A carteira
* Por
Rodrigo Ramazzini
Mara era arrumadeira de quarto.
Trabalhava em um movimentado motel da cidade. Sua obrigação era, assim que
recebesse o sinal do pessoal da portaria, correr até o quarto desocupado e
arrumá-lo no menor tempo possível, pois sempre havia novos clientes à espera.
Era solteira, sem filhos e morava com a
mãe. Sua rotina era ir de “casa para o trabalho” e vice-versa. Nos finais de
semana, acompanhava sua mãe nas missas de domingo e, em uma noite por mês,
mesmo com o orçamento apertado, dava-se ao luxo de ir a uma casa noturna que
tocava pagode.
Como arrumadeira, dentre a limpeza e a
organização de um quarto e outro, como é de se esperar, Mara encontrava vários
pertences deixado por apressados clientes. Objetos que variavam de cuecas
personalizadas a celulares. Pois bem, e naquela chuvosa noite de sexta-feira,
dia de maior movimento no motel, não foi diferente.
O seu turno de trabalho acabara de
iniciar, e logo no primeiro quarto, ela encontrou uma carteira. Dificilmente
achava carteiras. Estava no chão, embaixo da cama. Foi abri-la, mas ao notar
que era uma carteira masculina, pensou: “Os homens costumam pagar o motel.
Daqui a pouco o pessoal da portaria telefona e vou ter que correr para devolver”.
Desistiu de mexer na carteira. Colocou-a no bolso do uniforme e continuou, com
a pressa habitual, a arrumar o quarto.
A agitação noturna a fez esquecer a tal
da carteira. Voltou a pegá-la no final do turno de trabalho, quando já trocava
o uniforme. Analisou-a por alguns instantes e, tomada pela curiosidade,
discretamente, abriu a parte onde ficava o dinheiro.
Abriu e a fechou rapidamente. Pelo
simples passar do dedo nas notas, contabilizou, por cima, mais ou menos
quinhentos reais. Quase o salário de um mês inteiro. “E agora?” – indagou-se.
Entregava a carteira e se ninguém viesse buscar, como acontecia com quase tudo
que era encontrado no motel, o proprietário ficaria (de novo) com todo o
dinheiro sem lhe dar um real. Ou levava-a embora, afinal, ninguém sabia da sua
existência. Ventilou, também, a hipótese de entregar a carteira sem o dinheiro,
mas logo desistiu, pois se o dono, por acaso, aparecesse e dissesse que havia
dinheiro nela, seria a sua palavra contra a de um cliente. Tinha que escolher
entre as duas opções.
O tempo para pensar foi pouco, pois o
seu chefe a chamava. Justamente naquele mês, as contas tinham apertado em casa,
e aquele dinheiro parecia ter caído do céu. Porém, a consciência a alertava,
pois sempre fora uma pessoa correta. “O que eu faço?” – questionou-se pela última vez, já ouvindo os
gritos de “Mara, Mara” do chefe. Fechou os olhos, deixou escapar um “meu Deus!
O que estou fazendo?” e jogou a carteira dentro da bolsa.
No outro dia, já em casa, trancada no
seu quarto, voltou a mexer na carteira. Foi então que sucessivas surpresas
começaram a aparecer. Primeiro, a quantia em dinheiro. Não eram
quinhentos reais, e sim, oitocentos e cinqüenta reais. Não hesitou em abrir um
sorriso após a contagem e pensar com alívio, apesar da origem do dinheiro, que
todas as suas contas estariam pagas naquele mês. Porém, assim que mexeu nos
documentos que também estavam na carteira, e identificou o dono, o ar risonho
se desfez, e balbuciou: “Eu não acredito!”. A carteira pertencia ao Zecão, o
seu último namorado.
Fazia dois anos que ela e o Zecão
haviam acabado o namoro, por causa de uma traição dele. E por ironia do
destino, Mara havia se tornado amiga da atual namorada do Zecão, a Milena, que
sabia do envolvimento dos dois no passado, mas não dava muita importância ao
fato.
Falando sozinha, Mara quebrava o
silêncio do quarto, repetindo: “Eu não acredito que o Zecão está fazendo isso
com ela! Eu não acredito que está traindo ela!” Inconformada, em um impulso,
pegou a sua bolsa, colocou a carteira dentro, e rumou para a casa da Milena,
pois sabia que, naquele horário, a amiga não poderia estar no motel porque
estava em horário de serviço.
A residência da Milena ficava distante
algumas quadras. Caminhando, durante o trajeto, a razão começou a agir nos
pensamentos de Mara. Como poderia contar da traição? Que prova teria contra o
Zecão? A carteira? Mas se entregasse a carteira, não poderia ela ser acusada de
furto? Ainda mais que ela estava com dinheiro? Não estaria gerando uma prova
contra si mesma? E se não entregasse,
apenas contasse que o Zecão estava no motel, a Milena acreditaria apenas na sua
palavra? E como ela interpretaria esse ato?
Um ciúme tardio para tentar afastá-los?
Mesmo sem respostas para as suas indagações, Mara chega à casa de Milena.
Foi recebida pela própria, que lhe abre
a porta, aos prantos de choro e agradecimentos por estar ali. Mara sem saber o
que estava acontecendo, faz a amiga sentar-se e serve-lhe uma água com açúcar.
Então, Milena começa a narrar o ocorrido. “Ai, amiga! Aconteceu é que... Eu... Eu
passei no banco e retirei todo o meu pagamento do mês e... E dei para o Zecão
guardar para mim... Só que... Só que ele perdeu a carteira! Não sabe onde...
Com o meu salário todo dentro! Estou
perdida! Como vou pagar as contas? O que eu faço agora, Mara?”
Mara também fica nervosa. Entregar ou
não entregar a carteira, eis a questão com os seus respectivos efeitos.
Assistindo a amiga daquele jeito, ela não titubeia, coloca a mão dentro da sua
bolsa, pega a carteira, e de olhos fechados, entrega a Milena.
Milena ao ver a carteira abre um enorme
sorriso, dá um tapa na testa e condena-se: “Putz! Como eu não me lembrei do
motel! Graças a Deus!” Disse isso e pulou em direção à amiga, abraçando-a, em
agradecimento.
Naquele dia, Milena e o Zecão estavam
fazendo aniversário de namoro. Para homenageá-la, o Zecão ligou para uma rádio
que premiava a declaração de amor mais bonita com uma noite em um motel. E ele
ganhou! Então, passou no trabalho da Milena, que explicou ao seu chefe sobre a
data e ele lhe concedeu uma folga. Foram a um restaurante e depois ao motel.
Assim que Milena terminou de narrar à
história, aliviada, Mara respirou fundo e pediu um copo de água à amiga...
*
Jornalista e contista gaúcho
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