De Maria Meirelles para Jair Bolsonaro
* Por
José Ribamar Bessa Freire
“Oh,
pedaço de mim
Oh,
metade arrancada de mim. (...)
A
saudade é arrumar o quarto
Do
filho que já morreu”. (Pedaço de mim. Chico Buarque).
Exmo. sr. capitão paraquedista reformado
Deputado Jair Messias Bolsonaro (PSC/RJ)
Sou Maria Garcia
Meirelles, amazonense de Parintins, mãe de Thomaz Antônio da Silva Meirelles
Neto, ex-secretário geral da União Brasileira de Estudantes Secundaristas
(UBES), preso, torturado e assassinado na prisão. Escrevo-lhe porque o senhor
matou meu filho outra vez no domingo passado, em sessão da Câmara de Deputados,
ao fazer uma apologia do crime exaltando seu colega de armas, coronel Carlos
Alberto Brilhante Ustra, torturador e assassino reconhecido, responsável por 60
mortes e por mais de 500 casos de torturas cometidos no Doi-Codi entre
1970-1974.
Neste período, capitão
Bolsonaro, Thomazinho combatia o golpe militar que rasgou a Constituição,
derrubou o presidente eleito pelo voto popular, instituiu a censura e suprimiu
as liberdades democráticas. Por isso, em 1970, foi preso e torturado no
Doi-Codi. Condenado, cumpriu pena. Libertado dois anos depois, teve que se
esconder. Foi aí que viajei ao Rio para encontrá-lo, na clandestinidade,
levando um pouco do sabor de sua infância - uma paçoquinha que eu mesma fiz no
pilão e que ele gostava tanto.
Nosso encontro foi
numa noite de fevereiro de 1973 em Copacabana. Senti dor imensurável ao ver o
fruto das minhas entranhas machucado, lanhado, com marcas de tortura e
cicatrizes no corpo. Era um pedaço de mim que estava ferido. Provou a
paçoquinha e deitou a cabeça no meu regaço, sempre calado, discreto e triste.
Eu lhe fiz muito carinho, sem saber que era uma despedida. Essa foi a última
vez que o vi.
A guerra suja
Meu filho voltou a ser
preso em 7 de maio de 1974, quando viajava do Rio a São Paulo, conforme
documentos do DOPS/SP e relatório do Ministério da Marinha assinado pelo
ministro Ivan Serpa. Cinco anos depois, o nome de Thomazinho constava numa
lista publicada pelo Correio da Manhã (03/08/79) com 14 presos mortos pelos
serviços secretos das Forças Armadas, mas somente em 1995 ele foi considerado
oficialmente desaparecido. O corpo até hoje não foi localizado.
Durante anos, não
assumi o luto por meu filho, sempre com a esperança de reencontrar a quem me
fez mãe. É que quando ele nasceu, eu também nasci como mãe. Admitir sua morte
era, além de amputar uma parte de mim, matar minha maternidade. Meu filho era
muito inteligente, doce, educado, generoso. Um príncipe. Todos gostavam dele.
Eu não o esqueci nem um minuto, não podia imaginar um amanhã sem ele. Nunca
soube de seu paradeiro. Levou tempo para ter a certeza de seu assassinato.
A notícia foi
confirmada quatro décadas depois pelo seu colega, capitão Bolsonaro, o
ex-delegado do DOPS, Cláudio Guerra, atirador de elite, que escreveu o livro
"Memória de uma Guerra Suja" para exorcizar os demônios que o
atormentavam. Em entrevista a Alberto Dines, em junho de 2012, no Observatório
da Imprensa, ele contou histórias de assassinatos e torturas durante a ditadura
militar:
- “Hoje mais uma
historia triste para esclarecer é (do) desaparecido político Thomaz Antônio da
Silva Meirelles. É...recebi um chamado do coronel Perdigão e fui ao quartel da
Barão de Mesquita (...) Ali o coronel Perdigão me entregou um corpo num saco
preto, né, (...), quando chegou em Campos abri o saco, vi que se tratava de um
homem aparentando ter mais ou menos 40 anos. E muito machucado, ele estava
apenas vestido com um calção, não tinha as unhas das mãos, estavam arrancadas,
o rosto bem desfigurado pelas torturas, com sinais de queimaduras...".
