Adivinhe
quem é o porco do Palácio do Jaburu?
* Por
José Ribamar Bessa Freire
Dizem
que no bairro de Aparecida, em Manaus, está a chave para desvendar a
misteriosa identidade do porco que toda sexta-feira, à meia-noite,
vai se alimentar no porão do Palácio do Jaburu. Ele entra
furtivamente – dizem - convocado por Michel Temer, que coça-lhe a
barriga e dá-lhe de comer: curé, curé, curé. Dizem que o porco
rosado e enxundioso, já de barriga cheia e devidamente afagada,
dorme no jardim embaixo do jequitibá, onde o Michelzinho costuma
brincar cuidado pela babá paga pelo contribuinte. Dizem que de
madrugada, o suíno se dirige aos fundos do palácio, mergulha no
Lago Paranoá e desaparece. Dizem.
Na
sexta-feira seguinte ele sempre volta, dizem, vindo não se sabe de
onde, para comer, com sua boca cartilaginosa de hipopótamo, a ração
de soja, milho e cereais nas mãos giratórias de Temer. Dizem que um
segurança do palácio gravou a voz do presidente chamando o porco
por seu nome, a primeira sílaba é inaudível, mas a última
claramente é “ar”. Será que é o tal Edgar procurado pela
Polícia Federal? A resposta pode ser encontrada no bairro de
Aparecida, porque tudo o que acontece ou ainda vai acontecer em
qualquer parte do mundo, modéstia às favas, já aconteceu lá, no
meu bairro.
Dizem
que o procurador geral da República, Rodrigo Janot, por analogia,
conseguirá identificar a relação promíscua entre o porco e o
palácio, se interrogar os velhos de Aparecida e pedir que lhe
narrem, sem rodeios, as “suinosidades”, que lá ocorreram na
década de 1950, quando a empresa Manaus Tramways interrompeu durante
meses a transmissão de energia elétrica, mergulhando a cidade na
mais negra escuridão. Foi nesse cenário de trevas que nas noites de
sexta-feira começou a aparecer um porcão enorme, marrom claro,
agressivo, que atacava as pessoas, semeando pânico entre os
moradores do bairro.
Espírito
de porco
Ninguém
sabia direito de onde vinha o porco. Na escuridão da noite, ele
atravessava os trilhos do bonde e, trotando como um javali, descia a
rua Xavier de Mendonça, colocando em debandada crianças que
brincavam de roda e velhos que jogavam dominó na pracinha em frente
à taberna da dona Bati. Depois, invadia o pátio do Grupo Escolar
Cônego Azevedo e de lá só saía na madrugada, em disparada,
mordendo, enfurecido, quem encontrava pelo caminho. Descia a
escadaria do igarapé São Vicente, mergulhava no bosteiro e sumia
até a outra sexta-feira,
Havia
a suspeita de que no bairro morava alguém que virava porco. Mas
quem? Três moradores tinham pinta de “virador de porco”:
Ceariba, vendedor de carvão, casado com dona Cotinha; Chico
Procópio, solteiro, fiscal do SAPS – Serviço de Alimentação da
Previdência Social, cujo jeito peculiar de andar meio saltitante,
com os pés pisando em brasa, lhe conferiu o apropriado apelido de
“Papagaio na areia-quente”. E Chicarruda, recém-casado, vendedor
ambulante de doces. Pesquisaram a vida dos três e descobriram os
grunhidos do último.
Cearense
de Baturité, Francisco Arruda – o Chicarruda – órfão desde
criança, foi adotado por sua tia Donaninha. Quando ela morreu, em
1941, logo depois do enterro que assistiu compungido, mudou de mala e
cuia para Manaus, com um dinheirinho que lhe deu seu tio, o
comendador Ananias, o que lhe permitiu comprar um casebre de madeira
e chão batido no Beco da Escola. Seu vizinho Geraldão, que hoje é
meu cunhado, foi quem me contou os detalhes da história que todo o
bairro conhece.
