A
explosão plástica do inconsciente
* Por
Plínio Palhano
Na
década de 1970, tive contato com as obras plásticas dos pacientes
do Centro Psiquiátrico Pedro II, do Rio de Janeiro, conhecidos como
os Artistas de Engenho de Dentro. Naquela época, vi muitas delas em
exposições. Desde então, passei a acompanhar tudo que era
publicado em vídeos, revistas e livros sobre o assunto. Esses
pacientes encontraram nos métodos da psiquiatra Nise da Silveira
(1905-1999) — influenciados pelas teorias de Jung — uma forma de
se integrar à arte na seção de psicoterapia ocupacional do
hospital, dirigida por ela como um laboratório da psique. Essa
aproximação com a arte foi um sólido apoio para amenizar os seus
sofrimentos provocados pelos transtornos mentais e uma saída para
expressar o seu mundo inconsciente atormentado, mas rico de explosões
de imagens, que foi estudado minuciosamente pela psiquiatra, que tem
uma história naquele hospital, na psiquiatria do País e,
principalmente, junto aos pacientes com esquizofrenia, que se
tornaram artistas marcantes.
Quando
Nise da Silveira teve o seu primeiro contato, em 1944, com o Centro
Psiquiátrico, questionava o uso de tratamentos como
eletroconvulsoterapia (eletrochoque) e lobotomia, entrando em
confronto com os colegas do hospital. Para alguns deles, a lobotomia
era o ápice da ciência médica, método utilizado também por
Estados totalitários no século passado para encerrar a vida
psíquica e emocional de seus inimigos. Houve verdadeira luta até se
decidir que Nise assumiria a Seção de Terapia Ocupacional
(abandonada, sem nenhuma função no Centro), em 1946, com a anuência
da direção, talvez para se livrar do incômodo daquela médica para
o hospital e seus colegas. Ela permaneceu dirigindo esse setor até
1974.
A
psiquiatra convocou poucos enfermeiros e funcionários do hospital
para auxiliá-la nos trabalhos de psicoterapia. Pediu aos
colaboradores que mantivessem o maior respeito possível aos
pacientes e os deixassem livres. Só observassem e anotassem o que
eles diziam ou suas ações. Foi instalado, então, o Ateliê de
Pintura, que era o desejo da psiquiatra, com a assessoria de um
funcionário artista que se tornaria importante, Mavignier. Ele
reunia os materiais para os pacientes e ensinava como utilizá-los,
sem interferências na criação. Tornou-se, a Seção, aos poucos,
um sucesso no hospital, porque os pacientes vinham lentamente e
começavam a descobrir que poderiam realizar coisas que não estavam
previstas nas suas vidas. Era uma novidade que foi atraindo o
entusiasmo de muitos dos que se interessavam pelo Ateliê.
À
medida que as pinturas e outras linguagens plásticas eram
realizadas, Nise da Silveira registrava tudo em fotografia, para
entender o universo daqueles artistas e procurar avaliar cada um
deles no seu percurso histórico pessoal. Numa das remessas dessas
fotos a Jung, o psiquiatra ficou admirado e a aconselhou que se
aprofundasse no estudo da mitologia de todas as culturas e religiões
possíveis para acompanhar o que o inconsciente revelava naqueles
artistas/pacientes. A experiência foi magnífica. A Dra. Nise
encontrou muitas revelações que foram consignadas em suas obras,
principalmente, no livro “Imagens do inconsciente”. Mario
Pedrosa, um dos nossos maiores críticos de arte, foi um entusiasta
não só do trabalho da psiquiatra como dos artistas que consolidaram
suas obras no Ateliê, que se expandiram em mostras nas instituições
culturais, nos museus, na imprensa nacional e internacional.
*
Artista plástico e escritor.
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