Momentos de
felicidade
A capacidade de ter (e de expressar) gratidão é uma das
características das pessoas felizes. Elas nunca se consideram credoras da ajuda
e da consideração dos que as cercam. E sabem ser gratas aos parentes, pelo
carinho; aos cônjuges, pelo amor; e aos amigos, pela amizade manifestada.
Victor Hugo constatou, em um de seus livros, que “os infelizes são ingratos”. E
arremata: “a ingratidão faz parte da infelicidade deles”.
Temos tantos e tão variados motivos de gratidão bastando,
para identificá-los, olharmos atentamente ao nosso redor. Devemos ser gratos
aos nossos pais pela oportunidade da vida e pelos desvelos na nossa criação e
pelos princípios que nos transmitiram, e à natureza, por nos proporcionar todos
os recursos que asseguram nossa sobrevivência. Agindo assim, já teremos dado um
grande passo para sermos felizes. Afinal, a felicidade não se acha por aí, mas
se conquista, com sensibilidade e sabedoria. E com reconhecimento das coisas
boas que nos acontecem e com a conseqüente gratidão, por termos esse
privilégio.
Um dos maiores pecados que uma pessoa pode cometer, se não o
maior de todos, é o de não ser feliz. É o de alimentar rancores, inveja, cobiça
e egoísmo, em detrimento dos sentimentos nobres, das emoções sadias e dos atos
de grandeza. A felicidade, ao contrário do que muitos pensam, não consiste na
posse de bens materiais e nem na companhia de pessoas que os sirvam e bajulem.
Estes até podem contribuir para que sejamos felizes, mas, sozinhos, não nos
proporcionam essa desejada bem-aventurança. A felicidade não é nada concreto,
visível ou palpável, mas um conceito, uma postura, um comportamento.
Há pessoas que a deixam de usufruir, por não a saberem
sequer identificar, quanto mais valorizar o que de bom a vida lhes proporciona.
Contam, por exemplo, com uma família unida e amorosa; são cercadas de afeto de
múltiplos amigos por todos os lados, mas não sabem dar valor a esse magno
privilégio, alheias ao fato de que a maioria não conta com essa bênção. Apostam
na infelicidade e findam por, de fato, serem infelizes. Devemos ser pródigos em
agradecimentos e parcimoniosos em reclamações. Caso contrário...Seremos rematados tolos de chutar nossa felicidade
para um lugar em que jamais a conseguiremos alcançar.
Ninguém, em lugar algum, é feliz o tempo todo. Isso não
existe. Sempre haverá uma preocupação, uma angústia, um contratempo, um
desgosto qualquer, pequeno ou grande, para nos atormentar. Isso, contudo, não
pode influir em nosso humor, não pelo menos por muito tempo. A felicidade é
constituída de “momentos”, mais ou menos duradouros, de acordo com nossas ações
e, também, da nossa percepção. Um deles, por exemplo, é quando passamos por um
desses campinhos improvisados de futebol do bairro e uma bola sobra,
redondinha, pererecando, para nós. Mesmo engravatados, com a pasta 007 à mão e
os sapatos de cromo alemão tolhendo os movimentos, conseguimos dominá-la, fazer
duas ou três embaixadas sem que ela nos escape ou caia no chão, e endereçá-la,
certeiramente, de volta à molecada, sob aplausos admirados (ou mesmo
galhofeiros, não importa) dos meninos. Nesses instantes, nos sentimos,
secretamente, o próprio Neymar a entortar os zagueiros adversários numa final
da Copa da Uefa.
Outro momento de felicidade (pelo menos para mim) é quando
passo o dia com meu neto e retorno, sem vergonha ou sem censura, à infância,
revivendo, nele, os inocentes sonhos infantis que um dia acalentei. Outro, é
quando de manhã, aos primeiros raios de sol, sigo em direção da padaria, para
comprar leite e pão, com passo lento e preguiçoso, cumprimentando, à esquerda e
à direita, vizinhos, conhecidos, amigos ou, principalmente, estranhos e recebo,
em retribuição, um sorriso. Outro, ainda, é quando me dou conta de que
praticamente cumpri com todas as obrigações que a vida me impôs, de que criei
(e bem) meus quatro filhos, mas que ainda tenho saúde e disposição para
usufruir as coisas boas que há no mundo. E há milhares e milhares de outros
momentos, tantos que até me fogem da memória, em que sou grato por tudo o que
tenho e pelo que sou, e em que estou em paz comigo mesmo.
Um dos desafios mais árduos e, no entanto, mais
compensadores, é o de aprender a lidar com frustrações de toda a sorte em nosso
cotidiano e evitar que elas se transformem em crônicos aborrecimentos. Para o
bem da nossa saúde física e mental, e para o bem-estar dos que nos cercam e que
conosco convivem, devemos manter sempre constante o nosso bom-humor, sem
permitir que qualquer incidente, seja de que tamanho ou natureza for, o
comprometa e arruíne. Devemos ter em mente a sábia observação do filósofo Ralph
Waldo Emerson: “Para cada minuto que você se aborrece perde sessenta segundos
de felicidade”. Não parece, mas se trata de perda irreparável. Há pessoas que
perdem não apenas um minuto, mas horas sem fim, dias, meses, anos, quando não a
vida toda, acalentando mágoas, chateações e desejos de vingança, abdicando da
possibilidade de serem felizes. Vale a pena abrir mão de tanto por tão pouco?
Claro que não!
Há um mundo a ser conquistado, que desafia o nosso talento e
a nossa competência. Para isso, porém, o medo de se expor tem que ser,
necessariamente, deixado de lado. Objetivos claros e definidos precisam ser
traçados (e seguidos rigorosamente). O resto... Bem, o resto é colocarmos no
empreendimento tudo de nós. É aliar ação à emoção, técnica ao sentimento,
conhecimento ao amor pelo que se faz.
Há tempos, ouvi, de alguém, uma citação, cujo autor
desconheço, e que nunca mais me saiu do pensamento, que diz: “Quando nascemos,
todos ao nosso redor riem e apenas nós choramos. Vivamos uma vida de tal sorte
que, ao morrermos, todos chorem nossa partida e somente nós possamos sorrir,
com a certeza do dever cumprido”. Isto é o que entendo por “ser feliz”. O
resto? Bem, o resto.não conta. Isto sim é viver com alegria e entusiasmo. Ou,
simplesmente, é viver!
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
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