O
profeta
* Por
Aleksandr Puchkin
Num
ermo, eu de âmago sedento
já
me arrastava e, frente a mim,
surgiu
com seis asas ao vento,
na
encruzilhada, um serafim;
ele
me abriu, com dedos vagos
qual
sono, os olhos que, pressagos,
tudo
abarcaram com presteza
que
nem olhar de águia surpresa;
ele
tocou-me cada ouvido
e
ambos se encheram de alarido:
ouvi
mover-se o firmamento,
anjos
cruzando o céu, rasteiras
criaturas
sob o mar e o lento
crescer,
no vale, das videiras.
Junto
a meus lábios, rasgou minha
língua
arrogante, que não tinha,
salvo
enganar, qualquer intuito,
da
boca fria onde, depois,
com
mão sangrenta ele me pôs
um
aguilhão de ofídio arguto.
Vibrando
o gládio com porfia,
tirou-me
o coração do peito
e
colocou carvão que ardia
dentro
do meu tórax desfeito.
Jazendo
eu hirto no deserto,
o
Senhor disse-me: "Olho aberto,
de
pé, profeta e, com teu verbo,
cruzando
as terras, os oceanos,
cheio
do meu afã soberbo,
inflama
os corações humanos!"
*
Poeta, romancista e novelista russo.
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