Duas pizzas e seis fomes
* Por
Fernando Soares Campos
Tragédia em Dor Maior
O menino achou um
celular. Esfregou o aparelho no calção removendo as incrustações mais densas.
Apareceram alguns nomes e números desbotados e uma pequena rachadura num
cantinho. Ficou feliz, acenou com o seu troféu para a mãe. Ela também encontrara
alguma coisa de certa importância que guardara no bolso do vestido. Os trastes
de menor valor foram jogados no saco surrado. Mais adiante, a menina parecia
ter menos sorte. Entre seus achados contabilizava apenas algumas latinhas de
alumínio e alguns pedaços de arame retorcido. “Se pelo menos fosse cobre!”
Os caminhões da
limpeza urbana chegavam a todo momento carregados de esperança. Em marcha a ré,
aproximavam-se do barranco e despejavam a
matéria-prima daquela indústria dos catadores. Os operários do lixão
reviravam tudo, e em tudo sempre havia algumas coisas que poderiam significar
um dia menos magro.
No lixão de Gramacho,
na Baixada Fluminense, ao meio-dia, quando a temperatura aproxima-se dos
quarenta graus, um mau cheiro nauseante impregna a atmosfera. Urubus e seres
humanos disputam a sobrevivência. Nada é exatamente o que parece ser nas telas
de tevê. Ao vivo, a realidade é outra.
Leonardo, o menino do
celular, já viveu doze escaldantes verões. Sua irmã, Verônica, a menina que
gostaria de achar cobre em vez de arame, já passou dez sofridas primaveras.
Eles têm ainda três irmãos menores. Tuca, sete anos, fica em casa tomando conta
dos outros dois. A mãe, Cimara... quer dizer, Mara do Lixão, como todos a
conhecem, não teve apenas os cinco rebentos que lhe fazem companhia no barraco
misto de madeira e alvenaria. Foram sete. Dois deles morreram antes de passar
pelas quatro primeiras estações. Uma mãe, cinco pais e sete partos. Dois dos
seus maridos morreram, ambos assassinados: um, por causa de dívida com o
tráfico de drogas, o outro, numa briga com um vizinho — doze facadas. Dos
outros três, sabe-se apenas do que está na cadeia. Flagrado pela vigilância,
roubando comida de um mercadinho do bairro, pegou seis anos. Supostamente,
Leonardo é filho do primeiro marido, e Verônica, do segundo.
Naquele dia os três
conseguiram transformar a coleta conjunta em pouco mais de cinco reais. Há dias
em que obtêm melhores rendimentos, entretanto também ocorrem resultados ainda
mais minguados. Estão acostumados àqueles parcos apurados. Sabem até quais os
melhores dias no lixão. Baseados no tipo de material despejado, reconhecem a
origem da coleta: lixo “de primeira”, “de bacana”, “coisa fina”, “filé”, é como
definem os bons despejos. Não gostam de perder tempo com “favelão”, “lixo do
lixo”, como designam as descargas oriundas de áreas pobres.
No barraco onde moram,
quase tudo foi encontrado no lixo, inclusive a maior parte das roupas que
vestem. Calçados, bijuterias, bolsas, talheres, pratos, canecas, quadros,
enfeites, jarros, brinquedos, panelas, frigideiras, cinzeiros, bibelôs, tudo
veio do lixão. Vez ou outra, dinheiro vivo, quase sempre moedas de pequeno
valor. Mas também, não muito raro, acham cédulas, geralmente de um real.
Leonardo já ouviu um catador antigo dizer que um companheiro encontrara um
pacote com muitos dólares. Aprendeu que se trata de dinheiro estrangeiro, de
valor impressionante. Pelo visto, um dinheiro bastante cobiçado. Mesmo assim,
Leonardo prefere encontrar uma grande quantia do bom e conhecido real, notas
graúdas, umas cem notas de cem — para ele, esse é o referencial de uma
verdadeira fortuna. Acredita ser o bastante para comprar uma casa fora da
favela. Sonha em tirar sua mãe e irmãos daquele ambiente.
