos da imaginação de quem as produziu. Disso não tenho a mais remota dúvida. Como tantos que as imaginaram, posso, também, imaginar como ele era nas várias fases da sua vida: moço, maduro e velho. Raimundo de Menezes, no livro “Aconteceu no velho São Paulo” (Coleção Saraiva, 1964), relata como o “imaginou” (afinal, não foi contemporâneo do aventureiro e, portanto, não tem como saber como ele era): “João Ramalho foi uma autêntica figura de novela. Deixara crescer a barba descuidada. Vivendo no mato, no meio da indiada, pouco ligava à indumentária. Era truculento, despótico, dominado pelos modos desabridos. Em conseqüência, não havia quem não o temesse”.

A primeira parte dessa descrição não me diz nada. Posso imaginar um perfil igual a esse ou outro totalmente diferente, mas nenhum deles, provavelmente, será o real ou aproximado dele. Menezes não revelou, por exemplo, em seu relato, sequer o óbvio quando se quer descrever alguém: a cor de seus cabelos e de seus olhos, a altura, o peso (estimado) e coisas triviais do tipo, sem as quais não é possível sequer imaginar como era quem quer que seja. Quanto à segunda parte do seu relato, a que se refere ao seu temperamento, esta é mais verossímil. Pelo menos, os dados que mencionou conferem com os mencionados por jesuítas – principalmente José de Anchieta e Manuel da Nóbrega – em sua correspondência. De acordo com esses sacerdotes, João Ramalho era, mesmo, um sujeito truculento, despótico e de modos desabridos. Pudera! O que esperar de um analfabeto, inculto,  mal educado,vivendo por tantos e tantos anos nas selvas, afastado da civilização, no meio de índios, tendo de assumir suas maneiras de ser e de agir?

Sabe-se – já que ele próprio teria relatado isso aos jesuítas – que após o naufrágio, o aventureiro português foi resgatado pela tribo dos Guaianazes. Seu encontro com o cacique Tibiriçá e posterior relacionamento com Bartira não se deu, portanto, nessa ocasião. Raimundo de Menezes narra como isso aconteceu (provavelmente, supôs que foi assim, já que não menciona fontes da época): “Um dia, andejando sempre, galgou a (serra de) Paranapiacaba e vei bater nas margens de Guapituba, onde conheceu o cacique Tibiriçá, com quem fez boa amizade. O aventureiro apreciou o lugar. Resolveu ficar. Aquilo por ali estava cheio de ‘índias passivas e ofertantes que, andavam nuas e não sabiam se negar a ninguém’. Uma, porém, no meio de tantas, mexeu-lhe com o coração. Chamava-se Bartira. Além de bonita, sendo filha do cacique Tibiriçá, era um bom partido. João Ramalho não vacilou. Abandonou as demais e ficou com ela. Tornou-a predileta. O chefe da tribo gostou.Ter um branco como genro era uma incomensurável honraria para a família”.

As coisas ocorreram, mesmo, dessa forma? Como saber? Resta-me acreditar, pois Raimundo de Menezes deve ter se baseado em algum dado concreto, documento ou sabe-se lá o quê, para chegar a essa conclusão. Mas há uma série de indagações, que jamais serão respondidas, a espicaçar o pesquisador histórico. Por exemplo, João Ramalho, quando o navio em que viajava naufragou na costa de São Vicente, desconhecia, óbvio, o idioma dos indígenas que o socorreram. Como ele fez para se comunicar? E o que foi feito dos seus companheiros de viagem? Foram também resgatados? Morreram afogados? Foram mortos pelos índios, que eram antropófagos, como José de Anchieta relatou em suas cartas e devorados por eles? Em caso afirmativo, por que os indígenas pouparam João Ramalho? E mais, por que lhe ofertaram as filhas, para que este mantivesse relações sexuais com elas?

E após subir a serra e conhecer a tribo chefiada por Tibiriçá, há dezenas e dezenas de outras questões no ar. Os comandados desse cacique, por exemplo, falavam a mesma língua dos Guianazes do litoral? Eram aliados destes? Se eram, João Ramalho se valeu de alguma recomendação do chefe da tribo que o resgatou do naufrágio a Tibiriçá?  Como se vê, são perguntas, perguntas e mais perguntas sobre esse misterioso personagem, mais para lendário do que para real, que o tornam ainda mais fascinante e misterioso. O que se sabe a seu respeito data a partir de 1532, quando do seu contato com Martim Afonso de Souza e quando se relacionou com jesuítas – relacionamento inicialmente conflituoso e, posteriormente, benéfico para as duas partes – eventos dos quais há fartos registros escritos. Antes... Haja imaginação!

Boa leitura.


