De generalidades
* Por Pedro J.
Bondaczuk
O conceito de progresso está no rol
daqueles ideais vagos que nutrimos, como felicidade, esperança, amor, etc. Para
cada pessoa esses conceitos têm um significado, uma definição, uma conotação
muitas vezes diametralmente opostos. Tais palavras prestam-se, sobretudo, à
retórica dos políticos e dos escritores pedantes. Ensejam a elaboração de
textos pomposos, esteticamente bem colocados, porém sem preocupação com a
substância. Progredir, para a maioria, continua sendo caracterizado pelo
acúmulo de bens materiais, daquelas bugigangas que as pessoas acham que não
podem prescindir, quando em verdade podem sobreviver muito bem sem elas.
Corman Burke fez a seguinte observação
a esse propósito: "`Progresso' é uma palavra bonita, mas pode ter diversos
significados. Será que uma sociedade está progredindo porque adquiriu a
capacidade de produzir armas atômicas ou porque suas naves são capazes de
chegar ao planeta Marte ou mais longe, ou por que podemos discar diretamente
para a Austrália...? As técnicas de guerra podem ter progredido, a velocidade
da comunicação intercontinental ou interplanetária pode ter progredido, mas...o
homem estará progredindo? Esta é certamente a pergunta fundamental". A
resposta às questões levantadas por Burke é, evidentemente, não!
Suponhamos, como muitos entendem, que
progresso signifique avanço tecnológico, entre outras coisas. Como tudo na
vida, tal evolução tem um preço, muitas vezes alto demais, proibitivo e
portanto não compensador. É o caso, citado por Burke, da fabricação de armas
nucleares. Ademais, o homem moderno está cada vez mais dependente das
facilidades que criou. Hoje não se concebe mais uma sociedade dita civilizada
que não disponha de eletricidade, de telefonia, de rápidos e eficientes
veículos de transporte, dos meios de comunicação de massa, das redes de
computadores, etc. Não sou retrógrado para negar os benefícios que estas
maravilhas trouxeram para todos nós. Mas todas vêm acompanhadas de
inconvenientes. Uns são mais graves, outros menos, contudo ainda assim
aborrecidos.
Um caso que ocorreu comigo por estes
dias ilustra bem o que quero dizer. Acostumei-me a escrever no meu micro e não
troco este recurso por nenhum outro existente. Os textos saem limpos, as
emendas podem ser feitas com a maior facilidade, e sua qualidade, por
conseqüência, só tende a melhorar. Mas nem tudo é maravilhoso. Nem sempre o
redator consegue alinhavar as palavras de forma medida, correta, exata, sem
nenhuma fora de lugar e contexto, de maneira a produzir um conto, uma crônica,
um poema ou um ensaio que beirem a perfeição, contendo os ingredientes
indispensáveis para reter a atenção do leitor: originalidade, clareza,
concisão, criatividade e interesse.
Pois bem, outro dia consegui um texto
destes. Depois de concluído, nem acreditava na minha façanha. Li, reli, tornei
a ler, voltei a reler, à procura de algum defeito, e... nada. Como não
confiasse muito no meu critério de avaliação, pedi para vários companheiros de
redação, com senso crítico bastante aguçado, que lessem a referida crônica.
Houve unanimidade. Choveram elogios. Não houve um só que lhe apontasse qualquer
defeito. Convenci-me, portanto, que de fato estava excelente. Como não costumo
gravar na memória do micro (ou em disquete) cada parágrafo que escrevo, fazendo
isso só quando acho que não deva fazer mais nenhuma emenda, não me preocupei.
Havia uma visita à minha espera e fui atendê-la, deixando o texto aberto na
tela.
Qual não foi a minha frustração, porém,
quando uma pane na rede apagou tudo, absolutamente tudo o que eu havia escrito!
Provavelmente a minha melhor crônica desapareceu do mapa, do mundo, do universo
em fração de segundos. Por melhor que seja a minha memória, não me sentia capaz
de a reconstruir. E de fato não consegui. Como se vê, a moderna tecnologia é de
fato fantástica e facilita em tudo a nossa vida. Mas cobra um preço muito alto,
em alguns casos até intolerável. No meu caso (exageros a parte) pode ter
suprimido a minha imortalidade enquanto escritor.
Voltando ao assunto "progresso",
tenho a convicção de que somente estou progredindo não quando estou ganhando
bastante dinheiro, multiplicando os meus bens e subindo na escala social.
Evoluo quando melhoro minha capacidade de entender o que vejo, ouço ou leio
(inteligência). Quando desenvolvo a minha criatividade e produzo melhor. Quando
aperfeiçôo meus relacionamentos com as pessoas e torno-me cada vez mais apto a
servir sem nada querer em troca. A riqueza, o prestígio e a fama são meras
conseqüências dessa evolução. E, no entanto, também têm um preço...
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Como seus amigos leram a referida crônica, é certeza que tenham uma cópia.
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