Civilização
contraditória
* Por Pedro J.
Bondaczuk
O homem, nos dois últimos séculos ---
notadamente neste atual --- evoluiu, em termos tecnológicos, muito mais do que
no restante da história da espécie. Encurtou distâncias, criou máquinas e
utensílios que facilitaram a vida cotidiana, cultivou o solo, domou o átomo e
dominou as forças naturais para gerar a energia de que precisa. Chegou a deixar
seu dômus cósmico, em busca de outros mundos, ou através de pessoas --- no
caso, as viagens tripuladas à Lua de fins da década de 60 e início da de 70 ---
ou mediante os engenhos que criou, como as sondas espaciais Pioneer e Voyager I
e II, entre tantas outras, que pousaram em cometa e num meteorito, fotografaram
o distante Plutão e deixaram o Sistema Solar rumo ao desconhecido que tenta
conhecer.. A cada dia, novas e mirabolantes descobertas são anunciadas e a
ousadia humana, no campo científico, parece não ter limites.
Todavia, a esse avanço extraordinário
da técnica e da ciência não correspondeu uma evolução do comportamento. Em
alguns aspectos, houve até mesmo perigosa regressão. Desníveis sociais e de
renda persistem, não apenas entre países, mas no interior de todas as
sociedades nacionais mais avançadas. Os Estados Unidos, por exemplo,
constituem-se no país mais rico e poderoso do mundo. No entanto, a cosmopolita
e multimilionária Nova York conta com um contingente de moradores de rua de mais
de 60 mil pessoas (25 mil das quais crianças), ou seja, número maior, muito
maior do que o que há, por exemplo, em São Paulo ou no Rio der Janeiro. E o
fosso entre ricos e miseráveis aprofunda-se mais e mais com a absurda
concentração de renda cada vez em menos mãos. Isso ocorre em todos os
quadrantes. Verifica-se no espaço e no tempo. Acentua-se de uma geração para
outra. Não há, nos dias atuais, uma única sociedade que possa ser tomada como
paradigma de justiça social. E nem que sequer se aproxime disso.
O economista italiano Aurélio Peccei,
fundador do Clube de Roma – embrião das Comunidade Europeia – constatou, no
livro "Antes que Seja Tarde Demais", escrito em parceria com o
pensador budista japonês Daisaku Ikeda: "Nos precipitamos para o futuro,
usando os recursos mais avançados ao nosso dispor, enquanto as idéias, as
emoções, as políticas e as instituições continuam ancoradas em um passado que
já não existe". Seria este o destino do homem? Este animal superior --- já
que é dotado de razão --- existiria apenas para fazer "coisas", com
os limitados recursos do planeta que habita?
O ensaísta norte-americano Henry David
Thoreau, em seu livro "Desobedecendo", uma espécie de
"manual" de desobediência civil, que estimulou Mohandas Karamanchand
Gandhi em sua luta pela independência da Índia, acentuou, em um de seus
melhores ensaios, intitulado "A vida sem princípios":
"Instalamos nossos corpos imensos em nossas almas frágeis, até que os
primeiros engulam toda a substância das segundas". Ou seja, sobrepomos
nossas satisfações físicas às espirituais e acabamos não satisfazendo nem a uma
e nem a outra.
O homem, a todo instante, inventa novas
necessidades e com elas corre o risco de exaurir, em uma única geração, os
recursos limitados do Planeta que deveriam ser preservados para milhares, quiçá
milhões delas, através dos milênios vindouros. Muitos já estão no limite da
exaustão. Esse animal egoísta e cruel age sem senso e sem cuidado. Destrói
espécies inteiras, que jamais serão repostas (vejam a ameaça de extinção que paira
sobre as abelhas). Com isso, condena a própria humanidade a uma futura e
dolorosa extinção.
O próprio Peccei alerta: "Só a
nossa ignorância atual nos impede de compreender o quanto a diversificação
estupenda e abundante da vida é indispensável para nossa existência saudável.
Toda planta ou animal, erva ou inseto, por menor ou mais humilde que seja, é,
em si, um microcosmo. Extinguir outras formas de vida é pior do que queimar
bibliotecas, porque estamos destruindo para sempre uma fonte de conhecimento
que talvez não exista em nenhum outro lugar a não ser em sua sabedoria e
experiência naturais".
Por isso, não se pode deixar de dar
razão a Edgar Morin quando questiona se o homem merece mesmo a designação de
"homo sapiens", ou se não seria mais adequado e apropriado chamar
esse ser contraditório de "homo demens".
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Avança na sapiência e regride na sabedoria.
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