Chicarruda
começou a trabalhar por conta própria, como vendedor ambulante de
doces feitos por Guilhermina, dona de uma fábrica artesanal na rua
Lobo D ‘Almada. Tinha para todos os gostos: brigadeiro de leite
ninho, tortinha de limão, mata-fome, bolo de milho, pé-de-moleque,
pudim de cocada, bolachinha de leite condensado, creme de cupuaçu,
sonho de valsa, bolinho de chuva, queijadinha, beijo-de-moça, torta
venturelli, pão-de-ló, broa, doce de buriti…
Chafurdar
no chiqueiro
Os
doces eram acomodados numa caixa retangular, envidraçada, que
Chicarruda carregava pelas ruas de Manaus, anunciando sua passagem
com uma gaita de boca, cujo som modulado mataria de inveja o próprio
Bob Dylan. A caixa, documentada pelo traço do pintor Moacir Andrade,
tinha uma tampa e quatro pernas compridas de madeira sobre as quais
repousava ao parar para servir a freguesia.
O
vendedor de doces passou a ser o principal suspeito quando alguém
flagrou de madrugada a zeladora do Grupo Escolar, dona Zeni, que lá
morava, dando “lavagem” para o porco – uma gororoba com restos
de comida. Por que ele atacava todo mundo, menos aquela em cujas mãos
comia? Havia ali um estranho conluio – denunciou Leonor, que viu
falir sua produção de sacolé. Coincidência ou não, Chicarruda se
tornou o único ambulante com permissão para entrar na escola na
hora da merenda, em troca de propina paga à zeladora. Foi o primeiro
monopólio registrado no bairro.
As
suspeitas cresceram porque, como sabem os entendidos, todo “virador
de porco” casa sempre com mulher homônima ou com alguém cujo nome
tem etimologicamente a mesma raiz. Ora, a mulher de Francisco Arruda
se chamava Francesca, uma bela caboquinha, batizada assim pelo seu
padrinho, o italiano Nicolau Montemurro, dono de uma sapataria na rua
da Instalação, para quem sua mãe trabalhava como empregada
doméstica.
As
evidências e os indícios eram muitos, mas o casal Arruda e dona
Zeni exigiram provas materiais. Foi aí que um ousado paroquiano, o
Zeca Pinto, membro do Apostolado da Oração, cujo filho Ivan havia
sido mordido pelo tal porco, decidiu produzir provas.
Uma
bala benta
Sexta-feira
à noite, armado de uma escopeta calibre 12, Zeca Pinto se escondeu
detrás de uma árvore, na mutuca, cantando baixinho o hino do
Apostolado para lhe dar coragem:
-
“Queremos Deus, homens ingratos, Oh Pai Supremo, Oh Redentor.
Zombam da fé, os insensatos, erguem-se em vão contra o Senhor”.
Havia
uma lua esplendorosa. Quando viu o porcão descer trotando a Xavier
de Mendonça, Zeca Pinto disparou uma bala benta lubrificada com cera
de vela do altar da Virgem de Aparecida. Atingiu a pata traseira
esquerda do animal que, ferido, desapareceu para sempre no meio da
noite, deixando manchas de sangue no meio da rua.
Nunca
mais o porco voltou, numa coincidência com a volta da energia
elétrica, quando as ruas e becos passaram a ser iluminados. No
entanto, no dia seguinte, o Chicarruda apareceu com uma úlcera na
perna esquerda, uma ferida brava que nunca mais cicatrizou e foi
aumentando de tamanho. Taí o Geraldão que não me deixa mentir
sobre essa prova fora dos autos. Ou deixa?
Inspirado
nesse exemplo, o procurador Janot pode muito bem contratar alguém
para atirar no porco do Palácio Jaburu. No dia seguinte, basta ir ao
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e observar quem está mancando:
Napoleão, Tarcisio, ou os dois cujos nomes terminam em “ar”:
Admar ou Gilmar. Precisa checar antes qual deles casou com mulher,
cujo nome tem etimologicamente a mesma raiz.
De
qualquer forma, quem entrar mancando, mesmo que não se manque, esse
é o que vira porco. Dizem que esse mamífero aproveita a escuridão
em que mergulhou a vida política brasileira para atacar os que, como
o juiz Herman Benjamin, questionam a roubalheira. Dizem que, por
chafurdar na pocilga, ele fede e vive enlameado. Esse é o porco que
come na mão do outro porco no Palácio Jaburu. Dizem. Só a luz pode
eliminá-los. Com muito protesto de rua.
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