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk     
Responsabilidade desnecessária

* Por Pedro J. Bondaczuk

Os conselhos, quando dão certo e as pessoas que os pediram fazem tudo direitinho, conforme lhes foi aconselhado, beneficiam, apenas, os que os recebem. O aconselhador, por sua vez, corre todos riscos imagináveis, sem que leve qualquer vantagem nisso. Há quem tenha a mania de aconselhar a torto e a direito, a todo o mundo, conhecidos ou desconhecidos, sem serem sequer solicitados. Tornam-se chatos, pedantes, dogmáticos e quem pode os evita.

Claro que podem estar bem intencionados (geralmente estão), não há porque se duvidar. Mas de indivíduos com boas intenções “o inferno está lotadinho”, como bem diz o povão, em sua espontânea, posto que rude, sabedoria.

Há quem diga que se conselho fosse bom, as pessoas os venderiam, não dariam de graça. Não é bem assim. Há momentos na vida em que carecemos de uma pessoa sensata, experiente, ponderada e que nos queira bem, que nos oriente em relação a determinados problemas. Como em qualquer jogo, via de regra, quem está de fora enxerga melhor. Detecta onde estão as dificuldades e se dispõe a apontar os caminhos mais adequados para sairmos de algumas enrascadas. Isto, claro, se elas tiverem saída. Às vezes não têm.

Mesmo nessas circunstâncias, porém – e supondo que quem aconselha esteja plenamente habilitado a aconselhar – o aconselhador (ou conselheiro, como queiram) sempre corre riscos. Por exemplo, quem lhe pediu orientação pode não seguir rigorosamente o que foi aconselhado a fazer e se dar mal. Ou seja, pode complicar ainda mais determinada situação já complicada. O que você acha que ele fará? Assumirá o erro e arcará com as conseqüências? Raramente.

A probabilidade maior é que lance toda a culpa do fracasso naquele que, prestamente, se dispôs a acudi-lo em suas dificuldades. Pode, inclusive, não apenas hostilizar o nobre conselheiro, como fazer algo muito pior, dependendo da sua índole.

E se o conselho der certo? Manifestará gratidão e se tornará mais íntimo de quem o aconselhou? Dificilmente. A experiência indica que assumirá todos os méritos por haver saído da enrascada que o afligia e, provavelmente, esfriará suas relações com quem o aconselhou, se não rompê-la de vez, o que é mais comum.

Que vantagem, pois, nós temos em aconselhar alguém, mesmo que se trate da esposa, do filho, do neto, do amigo ou de outra pessoa qualquer que prive da nossa irrestrita confiança e, sobretudo, intimidade? Nenhuma! Rigorosamente nenhuma!

Talvez (e nem sempre) lhe reste a satisfação íntima de haver feito uma boa ação para alguém. Na maioria dos casos, nem isso lhe sobra. Vale a pena, pois, correr tantos riscos por recompensa tão pífia (e quando ela existe)? Sinceramente, entendo que não!

Claro que não sou a pessoa mais habilitada a tratar dessa questão. Já recebi muitos conselhos (alguns excelentes, outros nem tanto), solicitados ou dados de graça e, em contrapartida, aconselhei muita gente.

Não hostilizei, porém, e nem rompi relações com nenhum dos meus conselheiros, embora muitos o merecessem. Algumas dessas pseudo-orientações (nunca pedidas, por sinal) foram tão ostensivamente ruins, que as levei na pura brincadeira. Mas também não me lancei aos pés dos que me aconselharam bem e nem lhes jurei devotar eterna gratidão.

Quanto aos conselhos que dei? Bem, arrependo-me profundamente de haver agido assim, principalmente quando as coisas deram certo. Perdi amigos, que considerava como irmãos, apenas por lhes haver apontado caminhos óbvios, que os levaram ao sucesso em muitas das suas empreitadas. Bem feito! O que eu tinha que me meter na vida alheia.

Hoje, busco sozinho as saídas para as minhas dificuldades, valendo-me da experiência que os meus já muitos anos de vida me deram. Às vezes, complico, é verdade, situações muito simples, mas arco com as conseqüências. Na maioria das vezes, porém, tenho acertado (ou quase, sei lá).

Concordo plenamente com o que Albert Einstein escreveu em um de seus textos a esse propósito: “Não me agrada aconselhar porque, em todos os casos, se trata de uma responsabilidade desnecessária”. E não é?! Pra quê procurar chifre em cabeça de cavalo ou arrumar sarna pra me coçar?! Sim, pra quê?!!!



* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk 



Enfim, fora da caixa

* Por Marcelo Sguassábia

Pessoal da Criação,

Primeiramente, em nome da Diretoria, nossos parabéns a todos os envolvidos pela conquista da nova conta.

