O homem que se cansou
do fair play
* Por
Gustavo do Carmo
Prudêncio dos Santos passou
boa parte da prova de triatlo atrás do primeiro colocado. Largou mal, enfrentou
muita onda no mar e saiu da água em oitavo lugar. Ainda teve dificuldades para
tirar a sua bicicleta do suporte e caiu para décimo-quinto. O líder Gumercindo
dos Anjos já estava terminando o seu percurso de ciclismo.
Prudêncio se
recuperou. Ultrapassou oito competidores e começou a correr em sétimo lugar. A
pé ultrapassou mais cinco, mas ainda estava longe de Gumercindo, embora desse
para avistá-lo.
Era uma promessa no
triatlo. Mas nunca tinha ganho uma prova na sua vida desde que começou a
competir aos 19 anos. Nas duas olimpíadas que disputou, conquistou uma medalha
de prata e outra de bronze. De aclamado passou a ser cobrado pela mídia. Ganhou
diversos apelidos, como o “Rubinho Barrichello do Triatlo”. Já estava com 30
anos.
Seus patrocinadores começavam
a abandoná-lo. Perdeu um com a desculpa oficial da crise econômica. Outros
reduziram o apoio. O dinheiro na sua conta bancária começava a minguar. E as
adversidades pessoais a aumentarem.
Sua bela esposa passou
a ficar incomodada com a seca de vitórias do marido. Mas um problema mais grave
foi a doença medular da filha, Vitória, de cinco anos. Ela precisava de um tratamento nos Estados
Unidos que custava 100 mil dólares ou 400 mil reais. E o dinheiro já começava a
faltar.
Por isso, esta prova,
na Califórnia, a primeira da temporada, tinha uma motivação especial. A vitória
lhe garantia o dinheiro necessário e um pouco mais. Era de US$ 150 mil. O
segundo lugar só rendia 50 mil. Prudêncio recebeu convites para treinar nos
Estados Unidos, mas excessivamente nacionalista e dependente emocionalmente dos
pais, optou por continuar no Brasil. Só recebia 10 mil reais do clube onde
treinava. Estava quase se decidindo a treinar no exterior.
Gumercindo corria na
frente com vantagem de dez metros para Prudêncio, que já estava em segundo lugar. A
prova se aproximava do seu final, quando Prudêncio avistou o concorrente ser
arrastado por um louco de kilt (saia tradicional escocesa) e carregando dois
cartazes, que invadiu a pista e o empurrou para outro lado, relembrando o
episódio que aconteceu com o brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima na maratona
das Olimpíadas de Atenas, em 2004.
O atleta foi salvo,
mas por um policial. Gumercindo voltou a correr. Porém, influenciado pelo
trauma, perdeu ritmo. Foi alcançado por Prudêncio, que havia acelerado o passo
para tentar separá-lo do louco, mas não foi preciso. O terceiro colocado, um
norte-americano, também se aproximou. E os ultrapassou.
A prova foi vencida
pelo americano. Prudêncio poderia ficar em segundo. Mas deixou Gumercindo
ultrapassá-lo. Ele merecia a colocação. Foi o que declarou para a imprensa. Gumercindo
passou, mas não gostou. Chegou a discutir com Prudêncio:
— Poxa, Prudêncio! Não
precisava me ceder a posição! Assim, quem não se sente valorizado sou eu.
— Precisava sim. Você
estava liderando e caminhando para a vitória antes daquele maluco te segurar.
— Mas isso é um
problema meu, Prudêncio! Eu errei e tenho que assumir os meus erros. Você
também se desconcentrou e nem ganhar a corrida conseguiu.
— Então por que
resolveu passar?
— Só passei para a
gente não ficar discutindo ao vivo na televisão.
— Ah, Gumercindo!
Então tá. Eu quis te ajudar, mas se você prefere ser mal agradecido, paciência!
Não te ajudo mais! Irritou-se Prudêncio.
— Está bem, Prudêncio.
Está bem. Muito obrigado. Eu vou dizer pra imprensa que fiquei muito
agradecido. Mas não faz mais isso não. Se preocupa com você.
Resignado e
arrependido de ter ajudado, Prudêncio subiu ao pódio em terceiro lugar. Ganhou
apenas 20 mil dólares de premiação. Mesmo assim, foi mais assediado que o
vencedor norte-americano pelo seu fair
play. Este levou os dois brasileiros para o alto do pódio: Gumercindo pela
vitória merecida que não veio e Prudêncio pelo gesto nobre.