O barraco é um único
cômodo de uns trinta metros quadrados. Ali todos se acomodam para comer,
conversar e dormir. Nos fundos há um pequeno espaço improvisado para o banho
sobre uma tábua escorregadia. Tem um vaso sanitário encardido no qual um tubo
de material plástico acoplado serve de escoadouro até a vala que passa no meio
da favela.
Todos pareciam
satisfeitos após tomarem o sopão de legumes que a mãe preparara. Verônica
penteava Babi, a sua boneca de um só braço. Leonardo, sentado a um canto,
observava o celular. Tuca e os dois menores pareciam interessados no aparelho,
enquanto o menino apertava as suas teclas, encostava-o no ouvido, aguardava,
mexia, aplicava-lhe leves pancadas e novamente tentava escutar.
— Tá ouvindo o quê,
Leo? — perguntou Tuca, a menininha de fala arrastada.
Leonardo fingiu que
falava com alguém:
Sim, pode mandar.
Mandar o quê, Leo? —
quis saber sua irmã.
— Das grande, duas das
grande — completou ele e logo fingiu que desligou o aparelho.
Os dois mais novos
apenas observavam. Tuca não acreditou que o irmão houvesse falado com alguém.
— Esse celular tá
quebrado — disse ela.
— Quebrado?! Quebrado,
é?! Quebrado, nada! Tá falando sim, tá falando. Pedi duas pizza. Das grande.
— Então deixa eu
falar.
— Eu também quero
falar — disse Caco, de quatro anos, com sua fala embolada devido à chupeta que
não tirava da boca.
- Falar com quem?
Vocês não conhecem ninguém!
- Eu conheço sim, conheço
muita gente — protestou Tuca.
- Mas não sabe o
número de nenhum telefone — afirmou Leonardo.
A menina ficou
pensativa. Verônica entrou na discussão:
— Tuca não sabe, mas
eu sei.
— De quem? Tu sabe o
número do telefone de quem? — quis saber Leonardo.
— Do pai do Caco.
Caco ficou eufórico:
— Eu quero falar com
meu pai!
— Ah! que mentira! O
pai do Caco até já morreu — afirmou Leonardo.
— Mas, quando ele tava
vivo, a mãe telefonava de vez em quando pro trabalho dele, e eu me lembro do
número do telefone.
Caco insistia:
— Quero falar com meu
pai!
— Tá vendo o que você
fez?! Agora o moleque tá pensando que o pai tá vivo.
— Deixa pra lá,
Caquinho — disse Verônica. — Esse celular num presta mesmo.
— Meu celular tá na
moral. Melhor que tua boneca aleijada.
Dizendo isso, Leonardo
foi para a cama que dividia com os dois irmãos menores. As meninas dormiam na
outra com a mãe.
Cimara retornou do
barraco da vizinha com quem costumava trocar idéias quase todas as noites.
Botou os filhos para dormir e também se acomodou na cama com as duas meninas.
Umas frestas no
telhado do barraco permitiam a penetração de luz externa, mantendo uma certa
claridade, mesmo com a lâmpada apagada.
Cimara, a julgar pelo
barulho do seu ronco, dormia um sono profundo quando Tuca sussurrou no ouvido
de Verônica:
— Vamo telefoná?
— O quê?! Vai dormir,
vai! Tá de bobeira, é?! Se a mãe acordar num vai gostar — advertiu Verônica.
— Ah! mais eu
queria...
— Num tem mais nem
menos, cala essa boca e vai dormir, vai!
Já passava da
meia-noite, todos dormiam... Todos, não, pois Tuca se mantinha acordada. E não
era por causa dos tiros de fuzil que de vez em quando espocava na área próxima,
porque isso era praticamente rotineiro, e a maioria dos moradores da favela já
estava acostumada a eles. Sabe até distingui-los do pipocar dos fogos que
anunciam a chegada da polícia.
Tuca não desgrudava os
olhos do aparelho celular que Leonardo segurava enquanto dormia. Ela ergueu a
cabeça, olhou em volta e certificou-se de que sua mãe e seus irmãos ressonavam.
Esgueirando-se, a menina saiu da cama e se aproximou do outro leito.
