Política leva parisienses a ignorarem
epidemia
A ocorrência de qualquer epidemia (e não importa de que
doença) tumultua a vida das cidades em que ocorrem, alterando por completo sua rotina
de vida e, não raro, causando pânico entre a população. Isso, certamente, soa
ao leitor como o óbvio do óbvio. E refiro-me, aqui, ao nosso tempo, ao século
XXI, com todos os recursos disponíveis em toda e qualquer área de atividade que
se imagine. Mesmo as localidades de países paupérrimos – da África, da Ásia e
de algumas regiões da América Latina – dispõem, hoje em dia, de maiores facilidades
de atendimento do que dispunham enormes cidades do século XIX, notadamente da
Europa. Recorde-se que naquele tempo a Medicina ainda era incipiente, empírica,
na base da “tentativa e erro”. Destaque-se, por conseguinte, que sequer eram
conhecidos vírus e bactérias, os causadores das epidemias. Por isso, ninguém
cogitava (e nem poderia) na existência de vacinas e nem da adoção de tantas
outras medidas preventivas, hoje primárias e corriqueiras, mas que então eram
desconhecidas.
Dessa forma, as manifestações epidêmicas de doenças como a
peste, o cólera, a varíola, a febre amarela e tantas outras, em determinada
cidade, no mínimo alteravam dramática e violentamente seu ritmo normal. Não raro,
causavam pânico entre a população (e entre as autoridades), provocando o êxodo
de quem tinha como e para onde fugir e, quase sempre, instalavam a desordem e o
caos por ali. E o que aconteceria, por exemplo, em Paris, que já na primeira
metade do século XIX era das mais populosas e principais metrópoles do mundo?
Diz a lógica que tudo o que citei. Ou seja, o medo, o pânico, o êxodo, as
baderna e até o caos. Mesmo que não ocorresse nada disso, jamais a cidade teria
a mais remota aparência de normalidade. Certo? Errado! Pelo menos no que se
refere à epidemia de cólera de 1830.
Curiosamente, essa ocorrência conta com poucos testemunhos
literários. E não foi pelo fato da doença ser mais branda do que em outros
tempos e outros lugares e por atingir poucas pessoas. Muito pelo contrário, o
cólera matou, em apenas seis meses naquela ocasião, 19 mil parisienses!!! Foi,
como se vê, uma carnificina. Os dois principais (e escassíssimos) documentos
dessa época são de um historiador francês (que anda esquecido em nosso tempo) e
de um famoso escritor alemão. O primeiro foi Anais de Raucou (que mudou seu nome
para Anais Bazin, adotando o sobrenome do milionário que o adotou, com o qual
assinou todos os livros que publicou). Já a celebridade germânica que tratou da
epidemia de cólera em Paris foi Heinrich Heine. É certo que seu relato é menos
minucioso, pois sua preocupação era a situação política enfrentada pela França
na ocasião, que talvez eu venha a abordar algum dia, posto que em outro
contexto.
Anais Bazin fez seu relato no livro “A época sem nome”.
Consiste de detalhadas e minuciosas crônicas parisienses, retratando a Paris
daqueles turbulentos dias de 1830, de tamanha agitação política a ponto da população
sequer atentar para a epidemia que dizimava, de maneira feroz e implacável,
vidas e mais vidas de seus moradores. Informo que esse foi o período do início
do que passou para a história da França como a “Monarquia de julho”, inclusive
com episódios sangrentos em combates de rua e deposição de um rei e a dramática
ascensão de outro. Tratarei, porém, disso, em outra ocasião. Bazin dedicou um
capítulo inteiro do seu livro ao cólera. Trata-se, pode-se assim classificar,
de uma reportagem completa, perfeita, com começo, meio e fim, em que o autor
traça todo o histórico da epidemia (afinal, era um historiador).
Com extrema precisão, ele descreve como o cólera chegou a
Paris. Relata, ainda, quais foram as precauções recomendadas pelas autoridades
sanitárias aos cidadãos. Aborda as diversas reações (poucas) da sociedade local
face á doença. Não deixa de destacar, também, a valentia dos médicos e a
abnegação dos sacerdotes no atendimento aos doentes e aos milhares de moribundos.
Como bom repórter, que mostrou ser, não se esquece de apresentar um balanço
final de mortos. E conclui esse capítulo do seu citado livro com o súbito fim
da epidemia. Mas o que chama mais a atenção, e que me deixou estupefato, foi a
sensação que o historiador teve ao andar pelas ruas de Paris. A de que a cidade
não mudou em nada a sua rotina habitual, como se não houvesse nenhuma epidemia,
que ceifava milhares e milhares de vidas. Reforça a sua impressão o fato de que
praticamente ninguém escreveu sobre esse flagelo do ano de 1830.
Bazin observa o seguinte, em determinado trecho do capítulo
sobre o cólera em seu livro: “(...) Apesar de todos estes tristes pensamentos,
estes relatos desoladores, estes encontros funestos, nada foi suspenso no
movimento dos negócios. A cada manhã, as pessoas se preocupavam com os afazeres
do dia e com nada mais. Os comerciantes abriam seus estabelecimentos, os
restauradores mantinham seus fornos acesos, os cafés só acrescentavam a tília e
a menta a suas infusões habituais, sem, todavia, nenhuma quebra de rotina. As
carruagens circulavam, os burgueses exerciam sua vigilância de costume, os
jornais enchiam-se de discussões e de notícias. A Justiça seguia seu curso. O
tribunal dava seu veredito sobre as conspirações e ofensas. A Bolsa tinha suas
subidas e descidas e a política suas esperanças e suas desilusões (...)”.
E ele segue, mais adiante, em suas descrições: “(...) O
motim havia diminuído um pouco, nos primeiros dias da epidemia, como que para
acolhê-la. Paris, no entanto, parecia haver perdido um único dos seus costumes:
o dos casamentos. Ninguém estava tão seguro da própria vida para uni-la à de
outra pessoa. Em resumo, todas as indústrias funcionavam, como se fosse para
não se desacostumar de produzir. Inclusive, creio, sem poder comprovar, que uma
nova novela foi publicada na ocasião, por uma editora e enviada às livrarias”.
Confesso não conhecer nenhum outro caso em que os habitantes de alguma grande
metrópole tenham tratado, com tamanha indiferença, alguma epidemia, como a
população de Paris tratou a do cólera, em 1830, mais preocupada com os azares e
vaivéns da política do que com o risco de encarar uma morte certa, caso contraísse
a doença. É ou não é espantoso?!!!
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Custo a acreditar, mas se você é quem diz, acredito. Eu já desisti de viajar devido a surto de doença no local de destino.
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