De volta ao Brasil, em
casa, levou outra bronca, agora da esposa, Natalie:
— Pelo amor de Deus,
Prudêncio! A nossa filha correndo risco de morte, precisando do dinheiro e você
deixa de ganhar o prêmio para ajudar os outros? Pagar o tratamento da Vitória
ninguém quer!
— Mas faz parte do meu
caráter, amor.
— Ninguém faz nada por
você, meu querido! Os outros só querem puxar o seu tapete. E o pior de tudo é
que nem o segundo lugar desta vez você conseguiu.
— Tudo bem. Você tem
razão. Prudêncio baixou a cabeça e foi treinar.
O gesto de jogo limpo
de Prudêncio continuou na mídia e na internet. Os patrocinadores voltaram. Um
deles pagou o tratamento de sua filha.
Ficaram dois meses nos Estados Unidos. Daniela acompanhando a filha no
hospital. Prudêncio treinando em Miami.
Passaram-se mais três
meses, Prudêncio voltava a competir, agora em Sidney, na Austrália. Já era a
quinta etapa do circuito mundial. Ele tinha ficado de fora das três anteriores
desde aquela prova da Califórnia, quando cedeu o segundo lugar. Estava sem
condições de competir por causa da sua filha, ficou treinando. Com ela curada,
estava totalmente em forma.
Prudêncio se saiu
muito bem. Foi o melhor no mar, na bicicleta e estava liderando até o
quilômetro final, de ponta a ponta, quando ouviu um grito de dor. Olhou para
trás e viu um australiano caído. Havia sofrido uma distensão muscular.
Parou. Voltou para
onde o australiano estava, o levantou e o carregou, apoiado no ombro.
Disparados, cruzaram tranquilamente a faixa final. Foram desclassificados. O
regulamento não permitia ajuda externa. O australiano agradeceu, mas reclamou
do brasileiro para a mídia do seu país, que, se fosse para ser desclassificado,
preferia ficar caído no chão.
Levou outra bronca da
esposa, que pela primeira vez já ameaçava separação, pois não queria ficar
casada com um marido derrotado. Magoado, Prudêncio concordou:
— Faça o que você
quiser.
Argumentando ter
ameaçado o divórcio no calor da emoção, Natalie acabou pedindo desculpas.
Prudêncio demorou um mês para aceitar e nesse período ficou sem falar com a
esposa, inclusive indo viajar para uma etapa sem dirigir a palavra a ela.
Na mídia, Prudêncio
continuou sendo uma atração pelo seu fair
play. O segundo gesto de solidariedade em um ano. Desta vez, se
atrapalhando. Foi entrevistado por programas de televisão, recebeu convites
para dar palestras sobre honestidade e ganhou prêmios de conduta ética.
O fair play de
Prudêncio continuou. Nos meses seguintes, abriu mão da vitória mais três vezes:
se recusou a cruzar a faixa depois que um etíope errou o caminho, ajeitou a
correia da bicicleta de um espanhol, perdendo a liderança e posições importantes
e, achando que fez uma ultrapassagem irregular, devolveu a posição para o
segundo colocado, o mesmo australiano que carregou e foi desclassificado junto
com ele. Natalie novamente discutiu com o marido. E os dois acabaram se
separando, mas não se divorciaram.
Prudêncio dos Santos
enfim venceu uma corrida na temporada. E logo o Iron Man, no Havaí, a última
etapa do circuito mundial, no qual terminou em terceiro lugar no geral. A
temporada foi vencida por outro brasileiro: Gumercindo dos Anjos, que o parabenizou
pela primeira vitória dupla.
Dupla porque Prudêncio
novamente praticou um gesto de jogo honesto. Salvou um chinês de um afogamento
no mar. Perdeu posições, mas se recuperou. Nas entrevistas só agradeceu aos
pais e mandou um beijo para a filha. Ignorou a esposa.
Contudo, na volta ao
Brasil, Natalie, que foi receber o marido no aeroporto, embora tratada com
frieza, pediu desculpas e lhe deu parabéns pela primeira vitória de muitas que
poderiam vir. Os dois fizeram as pazes. E mais um filho: Pierre, em homenagem
ao Barão de Coubertin, que criou as Olimpíadas e o lema “O importante não é
vencer, mas competir e com dignidade!”