Estamos livres para propostas inusitadas, totalmente "fora da caixa", desde que estejamos atentos a uns poucos porém determinantes "polices", que nos chegaram hoje via email.
- Não podemos criar frases iniciadas com "NÃO", ainda que esta mesma já desobedeça à regra.
- Um dos chefes de engenharia de produto tem avô mulato, e consta que a agência anterior apresentou um anúncio com fundo escuro, considerada por ele uma peça subliminarmente criada com o intuito de depreciar a raça negra, de maneira geral, e a sua própria família em particular.
- Nada na cor azul deve aparecer, nem em mídia impressa, nem nas peças de mídia eletrônica, pois azul é a cor predominante do principal concorrente. Essa regra vale para todo e qualquer elemento - do céu nas externas dos filmes aos mínimos objetos de cenografia.
- Nada na cor verde deve aparecer, nem em mídia impressa, nem nas peças de mídia eletrônica, pois verde é a cor predominante do segundo maior concorrente.
- Nada na cor vermelha deve aparecer, nem em mídia impressa, nem nas peças de mídia eletrônica, pois vermelha é a cor predominante do terceiro maior concorrente.
- Layouts no estilo clean, contudo, também precisam ser evitados. O gerente comercial da linha de termocondutores bifásicos considera espaço em branco um desperdício de dinheiro, e que cada centímetro de anúncio deve ser aproveitado com conteúdo sobre o produto, os pontos de assistência técnica ou os valores e a missão da empresa - necessariamente nessa ordem de prioridade.
- Fontes com serifa, nem pensar. Sem serifa, pior ainda. Não existe uma tipologia a ser seguida, portanto podemos ficar à vontade para sugerir a que acharmos melhor para cada circunstância. Desde que respeitando o supra citado - nem serifas, nem falta delas nas letras.
- A cada 20 palavras de texto, no mínimo 5 serão citações do nome do cliente e/ou de suas marcas.
- Os produtos cuja comunicação estarão agora sob nossa responsabilidade em nada se assemelham a chocolates, cervejas, brinquedos, sandálias e outros comprados por impulso. Seus consumidores são racionais e avaliam unicamente custo-benefício. Assim, toda e qualquer comunicação deve obedecer o seguinte modelo de apresentação: nome do produto/função/tabela de aplicações/benefícios/endereço/telefone/site.
- As observações acima integram o primeiro dos cinco anexos recebidos. As obrigatoriedades dos outros quatro serão enviados em seguida.

* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).


O puxador sem voz

* Por Gustavo do Carmo

Sambódromo lotado. Arquibancada e todos os componentes da escola cantando o samba-enredo. Os destaques começam a rebolar nos queijos a 10 metros de altura. A madrinha de bateria, de topless, também já samba e faz reverência aos ritmistas, disciplinados pelo Mestre Turcão. E o intérprete Ari do Pandeiro, cujo verdadeiro nome é Aristênio Soares,  faz o seu gargarejo antes de dar o seu grito de guerra.

Ele cospe o preparado de própolis e gengibre num balde. Estava meio gripado nos últimos dias. Mas achava que poderia puxar o samba sem problemas. Conseguiu dar o grito de guerra: SAI DA FRENTE QUE A UNIDOS DA DEMOCRÁTICOS TÁ CHEGANDO!!!! SORRIIIIIIIIIIIA PANDEIRO!!!!!!

Foram as últimas palavras que Ari conseguiu soltar. Depois delas ficou sem voz. O cavaquinho continuou tocando, mas o samba não entrava. O presidente da escola se desesperou. Ari, tenso, falava com o fiapo de voz que lhe restava:
— Eu não estou conseguindo nem falar.  

Enfim, o grupo de puxadores auxiliares assumiu o samba, que foi levado até o fim em coral. A Unidos da Democráticos foi aplaudida ao fim do desfile. Na quarta-feira de cinzas, descobriu que perdeu pontos em harmonia, evolução, samba-enredo e conjunto. Ficou em sexto lugar. Voltou ao desfile das campeãs. A voz de Ari ainda não tinha voltado. A escola foi mais uma vez aplaudida.

Aristênio Soares ficou mudo de vez. Mesmo não precisando mais dele e efetivando o coral de intérpretes, Ari do Pandeiro foi mantido para ser um talismã. Foi demitido porque nem pra isso ele serviu. A Unidos da Democráticos foi rebaixada no carnaval seguinte.

* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu  blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores



Dualidade

* Por Carmo Vasconcelos

Fui deusa da caça
feiticeira de Oz
caçadora e presa
vítima e algoz

Fui verbo-incerteza
em almas pagãs
sacerdotisa de mentes irmãs

Fui louca e devassa
em noites de amor
filha de Afrodite…

E em dias de Graça
asa de condor
no céu sem limite

Fui fogo e surpresa
na cama e na mesa
crédula e perjura

Fui perto e lonjura
amada e esquecida
traidora e traída

Fui calor e beijo
volúpia e desejo
carne de festim

Fui verso e fui luz
a voz de Jesus
falando por mim

Fui nada e fui tudo
choro, riso, Entrudo
princípio e fim

E hoje, em meus anos,
sou ré e juíza
de meus próprios atos

E de meus senãos
sábios ou insanos
lavo as minhas mãos
tal como Pilatos!


 * Poetisa portuguesa