Cuidadosamente apanhou o celular do irmão e levou-o ao ouvido. Certamente não
escutou nada. Olhou para o aparelho, mexeu em algumas teclas e novamente tentou
ouvir alguma coisa. Afastou-se dali, foi até o banheiro. Sentou-se no vaso
encardido. Deu uns tapinhas naquela pequena sucata. Mexeu nas teclas,
experimentou a escuta, esperou um instante e falou baixinho:
— Mande duas das
grande. Duas das grande — sorriu.
Cimara acordou-se e,
ainda sonolenta, passou a mão, como de costume, para verificar se as filhas
estavam na cama. Sentiu a falta de uma. Virou-se e não viu a mais nova.
Chamou-a:
— Tuca!
A menina no banheiro
ouviu o chamado da mãe. Respondeu:
— Tô aqui, mãe.
— Que é que você tem?
Tá passando mal?
Tuca, rapidamente,
apareceu ao lado de Cimara. O celular estava escondido sob o vestido, preso
pelo elástico da calcinha.
— Não, mãe, só fui no
banheiro.
— E por que não me
chamou? Tá com dor de barriga?
— Não, foi só vontade de fazer xixi.
— Então vai dormir.
Pela manhã, um domingo
ensolarado, enquanto as crianças ainda dormiam, Cimara já estava na rua
garimpando a alimentação da prole. Aos domingos e feriados, revirava a lixeira
de um restaurante na Rodovia Rio-Petrópólis, onde costumava encontrar restos de
frutas e legumes, além de pedaços de frango assado, geralmente acompanhados de
farofa e batata frita, a preferência dos filhos. No entanto aquele não parecia
ser um bom fim de semana. Até as duas da tarde, não pintou um latão farto.
Cimara voltou para o barraco com alguns poucos pedaços de pão e uma sacola com
uma mistura de macarrão e arroz engordurada por um molho de panela. Almoçaram.
Leonardo não se
desgrudava do celular. A todo momento, fingia que atendia alguma chamada:
— Alô, sou eu... o
Leo... — fazia pausas e poses —, o filho da Cimara...
— Nem tocou! Eu sei
que tá quebrado — disse Verônica.
— Tá tocando baixinho,
você não ouviu porque é surda.
— Eu também não ouvi
não — confirmou Tuca.
— Eu vi, eu vi... —
falou Caco. — Agora, Leo, deixa eu falar com meu pai, deixa, deixa...
— Tá bom, Caquinho, eu
vou deixar tu falar com teu pai.
Leonardo apertou
algumas teclas e encostou o aparelho no ouvido do irmão menor.
— Pronto, pode falar.
O pequenino ficou
radiante, esboçou um sorriso. Com os olhos brilhando, parecia esperar ouvir a
voz de alguém. Leonardo insistiu:
— Fala, moleque! —
dizendo isso, encostou o celular no próprio ouvido e falou:
— O Caco vai falar,
seu Renato.
Novamente aproximou o
celular do ouvido do irmão. Caco gritou:
— Pai, manda duas das
grande, duas bem grande... Bem grande!
— Pronto, já falou.
Leonardo recolheu a
pequena sucata de telefone.
— Tudo mentira —
afirmou Verônica.
— Mentira! Tu diz isso
porque num tem um desse.
Quando Cimara chegou
em casa, já passava das oito da noite. Saíra em busca do jantar. E desta vez
tivera melhor sorte. Trazia uma sacola com alguma coisa de forma arredondada.
Jogou-a sobre a tosca mesa de tábuas de caixote. As crianças olharam curiosas
para a sacola.
— Mãe, eu falei com
meu pai, eu falei com meu pai... — gritava Caco eufórico.
— Que história é essa,
menino?! — perguntou Cimara.
— Foi o Leo que
enganou ele, mãe — informou Verônica. — Botou ele pra falar no celular quebrado
que ele achou no lixão. Só pra enganar o menino.
— Que é isso aí, mãe?
— perguntou Tuca apontando para a mesa.
Cimara pegou a sacola,
abriu-a e mostrou para os filhos.
— Pizza. Encontrei num
latão lá no shopping.
Leonardo apressou-se
em pegar a sacola da mão da mãe e conferir o seu conteúdo. De olhos
arregalados, falou:
— Caraca! duas... das
grande! Como eu pedi!
Todos se animaram.
O celular do Leo num
tá quebrado nada! — garantiu Tuca. — Duas pizza grande, como a gente pediu.