Viva a morte!
A brutalidade da cena
agride a humanidade. Quanta dor! Não desejo esse sofrimento para ninguém,
capitão Bolsonaro, nem para dona Olinda - a sua mãe, nem para Michelle - sua
esposa, nem para qualquer um de seus filhos - Eduardo, Flávio, Carlos, Renan e
Laura. Ninguém merece isso, nem mesmo um execrável torturador. No meio da
barbárie, luto para preservar minha humanidade. Vocês tiraram duas vidas: a
minha e a do meu filho. Aconselhada a pedir indenização, não o fiz. O que
queria era a verdade, nada mais, saber o paradeiro do meu filho em cujo túmulo
em lugar desconhecido não pude colocar uma flor ou acender uma vela.
O assassinato de
Thomazinho como de tantos outros foi uma extrema covardia. Ele estava preso,
desarmado, legalmente sob proteção do estado. Os assassinos, com salários pagos
pelo contribuinte, envergonham o Exército nacional por praticarem um crime
abjeto contra a humanidade, conforme definido pelo Direito Internacional. Como
pode um ser humano se degradar tanto a ponto de torturar ou de apoiar a
tortura? O senhor defendeu a tortura cometida por um coronel armado contra
Dilma Roussef, uma mulher indefesa.
A sua declaração de
voto, capitão Bolsonaro, revela covardia, que não me surpreende, pois o senhor
é um notório agressor profissional de mulheres. Ofendeu Maria do Rosário
(PT-RS) quando ela defendeu a Comissão da Verdade, insultou Benedita da Silva
(PT-RJ), ameaçou a advogada indígena Joênia Wapichana, a cantora Preta Gil, a
ministra Eleonora Menucucci (PT/MG), a senadora Marinor Brito (PSOL-PA) e até
Marta Suplicy (PMDB/SP) quando ela defendia projeto de lei que criminaliza a
homofobia. Tudo isso escancaradamente, publicamente.
Racista, homofóbico e
fascista, a sua declaração em favor da tortura ecoou como o grito necrófilo e
insensato de "Viva la Muerte" do general espanhol José Millán-Astray,
em 12 de outubro de 1936, criticado por Miguel de Unamuno, reitor da
Universidade de Salamanca, para quem só um mutilado mental carcomido pelo ódio
é capaz de gritar "morra a vida".
Capitão Bolsonaro, no
Congresso do Cunha comandado por um réu no STF, o senhor votou e declarou que
votava "sim" porque era a favor da tortura. Mais claro não canta um
galo. Sua declaração de voto a favor da tortura me deu a certeza de que aquilo
que está acontecendo no Brasil é mesmo um golpe. O Fora Dilma equivale a um
Fora Thomazinho e Fora todos aqueles que combateram o outro golpe, o de 1964.
Tenho pena do senhor
pela besta-fera em que se transformou. Morro de vergonha de vê-lo representando
parcela do povo brasileiro no Congresso Nacional. Se viva fosse, diante de
tanta afronta e de tanto escárnio, me sentiria representada pela reação do
deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ) e pela ação atribuída à torcida do Corinthians
na montagem da foto que circulou nas redes sociais.
P.S.1 - Só foi
possível psicografar esta carta de dona Maria, já falecida, graças a entrevista
que ela deu a Jocilene Chagas em 1995.
P.S. 2 - "Dilma
não denunciou o impeachment como golpe em seu discurso na ONU" - anunciou
o Jornal da Band (22/04). O apresentador Boechat fez questão de esclarecer que
em nenhum momento a presidente Dilma ou qualquer outra fonte do Planalto informaram
que ela assim o faria, que as fontes de tal informação eram da oposição. Mas na
abertura do Jornal Nacional da Globo, minutos depois, Alexandre Garcia anuncia:
"Dilma recuou e não denunciou o processo de impeachment por causa da
pressão da oposição e do STF". Quer dizer, eles inventaram que ela ia
falar, era uma invenção deles. Ela não falou e eles mantiveram a inverdade,
dizendo que ela havia recuado. Uma mentira justificando a outra. Trata-se de
desinformação e de manipulação descarada da opinião pública. As organizações
Globo perderam toda compostura. Viva la Muerte!
*
Jornalista e historiador.
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