Vergonha de um Brasil
Por Rosana Hermann
Existe um Brasil turístico que todos
amamos. São as praias paradisíacas do litoral, as matas verde-bandeira que
abrigam incontáveis espécies, a abundância de água doce que flui nos rios e
despenca em quedas cinematográficas. É o Brasil-natureza que traz turistas e
suas moedas para todos os estados, dos que fazem turismo ecológico aos que
fazem turismo tradicional. Mas já aí, lembramos de um problema gravíssimo, o
turismo sexual, especialmente com crianças menores de idade. É de chorar de
revolta.
Há um Brasil cultural que também muito
nos orgulha. É o Brasil popular de Chico, Caetano, Gil, Olodum e o Brasil
clássico de pianistas, regentes, de Villa Lobos a Tom Jobim e tantos outros. E
há ainda o Brasil da pintura de Di Cavalcanti, da literatura pop de Jorge
Amado, da arquitetura de Niemeyer.
Elencar listas assim sempre nos faz
incorrer em erros e injustiças, porque há tantos Brasil honrados. Veja o caso
de Pitanguy, na cirurgia plástica estética. E o que dizer então do mundo dos
esportes? Do futebol que, enfim, é penta, dos meninos e meninas do vôlei, do
basquete, do técnico Bernardinho, tão em alta com sua disciplina, técnica e
exigência?
Há até o Brasil de Sebastião Salgado,
que retrata a miséria e a realidade rústica e dolorosa da nossa gente mais
desfavorecida, ressecando a garganta com seus retratos e roubando a cor da face
com suas paisagens.
Mas estes brasis estão ofuscados pelo
Brasil vigente, o Brasil corrupto, o Brasil filhodaputa, o Brasil desgraçado, maldito
e vergonhoso. De gente escrota, despreparada e ambiciosa, burra e
destrambelhada. De gente de todos os partidos, atividades, credos e cruzes, que
despreza qualquer tipo de refinamento humano construído durante milhares de
anos de cultura e história. São pessoas toscas que estão em todos os lugares.
Dessas que escarram no chão, jogam latas pela janela do carro, peidam nos
elevadores e literalmente cagam para todos nós. São os shreks da política,
ogros latifundiários, ciclopes das empresas. E não há categoria que não tenha
seus representantes nesta horda de vagabundos. Podem ser religiosos ou ateus,
ricos ou remediados, nenhum grupo escapa.
Como tirá-los do poder? Como corrigi-los? Como puni-los? Com o voto. Só
com o voto. Tire o voto de um político corrupto e você terá um bandido sem
arma. Não há outra solução.
Mas não. Infelizmente, vemos em algumas
pesquisas que revelam que há candidatos a cargos eletivos, sabidamente ladrões
contumazes, de caráter totalmente duvidoso, com passados comprometidos, que
estão na lista de prováveis eleitos.
É triste. É revoltante. É
desestimulante. Dá vontade abandonar a pátria, imigrar pro Canadá, mudar de
nacionalidade. Dá vontade de renegar a cidadania, de abrir a janela e xingar
todo mundo de idiota. E depois, chorar a culpa sabendo que muitos desses
iludidos não têm a menor condição de votar diferente. Dá vontade de viajar pra
justificar o voto, de votar branco, nulo, de escrever com batom no espelho, de
fazer qualquer coisa pra acordar este Brasil hipnotizado pela televisão que não
consegue ver que reis, rainhas, príncipes, estão todos nus. Nus de moral,
ética, humanidade.
Nestas horas, dá vontade de recorrer ao
D’us vingador e pedir que num zás, num gesto, Ele destrua todos, mas todos os
corruptos desgraçados deste país. Mas aí, seria mesmo caso de ir embora. Com
uma extensão territorial tão grande, a gente ia acabar morrendo de solidão.
*Rosana Hermann
é Mestre em Física Nuclear pela USP de formação, escriba de profissão,
humorista por vocação, blogueira por opção e, mediante pagamento, apresentadora
de televisão.
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