Pierre ainda estava no ventre da mãe quando um novo ano
começou e com ele mais uma temporada, agora preparatória para os Jogos Olímpicos,
que seriam disputados na casa de Prudêncio e Gumercindo: no Rio de Janeiro. Os
dois já estavam classificados para o evento, indicados pela Federação
Brasileira. A temporada seria apenas preparatória.
Novamente, o circuito foi aberto na Califórnia, nos Estados
Unidos. Prudêncio ainda estava em ótima forma, motivado também pela espera do
seu segundo filho.
À imprensa, ciente de sua fama de bom competidor que ajuda
os rivais, ele garantiu que continuaria ajudando se fosse preciso. Largou na
praia na frente e liderou de ponta a ponta. Desde a areia, quando pulou na
frente no mar, até a corrida a pé.
Faltavam quinhentos metros para o final. A segunda vitória
na carreira parecia garantida. Parecia. De repente ele foi ao chão. Tinha
tropeçado nos fios de uma câmera de televisão. Teve dificuldades de se
levantar. Estava todo ensanguentado. Supercílio, nariz, joelhos e cotovelo.
Os adversários, todos que ele ajudou no ano anterior, chegaram
e o ultrapassaram: Gumercindo, o australiano que ele carregou, o
norte-americano, o etíope, o chinês que ele salvou do afogamento, o espanhol
que ele ajudou a consertar a correia da bicicleta e mais outro australiano, um
árabe, um russo, outro norte-americano, etc. Ninguém lhe ajudou.
Prudêncio terminou na vigésima-oitava colocação. E com mais
cinco pontos no supercílio, doze em cada cotovelo e vinte nos dois joelhos. No
direito teve uma fissura na rótula. Ficou dois meses de molho, sem competir e
treinar.
Foi visitado em casa (não chegou a ser internado no
hospital) por Gumercindo e o australiano. Expulsou os dois, com o apoio de
Natalie, pela ingratidão. Abriu mão de vitórias por eles, levou bronca dos dois
e quando precisou ninguém lhe acudiu. O corredor brasileiro, que seria padrinho
de Pierre, foi destituído do posto.
No dia seguinte, convocou a imprensa para anunciar que não
ajudaria mais ninguém. Cansou do fair
play. Cansou de ser bonzinho. A sua entrevista foi ironizada. A imprensa
sensacionalista insinuou: “Ele será ruim e desleal agora?”
Prudêncio recuperou-se da contusão a tempo de disputar as
Olimpíadas. Ignorou os ex-amigos com a desculpa de que estava extremamente
concentrado. Pulou no mar em quinto e nesta posição ficou em todo o percurso
aquático.
No ciclismo subiu para o terceiro lugar e passou a correr
em segundo, na metade do percurso (5 km) assumiu a liderança. Durante 50
quilômetros (1,5 km de natação + 40 km de ciclismo + 10 km de corrida), viu
dois concorrentes afogados, um com pneu da bicicleta furada, um atropelado e
três caídos durante a corrida. Não parou em momento algum. Sequer olhou para
trás.
Venceu a prova. Recebeu a medalha de ouro no pódio. Isso
depois de ignorar novamente Gumercindo, que ganhou a medalha de bronze. O clima
estava pesado. O ciclista atropelado, o australiano que ele expulsou de casa e
o ajudou a ser desclassificado no ano anterior, morreu a caminho do hospital.
Mesmo assim, Prudêncio ouviu o hino nacional brasileiro. O
norte-americano ficou com a prata. A mídia brasileira comemorou com vinhetas
alusivas ao Brasil. A alegria do triatleta que ajudava os concorrentes durou
pouco.
No dia seguinte, o exame antidoping deu positivo para
estimulante, analgésicos e anabolizantes. A contraprova também deu positivo. A
imprensa, que tanto elogiou seus gestos de generosidade, passou a execrá-lo.
Prudêncio assumiu a culpa e anunciou que o doping foi
intencional. Repetiu que tinha se cansado de jogar limpo. Escolheu jogar sujo.
Foi banido do esporte. Perdeu a bela esposa, Natalie, que mesmo ainda grávida
de Pierre e se sentindo culpada por ter expulsado o australiano que morreu na
olimpíada, disse na sua cara, quando anunciou o divórcio:
— Era feliz e não sabia com um homem derrotado pelo seu fair play. Mas não aceito um vencedor
insensível com a morte de um colega e que envergonha o país com uma vitória
suja.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance
“Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea
“Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess - http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/
e
PerSe
-http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
Seu blog, “Tudo cultural” -
www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
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