Pavoneagem
* Por
Mara Narciso
Numa
analogia a viagem, que vem de viajar, surgiu “pavoneagem”, que
não está dicionarizado e vem de pavonear. “Deixa de pavoneagem!”
seria o bordão de um personagem de novela. Numa busca no Google,
achei apenas uma citação, num blog português.
O
substantivo que vem do verbo pavonear é pavoneamento, que significa
“ato ou efeito de pavonear-se, exibição vaidosa, ostentação”
(Dicionário Online Português); “jactância, vanglória, soberba”
(Dicionário Informal).
Soube
da palavra durante a aula de Pilates com Fernando Pinheiro quando ele
ajudava um aluno a ficar de cabeça para baixo agarrado a uma pequena
plataforma apoiada no chão. Ficar suspenso no ar pela força dos
braços é um ato raro, quase heroico. Foi quando Fernando falou em
“pavoneagem”.
Vendo
“Pavão Misterioso” no YouTube descubro outro mistério na música
de Ednardo, vista naquela versão por quase dois milhões de
internautas. Trata-se da história de um amor impossível. A letra se
refere à saga de um jovem turco muito rico, que se apaixona por uma
condessa e a rouba para se
casar com ela. O caso faz parte da Cultura Popular Cearense, que foi
contado em cordel e correu o mundo.
Vejam
uma parte:
“Pavão
misterioso
Pássaro
formoso
No
escuro dessa noite
Me
ajuda a cantar
Derrama
essas faíscas
Despeja
esse trovão
Desmancha
isso tudo, oh!
Que
não é certo não
Pavão
misterioso
Pássaro
formoso
Um
conde raivoso
Não
tarda a chegar
Não
temas minha donzela
Nossa
sorte nessa guerra
Eles
são muitos
Mas
não podem voar”.
O
pavão (feminino pavoa) apresenta dimorfismo sexual e apenas os
machos possuem cauda exuberante e exótica, que tem função na dança
do acasalamento (Wikipédia). Junto com os gritos, serve para atrair
a fêmea. Ele estufa o peito e aparece. Daí o significado de
pavonear-se: caminhar com ares soberbos, como um pavão; exibir-se
com ostentação; enfeitar-se com coisas vistosas; mostrar-se com
vaidade; ostentar, vangloriar-se; ufanar-se; jactanciar-se
(Dicionário Informal). “Aparecer com alarde e empáfia, adornar-se
notavelmente (Dicionário Português online). O Dicionário Aurélio,
menos humilde, se pavoneia e cita os mesmos sinônimos e mais: ornar
com garridice, ensoberbecer-se, ataviar-se.
Além
de arrancar as penas dos bichos para fazer fantasias, os humanos
desumanos também gostam de aparecer. Raros são os importantes que
não se importam com a própria importância. Outros fazem como as
galinhas, para continuar no reino das aves: botam um ovinho e fazem
um escarcéu, já a pata bota um ovo muito maior e fica caladinha.
Coisas de quem prefere a discrição.
No
mundo individualista de agora, onde quase tudo é virtual, inclusive
a ostentação, é comum a procura por palavras superlativas cada vez
mais hiperbólicas, numa corrida pelo sensacional, numa disputa que
não termina. Há pessoas tão obcecadas em ser as melhores em tudo,
que, fica difícil fugir das suas comparações. Melhor ironizar a
perfeição quase divina, na qual muitos pensam ser deus e outros têm
certeza. Caridade, Fé e Amor são, para essas pessoas, coisas a
serem medidas e condecoradas. A ingenuidade de piadas de Joãozinho
vendo um homem trocar o pneu de caminhão, “contando papo” de que
tudo o que estava ali era a metade do que tinha seu pai, ficou no
passado. Já a menininha de nariz empinado, que vai ver o
disco-voador primeiro e se diz “insuportável”, é recente.
Desculpem a repetição de ideias. Ela pode ser pedagógica para que
se possa avaliar o ridículo. Inclusive o meu próprio ridículo.
O
feito fala por si. Quando Cristo andou sobre as águas, multiplicou
pães e peixes, transformou água em vinho, fez cego enxergar, Lázaro
ressuscitar, agiu, e ao fato, nada acrescentou. Então, de gente que
se pavoneia, prefiro a distância.
Médica
endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia
Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de
Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”
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