Acordo
judicial dos kaingang: nunca mais haverá vagina em Chapecó
* Por
José Ribamar Bessa Freire
O Diário do Iguaçu de
Chapecó (SC) acabou sendo vítima de seu próprio veneno. Vejam só a manchete
chocante da edição de 3 de maio de 2016, cuja foto de capa circulou nas redes
sociais: "GERÊNCIA DE SAÚDE AFIRMA QUE NÃO VAI FALTAR VAGINA". A
pergunta que se impõe é: foi erro de revisão, incompetência, sabotagem ou
sacanagem?
A mesma pergunta pode
ter sido feita quinze anos antes pelos índios quando leram no mesmo jornal
matéria igualmente surpreendente, em janeiro de 2001, ilustrada com uma charge.
É a entrevista com o vereador Amarildo Sperandio, então do PFL (vixe, vixe),
que afirmou ser "um absurdo os índios quererem mais terra, se não
produzem". Ignorante, alegou que "muitos na reserva de Toldo
Chimbangue, louros e de olhos claros, não são indígenas autênticos". A
charge assinada por Alex Carlos mostra um "homem branco" armado com
um machado, que ameaça um kaingang:
- "Já que índio
quer terra, vou dar sete palmos de terra pro índio".
Diante da morte
anunciada, no outro quadrinho o índio foge, deixando cair um celular, como
"prova" da "falsa identidade" dos Kaingang da região. Está
implícito que a terra assim desocupada pelos "falsos índios" pode ser
invadida pelas "classes produtoras" que respiram, enfim, aliviadas.
A incitação ao crime
levou os Kaingang a procurar o Ministério Público Federal (MPF) que processou o
jornal. Mas o Poder Judiciário local fez o que se costuma fazer na primeira
instância: julgou a ação improcedente. Afinal, se você abrir a cabeça de um juiz
vai encontrar lá dentro, quase sempre, fé em preconceitos, a mesma fé que
existe na cachola de um jornalista, ou o plural aumentado de fé, que é fé de
mais. Juiz e jornalista estudam na mesma escola, assistem os mesmos programas
de tv, leem o mesmo jornal e compartilham a mesma desinformação intolerante
sobre as culturas indígenas.
Danos morais
O MPF, porém, recorreu
ao Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região, que fez justiça e condenou os
acusados a pagarem R$ 100 mil aos Kaingang por danos morais coletivos causados
pelas matérias racistas. Os réus interpuseram recursos no Superior Tribunal de
Justiça (STJ), que se arrastaram nos últimos doze anos, mas nenhum deles foi
admitido. O caso transitou em julgado. Com a condenação definitiva em abril de
2016, o MPF ajuizou ação para os condenados pagarem R$ 850,00 de indenização em
valores atualizados, com juros, honorários e multas.
O Diário do Iguaçu,
tabloide colorido criado em 1997, com tiragem de 10 mil exemplares diários,
feito por 130 trabalhadores diretos e terceirizados, alegou impossibilidade de
efetuar o pagamento, sob o risco de falir como O Iguaçu, seu antecessor, o que
não é uma boa notícia. Trata-se do
principal veículo impresso do interior de Santa Catarina, com correspondentes e
sucursais nas principais cidades da região, vários cadernos temáticos que
cumprem uma função educativa e são usados nas escolas.
O cacique da Terra
Indígena Toldo Chimbangue, Idalino Fernandes, deu provas de sabedoria e não
deixou o jornal morrer:
- “Eles disseram que
se fossem pagar em dinheiro, teriam que fechar o jornal. Eu disse: nós não
queremos dinheiro, queremos que vocês contribuam com a comunidade, informando
as pessoas para que elas saibam os absurdos que vocês falaram. Precisamos
também de pessoas formadas em Direito e Pedagogia. Isso é mais importante que
dinheiro”.
A indenização
Da negociação entre as
partes, nasceu um acordo interessante. O jornal custeia estudantes indígenas na
Universidade Comunitária Regional de Chapecó (UnoChapecó) em vagas nos cursos
de agronomia, direito e enfermagem, além de uma turma de 20 a 30 professores
indígenas num curso de pós-graduação em Educação Intercultural: Metodologias de
Ensino na Educação Básica. O pagamento do jornal à Universidade será feito
através de permuta com a cessão de espaço.
Além disso, o Diário
do Iguaçu fica devendo ainda R$ 390 mil para saldar toda a dívida. Os Kaingang
aceitaram que o resto seja pago também por meio de cessão de espaço. Durante
cinco anos, o jornal vai publicar informativos, artigos, notas e quaisquer
outras publicações de interesse dos índios, solicitadas pelo cacique Idalino.
De repente, pela primeira vez na história do país, um jornal pode publicar uma
coluna bilíngue português x kaingang, valorizando a língua, furando o bloqueio
do racismo e dando maior visibilidade aos índios.
O inédito acordo
judicial permite que os Kaingang usem mais um instrumento para combater a
ignorância, a barbárie e o preconceito, que já foram responsáveis por muitas
mortes, incluindo a de Vítor Pinto, uma criança Kaingang de dois anos, da
Aldeia Kondá, comunidade indígena de Chapecó, degolada em dezembro passado no
colo de sua mãe quando ela vendia artesanato no litoral catarinense. O
Procurador da República de Chapecó (SC), Carlos Humberto Prola, considera que
"o acordo é importante pela autonomia que os indígenas terão na gestão do
espaço no jornal".
O cacique Idalino
concorda, argumentando que "o preconceito era muito forte, a maioria da
população de Chapecó era contra a gente sem falar nos vereadores, que sempre
faziam discursos contrários". Depois da decisão do TRF, as manifestações
racistas dos vereadores cessaram, ao menos publicamente, informa nota do
Conselho Indigenista Missionário (CIMI-Sul).
Troca de letra
As manifestações
racistas ocuparam as páginas do jornal durante todo o tempo em que o processo
transitou nos tribunais. O Sindicato dos Professores de Santa Catarina repudiou
publicamente outra charge publicada em 09 de agosto de 2012, que discrimina
alunos cotistas das universidades federais, acusando o Diário do Iguaçu de não
apurar os fatos para informar com imparcialidade. A nota conclui:
- "Um veículo
tendencioso e preconceituoso não deveria fazer parte da leitura diária dos
catarinenses. Esperamos que a direção desse Jornal se retrate, pois pais,
alunos e professores de Chapecó e região estão revoltados pela desqualificação
da escola pública apresentada na referida Charge. Esperamos ainda que o Jornal
não volte a tratar de qualquer questão de forma discriminatória e desrespeitosa".
Ah, e a falta de
vagina? Pesquisa feita por Riomar Bruno revela que a manchete verdadeira do
jornal foi outra, mas alguém a adulterou com uma caneta, transformando a letra
"c" de vacina na letra "g", tirou uma foto e publicou no
facebook. Mas nem por isso as vacinas deixaram de ser vacinas da mesma forma
que os kaingang continuam kaingang, independente das adulterações feitas. De
qualquer forma, com a decisão judicial, suspeito que depois disso não haverá
mais vagina em Chapecó.
P.S. - Agradeço a
Natalie Unterstell pela informação sobre o andamento e resultado do processo
movido pelos Kaingang.
*
Jornalista, professor e historiador.
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