— Eu que pedi —
corrigiu Leonardo.
— Eu também pedi —
lembrou Caco.
— Tá todo mundo de
bobeira. Essas pizza foi a mãe que achou — afirmou Verônica.
Cimara cortou a
primeira pizza em quatro grandes pedaços. Leonardo, Verônica, Tuca e Caco
receberam essa primeira divisão. Mimo, o mais novo, ainda não sabia falar;
porém, vendo o banquete dos irmãos, esticou os braços com as mãos estendidas e
gemeu exigindo sua parte. Cimara cortou um pedaço da segunda pizza e deu para o
filho caçula, que o levou à boca vorazmente. Também pegou um para si.
— Se tivesse guaraná,
era melhor — lembrou Tuca.
— Eu prefiro coca —
disse Verônica.
— Eu também —
concordou Caco.
Leonardo, com o
celular colado ao ouvido, falou:
— Uma coca e um
guaraná, dos grande, de dois litro.
Verônica duvidou:
— Se vinhé, eu dou
minha cara a tapa!
Cimara repreendeu a
filha:
— Que isso, menina?!
Isso é lá coisa que se fale?!
— Eu só tava querendo
dizer que é mentira do Leo, que esse celular tá quebrado.
Leonardo, ainda ao
telefone:
— Amanhã nóis vamo dá
uma festa, pode mandar uns vinte litro...
Tuca e Caco vibraram.
Sentada na cama,
Cimara observava os filhos satisfeitos, comendo pizza e sonhando com
refrigerantes. Ela, ainda mastigando, sentiu um certo azedume. Olhou para o seu
pedaço e cheirou-o. Pela sua expressão, devia ter sentido um mau cheiro de
comida estragada. “Tem nada não. A gente já comeu muita coisa assim, e nunca
passou de umas dor de barriga”, pensou.
Às dez da manhã
daquela segunda-feira, Odete, a vizinha, estranhou: o barraco da amiga estava
em silêncio; não se ouvia o costumeiro barulho que Tuca e os irmãos menores
faziam enquanto Mara e os dois mais velhos estavam no lixão. Até aí Odete
apenas estranhou. Mas, ao meio-dia, não se conteve e bateu nas tábuas do barraco
chamando pelas crianças. Silêncio. Em pouco tempo, outras pessoas da vizinhança
insistiam, agora chamando por todos, pois Alípio, um velho catador, já havia
retornado do lixão e garantia que Mara e seus filhos não tinham ido trabalhar
naquele dia.
Quando os vizinhos,
depois de forçarem a porta, entraram no barraco, não entenderam bem o que
estava acontecendo. Aproximaram-se cautelosamente de Mara e seus filhos, que,
estranhamente, pareciam dormir.
Odete foi a primeira a
tentar acordar a amiga. Inicialmente chamando-a pelo nome e sacudindo o seu
braço. Mesmo assim ela não dava sinais de despertar. Percebendo a gravidade do
que estava ocorrendo, os demais amigos se aproximaram das crianças e chamaram
por elas. Em vão. Não demorou muito para entenderem que todos ali dormiam um
sono profundo, distante, sem retorno.
Angústia, um tremor
nas mãos, um balbuciar desconexo, um grito, um gesto de inconformismo, troca de
olhares perplexos, muitas perguntas, nenhuma resposta, uma lamentação
blasfemante, olhos turvando-se de lágrimas, um choro revelando profundo pesar,
e um providencial desmaio para fugir daquele pesadelo real. Todos estavam
tomados de assombro diante do cenário. Ninguém conseguia entender o que havia
acontecido. Afinal, Mara do Lixão, mesmo na miserável condição de vida que
levava, sempre se apegara à esperança de ver seus filhos bem criados. Todos
sabiam o quanto ela amava sua prole e do que seria capaz de fazer para
defendê-la.
Desmaiada, Odete não
percebeu que Jorginho, seu filho caçula, já no quinto ano de peraltice, havia
se apoderado do bom pedaço de pizza mista que deixaram sobre a tosca mesa de
tábuas de caixote. Correndo pelos becos da favela, o moleque devorava a iguaria
italiana, borrifada de raticida.
*
Jornalista e escritor
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